Naum Alves de Souza por Otávio Martins

Publicado em: 29/03/2012

A fala mansa, o olhar doce, o jeito bonachão e um irresistível sotaque caipira enganam os mais desavisados: trata-se de um dos maiores nomes da história do teatro brasileiro.  Naum é dramaturgo, diretor, cenógrafo e figurinista, numa longa trajetória que ele mesmo não sabe quando começou. Uma vez perguntei a ele sobre o início de sua carreira, e ele, sempre sorridente, respondeu: “na sala de aula”. Sim, Naum também é professor. 

 

Autor de peças como “Aurora da Minha Vida”, “No Natal a Gente Vem te Buscar”e “Um Beijo, Um Abraço, Um Aperto de Mão”, seu talento para as palavras o colocou no privilegiadíssimo panteão dos grandes dramaturgos brasileiros, ao lado de nomes como Nelson Rodrigues, Láuro Cesar Muniz, Gianfrancesco Guarnieri e Alcides Nogueira. Sua dramaturgia não evoca nenhum universo marginal espetaculoso, tampouco a violência urbana fantasiosa: Naum fala de seres comuns, cujas trajetórias revelam uma crônica cotidiana, muitas vezes nostálgica. Impossível não se emocionar com seus textos, que fogem da pieguice como o diabo foge da cruz. A complexidade de suas ideias vem na forma simples de diálogos maravilhosamente bem escritos, enxutos e simples. Naum é mestre no uso das palavras.

 

Cabe aqui uma bronca no mercado editorial brasileiro. Tente achar uma coletânea de seus textos, e, imediatamente, você descobrirá que só conseguirá achá-los em sebos, ou através de uma bem cuidada edição portuguesa. Como pode um País, com a riqueza cultural como a nossa, cometer a injustiça de privar o público do acesso à obra de um dos maiores dramaturgos brasileiros? Alô, editoras!!! 

 

Sua obra como cenógrafo e figurinista também é assombrosa, e, quem era criança na década de 1970, deve um sorriso pro Naum, que foi o executor dos bonecos Garibaldo e Gugu, num dos primeiros programas infantis da TV brasileira, ao lado de Sônia Braga e Armando Bogus. Dois dos maiores shows musicais da nossa história tem a sua assinatura: foi Naum quem criou a cenografia e figurinos de Elis Regina, em “Falso Brilhante” (e também co-dirigiu, mas esta história é um “pano pra manga”, como ele mesmo diz), e roteirizou “O Grande Circo Místico”, de Chico Buarque e Edu Lobo. Só pra finalizar a importância de Naum como cenógrafo e figurinista, são dele os cenários e figurinos de uma das peças mais importantes do teatro brasileiro em todos os tempos, “Macunaíma”, com direção de Antunes Filho.

 

Seu trabalho como diretor foi a porta de entrada para nossa amizade. Em 2009, escrevi um texto, “Mediano”, feito, sob medida, para aquele que considero um de nossos grandes atores, Marco Antonio Pâmio. Foi ele quem sugeriu que chamássemos o Naum para dirigir. Convite feito, ele nos convocou para a primeira leitura do texto em sua casa. Ao entrar, a grande sala é tomada por uma enorme mesa de trabalho, cercada por diversos armários e estantes, repletos de livros, cartazes, postais, quadros, tendo, ao fundo, um sofá e uma televisão, com centenas de DVDs de filmes e séries. Antes da leitura, um cafezinho (sim, ainda por cima Naum faz um café sensacional), e Naum começa a estudar o texto com uma habilidade e capacidade de estruturação dramatúrgica como nunca vi. O resultado da peça foi impecável, e dúvido que algum diretor fosse tão generoso com texto e atuação como ele. 

 

Na sequência, convidei-o pra me dirigir numa comédia, em que atuei junto com Melissa Vettore. A genialidade de Naum foi suplantar as fraquezas dramatúrgicas do texto e focar a encenação ao que realmente interessa ao espectador: o trabalho dos atores. Naum dirige sem gritos, sem se apavorar com prazos, com a paciência milimétrica de um artesão. Durante os ensaios, não parava de pensar que aquele homem era o responsável por dirigir Fernanda Montenegro num dos espetáculos mais lindos que pude ver, “Dona Doida”, um homem que trabalha incessantemente entre Rio e São Paulo, dirigindo nomes como Marieta Severo, Nathalia Timberg e outros tantos nomes consagrados. A grandeza do trabalho de Naum está na genialidade de transformar as mais complexas relações dramatúrgicas na forma mais simples e clara de comunicação com o espectador.

 

Para finalizar, gostaria de dizer o quanto estou honrado em ser convidado para escrever sobre este, que é um dos homens mais admiráveis que já conheci, e me desculpo com você, que lê este artigo, sobre a forma parcial como trato o assunto. Mas cá entre nós: se te pedissem para escrever sobre um amigo que você admira profundamente, seja pessoal como profissionalmente, você seria capaz de escrever de forma imparcial? 

 

Eu não consigo.

 

Quando penso em alguém como um “homem de teatro”, esse alguém é Naum Alves de Souza.

 

 

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