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O Ensino de Cenografia e de Técnicas de Palco na SP Escola de Teatro

Publicado em: 19/07/2010

por J.C. Serroni, Coordenador dos Cursos de Técnicas de Palco e Cenografia e Figurino

 

Acabo de voltar de Catanduva, cidade a quase 400 quilômetros de São Paulo, e nas intermináveis quatro horas na direção do carro vinha pensando repetidamente no que eu poderia escrever para o artigo que havia prometido para a “Coxia”, importante revista virtual mantida pela SP Escola de Teatro. Uma primeira reflexão que fiz foi o que me levou a ministrar um workshop, no final de semana, em lugar tão distante, para 12 aficionados do teatro amador? Por que, ao contrário de todos, que aproveitam  um feriado prolongado para lazer, optar por  ensinar cenografia, figurinos, cenotecnia etc?

Talvez seja a paixão pelo teatro? Ou a responsabilidade que tomei para mim frente ao desenvolvimento da cenografia brasileira? Ou talvez honrar um projeto pelo qual trabalho há quase três anos. Sim, isso pesou. Levar a formação teatral na sua amplitude pelo interior de nosso Estado é uma das metas da SP Escola de Teatro entre tantas outras.

Enquanto dirigia, entre paisagens infindáveis de plantações de cana de açúcar,  me vinham à mente as expressões de surpresa, de interesse,  daqueles jovens aprendizes na sala improvisada da velha estação de trem, um lindo cenário que hoje é só história. Cada assunto que eu abordava era para eles uma novidade. Não o assunto  em si, já que todos participam  do movimento amador do teatro na cidade, mas sim a forma de abordar, as informações conceituais, teóricas, históricas e técnicas.

Cada vez que realizo um trabalho dessa natureza, é que vejo a importância da Escola que criamos e o quanto ainda temos que discutir,  aprender e  ensinar nas áreas que atuo: cenografia, figurino, cenotecnia, arquitetura teatral etc.

É claro que as coisas já não são mais como eram quando comecei. Já não se confunde mais cenografia com coreografia! O iluminador de teatro não é mais um eletricista? Mas os técnicos de teatro, infelizmente, são cada vez mais raros, e cada vez mais despreparados. Sim, nisso nos atrasamos. Mas, enquanto isso me causa certa preocupação, o otimismo me anima. Acabo de estrear uma superprodução em São Paulo, um musical “ O Médico e o Monstro”, onde 11 técnicos atuam em cena. E que coisa promissora: quatro deles são aprendizes do curso Técnicas de Palco da nossa Escola, com menos de 6 meses de aprendizado. E que aprendizado! Recebi elogios pelo comportamento dos “meninos”, e tudo pela nova postura que postulamos na SP: o técnico também é artista. Um técnico que não só bate pregos ou empurra cenários mecanicamente. Ele sabe o por quê do que está fazendo e de onde vem a necessidade disso.

É muito compensador ver que aspectos teóricos de nosso projeto pedagógico começam a se manifestar na prática.

Não acredito no ensino da cenografia, da iluminação, da sonoplastia e da técnica de palco sem a prática, sem o fazer, e talvez seja esse um dos pontos altos de nosso processo de formação: equilibrar os experimentos com os processos e a formação teórica.

É claro que é muito importante discutir qual seria o espaço ideal para o teatro no início desse terceiro milênio? Se a cenografia é a grafia da cena ou se é a dramatização do espaço? Se interessa mais uma porta num cenário ou o momento em que um ator a atravessa? Discutir as novas tecnologias e de como devemos ter bom senso em usá-las? Que cenografia é arte integrada? Que o ator é o centro do espetáculo? Que cenografia não é shopping center?  Etc., etc., assuntos que trabalho sempre em meus cursos e em minhas oficinas.

Mas, paralelo a isso, precisamos discutir a aplicação dessas teses. De como podemos inseri-las no nosso dia a dia de trabalho. De como resgatamos a relação mestre e aprendiz, como podemos trazer de volta para a cenografia e a cenotecnia nossos processos artesanais e os truques simples de décadas atrás.

São esses alguns aspectos de vital importância direcionados em nossa Escola. É essa a nossa meta, especialmente nos cursos de cenografia, iluminação, sonoplastia e técnicas de palco, que até então eram vistos como puramente técnicos. Queremos ensinar sim a técnica, mas queremos também que nossos aprendizes tenham consciência que, antes disso, eles devam ser artistas, e que a junção desses dois fatores resultarão  certamente em profissionais mais criativos e com profundo conhecimento de seu ofício.