O aprendizado que pode modificar nossas condições temporárias ou Um viva aos nossos professores

Publicado em: 15/10/2021

Ivam Cabral, diretor executivo da SP Escola de Teatro – Foto: Arquivo SP Escola de Teatro

Por Ivam Cabral
Diretor executivo da SP Escola de Teatro e da Adaap

Tenho passado a vida estudando. Fiz graduação, mestrado e doutorado. Fiz cursos livres e cursos de extensão e de pós-graduação, também. Muitos! Nesse momento, inclusive, faço três cursos de pós-graduação ao mesmo tempo. Sim, eu sempre fui exagerado.

Mas é porque, também, eu gosto demais de estudar. Comecei aos quatro, no ano que faria cinco anos, no jardim de infância do Grupo Escolar Correia Defreitas, lá em Ribeirão Claro, minha cidade natal. Me lembro bem desse dia.

Minha irmã Irani é quem me levou à escola naquele primeiro dia. Embora a escola ficasse lá no alto da cidade, na mesma rua de casa, a gente subiu pela rua principal, a da igreja matriz, paralela à nossa. Acho que a minha irmã queria me exibir pra cidade porque eu realmente estava elegante naquele dia, em um uniforme jardineira azul, com camisa cor-de-rosa xadrez e boina azul, do mesmo tecido da jardineira.

Grupo Escolar de Ribeirão Claro – Foto: Acervo DER-PR

A partir daí, passei pouco tempo sem que estivesse matriculado em algum curso ou em vínculo com alguma universidade ou instituição.

Então eu fui sendo moldado pela aprendizagem que recebia. E tive sorte porque, nesses anos todos, cruzei com pessoas tão incríveis que sempre me abriram novas perspectivas de vida. Também fui dar aulas e isso também foi um processo de aprendizagem.

Mas, engraçado, eu só teria a verdadeira noção do que é ser professor quando, a partir de 2010, eu vim dirigir a SP Escola de Teatro. Assim, na condução desse exercício, eu fui me deparar com o dia a dia de uma realidade até então, digamos, oculta. Uma coisa é você conduzir um processo de maneira esporádica; outra, no movimento diário da profissão.

Embora, na SP Escola de Teatro, nesses anos todos, eu tenha aparecido pouquíssimas vezes em sala de aula, continuei a ministrar cursos e oficinas e, nos muitos últimos anos, atuado em cursos de graduação ou pós-graduação, a minha rotina passou a contar com estratégias na elaboração de sistemas de pedagogias para os nossos cursos na SP. E, ultimamente, fora da SP também, inclusive em escolas fora do Brasil.

Precisei desenvolver outros olhares, o famoso enxergar de fora pra dentro, num constante estudo de alteridade que me fez perceber o real papel do educador. Com isso, uma infinidade de portas e janelas e caminhos e possibilidades que vieram sendo revelados de maneira, muitas vezes, surpreendente.

Hoje, não tenho dúvidas. Nenhuma, aliás. Não só o futuro está nas mãos dos nossos professores. O passado também. Até porque, soubemos desde sempre, é verdade, precisamos corrigir a história. Sou da corrente dos que acreditam que, mais do que nunca, precisamos refazer nossos percursos históricos. Inclusive porque a história não é e nunca foi um recorte definitivo sobre a vida. Nem a geografia. Não podemos mais edificar fronteiras e separar o mundo entre centros e periferias. A questão, atualmente, tem a ver com territórios.

Unidade Brás da SP Escola de Teatro – Foto: André Stefano

Quem me provoca a todo instante são justamente os professores que vou encontrando pelo caminho. Agora há pouco, por exemplo.

Às sextas-feiras, das 8 às 10h, me encontro com Freud em um curso de extensão, “Freud e a clínica psicanalítica da atualidade”, que estou frequentando na Associação de Psicoterapia Psicanalítica – APP.

A aula de hoje foi comandada pela psicanalista Maria Lydia Manara de Mello para falar sobre os princípios do prazer e da realidade para se chegar até as pulsões de vida ou de morte. Nunca uma aula fez tanto sentido.

Em “O mal estar da civilização”, Freud vai categorizar o homem em relação aos animais para distingui-los a partir da ideia de civilização, que é o elemento que dá identidade própria à humanidade. Mas que, ironicamente, o coloca em confronto com essa humanidade na direção em que se torna seu maior inimigo. Afinal, a civilização que significa humanidade não pode prescindir à coerção.

Mas é importante, também, lembrarmos que Freud não distingue civilização do conceito de cultura. E, talvez, resida, aí, o que pode salvaguardar a nossa humanidade. Se, ainda segundo Freud, nós somos responsáveis por nossas próprias escolhas, é fato que podemos, numa rápida mudança de rota, seguir trilhos que possam nos separar dos mundos que não se adequem à nossa forma de perceber essa “humanidade”.

Então o conhecimento e a escola e os professores e todo o aprendizado do mundo podem, sim, modificar nossas condições temporárias. Eu disse “temporárias” no sentido de direções que possam refazer nossos trajetos, expectativas ou, simplesmente, apreensões. Então o mundo será reinventado sempre e nossas humanidades preservadas.

Viva os professores e um obrigado do tamanho da minha vida!

Unidade Roosevelt da SP Escola de Teatro – Foto por AndreStefano.com




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