Morre Clóvis Garcia

Publicado em: 29/10/2012

O teatro nacional está de luto. Morreu na manhã ensolarada do sábado (27), aos 91 anos, o crítico, cenógrafo, figurinista, ator e professor da ECA – USP Clóvis Garcia.

Nascido em Taquaritinga, interior de São Paulo, tornou-se personalidade envolvida em diversas áreas do teatro, tanto as teóricas quanto as práticas, desde os anos 1950. Sua contribuição é reconhecida como crítico pioneiro voltado às atividades do teatro infantil.

Após se formar em Direito, em 1942, fez um curso de cenografia promovido pelo Masp, em 1954. Foi fundador do Grupo de Teatro Amador, GTA, em 1950 e, posteriormente, da Federação Paulista de Amadores Teatrais. Entre 1951 e 1958, assinou uma coluna de crítica teatral na revista O Cruzeiro. Em 1955, ajudou a fundar a revista Teatro Brasileiro, para a qual também escreveu. Dedicando-se ao teatro infantil, assinou uma coluna especializada, entre 1972 e 1986, no jornal O Estado de S.Paulo e, entre 1980 e 1990, junto ao Jornal da Tarde, atividade que lhe rendeu prestígio e premiações na área.

Como ator, participou de algumas montagens do GTA, realizando também várias cenografias para o grupo. Atuou em “Arsênico e Alfazema”, de Joseph Kesselring, com direção de Adolfo Celi, pelo Teatro Brasileiro de Comédia – TBC, em 1949. Entre seus trabalhos como cenógrafo, destacam-se: “Volta, Mocidade”, de William Inge, direção de Graça Mello, pelo Teatro de Equipe, em 1953, e a de “Três Anjos Sem Asas”, de Albert Hussan, direção de Sergio Cardoso, produção Companhia Nydia Licia-Sergio Cardoso, em 1957.

Além de professor de história do teatro do Departamento de Teatro Popular do Sesi – TPS, assinou as cenografias para montagens do conjunto, como “Cidade Assassinada”, de Antônio Callado, em 1963. Desde 1969, tornou-se professor de diversas matérias no curso de bacharelado em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP, onde recebeu, em 1999, o título de Professor Emérito.

Em sua produção ensaística, destacam-se um capítulo no livro “Teatro Experimental do Negro – TEM”, em 1966; a apresentação do livro “O Teatro de Timochenco Wehbi”, de 1980; um capítulo em “Teatro e Ensino de Literatura”, escrito em 1981, além de apreciável rol de artigos para publicações internacionais. Pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, lançou o livro “Críticas de Clóvis Garcia”, organizado e comentado por Carmelinda Guimarães, para a Coleção Aplauso – Teatro Brasil (para ler a obra, na íntegra, clique aqui).

Apenas para citar alguns episódios marcantes da sua vida, houve a vez em que atuou numa peça ao lado da mítica Cacilda Becker; noutra, viajou de Kombi, para Brasília, na companhia de Nelson Rodrigues… Mas a que todo mundo deve conhecer mesmo, foi quando ele salvou um grupamento de soldados brasileiros de uma emboscada ou quando foi ferido por estilhaços de uma granada alemã, durante os primeiros ataques a Monte Castelo – ferimento responsável pela cicatriz que tinha no lado direito do rosto. Ambos os episódios ocorreram durante a Batalha de Monte Castelo, na Segunda Guerra Mundial, que durou de 24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945, e da qual ele participou, como soldado.

“Eu diria que o professor Clóvis Garcia foi, de certa maneira, o responsável por eu não ter desistido do ofício de ator. Explico: em 1989, ganhei o Prêmio Mambembe e o Prêmio APCA pelo espetáculo infantil ‘Aventuras de Arlequim’. Recebi o troféu da APCA das mãos dele, que, junto com a escritora Tatiana Belinky, votou pela minha premiação. Aquele havia sido um ano difícil pra mim e para a companhia Os Satyros, que acabava de ser fundada. Não tinha contado pra ninguém, mas minha ideia era abandonar os palcos. Daí vieram os prêmios, que foram um sopro de esperança na minha vida e na minha carreira. Agradeço a Clóvis Garcia por isso. Anos depois, voltei a encontrá-lo, na USP, durante minha pós-graduação. Tive a honra de ser seu aluno. Enfim, trata-se de uma perda incomensurável”, diz Ivam Cabral, diretor executivo da SP Escola de Teatro.

 

 

 

Texto: Majô Levenstein