O Poder do Riso

Publicado em: 13/10/2011

Fernando Carril, aprendiz de Humor da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, concedeu uma entrevista ao blog Indike, falando sobre a sua carreira como palhaço e sua atuação no grupo Esparatrapo, que realiza trabalhos em hospitais infantis da capital paulista e no projeto “Entre Risos e Lágrimas”, do Centro de Memória do Circo de São Paulo.

Confira abaixo a matéria completa.

 

“Vale mais um sorriso longo que uma breve gargalhada”

Por Ana Maria Madeira

 

Humanizar o ambiente hospitalar não é tarefa simples. A saturação e precarização do sistema de saúde, que acontece inclusive nos hospitais particulares (ainda que em menor grau), acaba fazendo com que os pacientes recebam cada vez menos atenção de médicos e enfermeiros. E  nem grupos de maior vulnerabilidade como crianças e idosos escapam. Mas se por um lado este Dia das Crianças será comemorado em um hospital por muitas famílias, por outro, grupos de palhaços voluntários entram em cena para mostrar o poder de cura que o riso tem.

 

Um desses grupos é o Esparatrapo. Fundado em 2006, o grupo estuda a linguagem do palhaço e dela se utiliza para desconstruir a realidade em ambientes como hospitais e abrigos de idosos. “Um grupo é uma entidade viva e espero contribuir para sua realização palhacística, um estudo que nunca termina”, como define bem o voluntário Fernando Carril. Confira entrevista:

 

Conte um pouco da sua trajetória profissional e em que momento você decidiu atuar no Esparatrapo.

Eu sou Fernando Carril (como palhaço sou Eu Ferdinando), 40 anos, paulistano. Estudo palhaço desde 2009 e estou no Grupo Esparatrapo há seis meses. Atuamos em hospitais infantis da capital paulista e no projeto “Entre Risos e Lágrimas” do Centro de Memória do Circo de São Paulo.

 

Também estudo atuação cômica na Escola SP de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco e faço aulas na oficina de Palhaço de Cristiane Paoli Quito. Antes disso trabalhei como jornalista (por quinze anos) nos sites de revista da Editora Abril, tive passagem pelo Japão para um site da comunidade brasileira e administrei a área de mídia móvel do portal UOL.

 

Em um difícil momento familiar, esgotei-me. E uma das saídas do poço foi pelos cursos de clown, onde descobri um árduo, porém fascinante ofício. Vale mais um sorriso longo que uma breve gargalhada. Já tinha realizado cursos nos Doutores da Alegria e fiquei com vontade de atuar em hospitais para entender melhor essa atividade. Busquei um grupo e no Esparatrapo encontrei flexibilidade, disposição, dedicação aos pacientes e muita graça na atividade deles. Antes de entrar, já me divertia vendo suas histórias na Internet ou como observador do trabalho no hospital. Um grupo é uma entidade viva e espero contribuir para sua realização palhacística, um estudo que nunca termina.

 

Para ter essa relação com as crianças hospitalizadas ou idosos em casas de acolhimento, é importante ter formação de palhaço?

Em qualquer atividade, penso ser FUNDAMENTAL o máximo de conhecimento para realizar o trabalho com mais tranquilidade. No caso do palhaço, além de ser necessário repertório e desenvolver habilidades físicas, é preciso preparar o espírito para o “flop” (a falha) que toda arte ao vivo corre risco de ter.

 

Assumir o fracasso e oferecer seu ridículo é difícil, sobretudo para quem for perfeccionista. Além disso, deve saber lidar com o público, jogar e improvisar. Há uma mudança de escala do palhaço tradicional, que atua em espaços grandiosos. No hospital tudo é mais delicado, gradual e cuidadoso, até a loucura do palhaço.

 

Além da preparação cênica, que tipo de preparação emocional é necessária? Como controlar a emoção e o envolvimento com os pacientes ou idosos em asilos?

Antes de mais nada, é um trabalho. Portanto, exige estudo, dedicação e concentração para conseguir alguma realização (provocar interesse, um sorriso, transformar o ambiente). E é preciso generosidade para fazer e principalmente humildade para não fazer – se os pacientes não quiserem, não tem espetáculo.

 

Se houver espaço para o jogo e o lúdico, melhor. Daí se desenvolve uma história com a parte boa dos pacientes, sem negar a doença mas buscar o que vive no outro. Não é controlar, mas direcionar a emoção para a vontade de dar o melhor possível para a menor plateia do mundo: um paciente.

 

Qual foi a situação que mais te tocou no Esparatrapo?

Hospitais são lugares muito interessantes para palhaços, pois permitem subverter a ordem e o progresso vigentes, trazer a humanização entre pacientes, familiares, terceirizados funcionários, médicos… O que mais me arrepia é quando aparece aquele momento de conexão e todos viram “crianças no pátio”: olhos vivos na UTI, pés dançarinos no ambulatório, sorrisos na família – transformação da realidade num instante.