O Belo Sob o Vento

Publicado em: 20/09/2012

A mitologia yoruba narra as história dos orixás – divindades ou energias da natureza – cultuados pelas religiões de origem africanas. Um desses orixás chama-se Omolú. Entre muitas versões conhecidas, sua história começa quando Nanã Buruque, orixá dos pântanos e senhora da Morte, queria ter um filho e realiza um feitiço para engravidar. Algo aconteceu e Omolú nasceu deformado e coberto por chagas. Sua mãe, muito frustrada, abandou o bebê à beira-mar. Salvo por Iemanjá, Omolú foi alimentado e foi curado pela água salgada. São, Omolú tinha vergonha de si por causa das cicatrizes e passou a viver isolado.

 

Um dia, os orixás organizaram uma festa, mas Omolú não apareceu. Ogum, seu irmão, descobriu que ele não queria se expor e teve uma ideia. Buscou palha na mata e fez uma capa que cobria Omolú da cabeça aos pés. Trouxe o irmão para o local da festa mas, para a sua tristeza, ninguém se aproximava dele. Iansã, orixá dos raios e tempestades percebeu e chamou Omolú para dançar.

 

Enquanto dançavam, Iansã soprou sobre a palha e, para a surpresa de todos os orixás, o vento revelou um belo homem, sem defeito algum. Ele recompensou Iansã com alguns de seus poderes e daquele dia em diante, o belo Omolú nunca mais deixou de dançar…

 

Assim como Augusto Omolú, que na última  terça-feira, (18), ministrou a primeira aula de “A Dramaturgia da Dança dos Orixás”, promovido pelo departamento de Extensão Cultura da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes em parceria com a Palipalan Arte Cultura. O orientador é um dos mestres da International School of Theatre Anthropology (ISTA) e ator do Odin Teatret desde 2003. 

 

“Dançar. Quero ver vocês dançarem”, disse Omolú ao iniciar o curso. “Esse trabalho foi o desenvolvimento de uma pesquisa realizada durante anos, baseada em dança clássica junto aos elementos da cultura africana e do candomblé. Com o tempo, fui descobrindo a riqueza dos movimentos e as possibilidades na dança dos orixás.”, explicou.

 

Omolú também alia esse trabalho com a antropologia teatral. “Meu objetivo é misturar teoria e prática e explorar a dramaturgia do movimento de cada orixá. É um trabalho de corpo intenso para a formação do ator e bailarino”, completa o artista.

 

 “O Augusto trabalha com a intenção de cada movimento. O orixá Ogum, por exemplo, é um guerreiro, diferente de Iemanjá, deusa do mar. A ideia é transportar essas personalidades no trabalho de corpo”, contou a aluna Mari Taques.

 

Outra aluna, Carol Carolina, revelou que as aulas são intensas e com muitos exercícios de exaustão. “Quando você não aguenta mais, descobre que ainda existe energia”, comentou.

 

Sobre a turma, Omolú demonstrou entusiasmo. “Temos um grupo bem diversificado. Alguns têm algum conhecimento sobre o tema e outros vão ter o primeiro contato. Quanto aos exercícios, que eles se preparem, porque vão sofrer”, brincou o baiano, que segue com o curso até dia 22, sábado, na sede Roosevelt da SP Escola de Teatro.

 

 

Texto: Leandro Nunes