O Anti-Herói

Publicado em: 13/08/2010

Roberto Succo nasceu, no dia 3 de abril de 1962, em Veneza. Filho de um oficial de polícia e de uma dona de casa, esse jovem, aparentemente normal, cometeu, antes de completar 20 anos, dois assassinatos: o esfaqueamento da mãe e estrangulamento do pai. O motivo? Porque se recusaram a lhe emprestar o carro. Escondeu os corpos numa banheira repleta de água e cal para retardar o apodrecimento dos assassinados e fugiu, levando consigo a pistola que seu pai usava em serviço.

Capturado e condenado a dez anos de prisão numa clínica psiquiátrica, conseguiu fugir depois de cumprir cinco anos de pena e deixou o país, viajando de trem para a França, local onde estuprou e matou duas adolescentes, assassinou um médico e, ainda, dois policiais que estavam prestes a capturá-lo.

Roberto Succo roubou, sequestrou e aterrorizou pessoas em pelo menos quatro países europeus. Considerado inimigo público número um na França, Itália e Suíça, recebeu o apelido de “Monstro de Mestre”, uma referência ao município próximo de Veneza onde foi capturado e cometeu suicídio em sua cela. Antes de sua morte, foi novamente submetido a avaliações psiquiátricas, que confirmaram que ele sofria de esquizofrenia e paranóia.

Mesmo com seu suicídio, não chegava ao fim a história desse garoto, que provocou tanto assombramento e comoção na sociedade francesa, considerado um dos mais cruéis seriais killers da Itália. Inspirado nos últimos momentos de sua vida, o escritor francês Bernard-Marie Koltès escreveu “Roberto Zucco”, uma das maiores obras do teatro contemporâneo.

Roberto Zucco


O texto de Koltès traz uma série de questionamentos sobre a moralidade nas sociedades pós-modernas. Zucco, protagonista mítico atípico é um anti-heroi que desafia conceitos morais, carrega a dor da incomunicabilidade e o isolamento emocional típico da vida contemporânea.

A peça estreou no Schaubühne (Berlim-Alemanha), em 1990, e, agora, conta com uma nova montagem da Cia. Os Satyros, na Praça Roosevelt, centro de São Paulo, que estreia hoje, sexta-feira (13). “Zucco é uma obra prima dos últimos 20 anos, texto que não se esgota à primeira leitura e mantém seu enigma até o final”, explica Rodolfo García Vázquez, diretor do espetáculo.

Durante o período de preparação e ensaios, que durou aproximadamente um ano, Os Satyros revitalizaram o seu processo criativo ao apostar na investigação e realização da obra de Koltès e, também, por meio do estudo do conceito de “multidão” elaborado por Spinoza e Hobbes, que viria a ser retomado na obra homônima dos pensadores contemporâneos Antonio Negri e Michael Hardt.

Partindo de pesquisas sobre o mundo atual, o grupo também abordou temas que sempre marcaram seus trabalhos: o indivíduo na sociedade de massas, sua inserção, a manipulação das consciências e a mercantilização da cultura. Por outro lado, ao montar a obra de Koltès buscaram pesquisar novas relações do ator com o texto dramático, usando das mais variadas formas de atuação para abordar cada um dos diferentes momentos do espetáculo.

Os fundamentos do realismo se mesclaram com recursos da comédia, do clown, do melodrama e do musical, em uma grande colcha de retalhos de elementos de atuação, num movimento como “um trem desgovernado”.  “As cenas acontecem em ambientes tão diferentes que decidi usar o recurso das plateias móveis. A montagem é muito fragmentada e, nas cenas independentes, um conjunto de atores desloca a plateia pelo espaço cênico que acompanha o percurso do assassino”, explica o diretor.

Essa produção coloca em cena 20 atores no Satyros Um, que possui uma lotação de 40 lugares. O ator Robson Catalunha é o protagonista do drama e vive uma personagem que não é construída a partir de um perfil psicológico consistente, mas da ideia de que é uma força trágica em cena, cuja essência é reconhecível, humana e imponderável. “De uma maneira ou outra, o autor está presente em suas personagens e acredita, em todas as artes. Minhas referências para a construção da personagem se mesclam na vida de Koltès, de Roberto Succo e na minha. Na primeira cena, por exemplo, Zucco volta até sua casa, após assassinar seu pai e fugir da prisão para buscar uma camisa cáqui e uma calça de combate. Ele estava se preparando para uma guerra em busca de identidade e invisibilidade, mas acredito que Koltès também queria se referir ao inicio de sua guerra contra a Aids”, afirma Vásquez.

O avanço dos sintomas da Aids fez com que Koltès se afastesse do convívio social e, nesse momento, passasse a escrever em condições cada vez mais difíceis. Em 1988, escreveu “Roberto Zucco”, seu último trabalho. No inverno de 88/89, conheceu Lisboa, onde foi rodado um documentário sobre ele. Poucos meses depois, morreu em consequência da doença, em Paris.

Segundo Vázquez, Koltès é um gênio. “Mesmo diante de sua morte inevitável, ele transformou sua dor em palavras, medo em frases, vontade de viver em teatro puro. É por isso ele é tão necessário ainda hoje.”

O espetáculo não fala sobre amor, nem sobre a inadaptabilidade diante do mundo e das instituições, nem sobre a futilidade vã do cotidiano. Existe esse enigma por trás das cenas, o enigma de um gênio diante da morte iminente, que não desistiu de escrever seu testemunho denso e apaixonado sobre a existência.

Com essas deformidades e pulsão em rota de colisão, Zucco não domina as conseqüências de seus atos, assim como não domina seu destino. Sua hybris* é o do “trem descarrilhado”, que segue sem controle em direção ao futuro inevitável: a morte.

E, uma curiosidade: Koltès, assim como a alemã Dea Loher e o cubano Reinaldo Montero, dramaturgos estrangeiros recentemente montados pelo grupo, também conheceram e se apaixonaram pela Praça Roosevelt.

 

“Quando eu avanço, eu vou até o fim, eu não vejo os obstáculos, e, como eu não olhei, eles desabam sozinhos na minha frente. Eu sou um solitário e forte, eu sou um rinoceronte. Eu não tenho inimigos e eu não ataco. Eu acabo com os outros animais não por maldade mas porque eu não os vi e pisei em cima deles.“ Roberto Zucco

 

Roberto Zucco | Espaço dos Satyros Um. Praça Franklin Roosevelt, 214. 6ª e sáb., 21h30; dom., 18h30. R$ 30. Até dezembro. Telefone 3258-6345.

* Hybris. Palavra grega que significa insolência ou excesso. Um dos elementos da tragédia grega que revela insegurança da vida, atitude perante um desafio, acontecendo quando os protagonistas se interrogam sobre o seu destino sobre a validade das leis dadas aos homens pelos deuses ou pela polis.
 

Texto: Renata Forato | Fotos: Rodrigo Meneghello