Marieta Severo por
Aderbal Freire-Filho

Publicado em: 26/07/2012

Em mais de um restaurante, em Paris, o garçom pergunta se Marieta é italiana. Quando olho para ela, me digo: é um misto de italiana com mineira. A beleza italiana, a mãezona italiana com temperamento conciliador mineiro, a mineirice desconfiada. Uma mineira relativamente baiana e bem carioca, da gema mexmo, o sotaque forte, goxta de fexta.

Atriz, é francesa, pelo teatro que lhe corre no sangue há muitos séculos. E brasileira, pelo talento exuberante, português e negro. É índia também, só vive bem em harmonia com a natureza. 

Nas grandes festas do povo do teatro, existe o camarote das grandes damas e ali já está Marieta, talvez a mais nova entre elas, mas com toda a majestade que a simplicidade lhe dá. 

Em cena, tem o público na mão e sua interpretação fica gravada na nossa pele, Marieta, teu nome principia na palma da nossa mão.

Criou personagens inesquecíveis. “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, o filme, não é só um marco do renascimento do cinema brasileiro.  O que engrandece esse instante histórico é que Carlota Joaquina, a personagem, é uma amostra notável da riqueza do elenco nacional: o bloco do nosso cinema voltando, puxado por uma porta-bandeira iluminada, uma interpretação genial.

Gosto de fechar o foco, mostrar o detalhe. No plano geral, atuações marcantes de Marieta Severo deram a ela todos os prêmios, todos os elogios: “A Estrela do Lar”, “No Natal a Gente Vem te Buscar”, “Torre de Babel”… Mas gosto de lembrar um personagem, uma cena e olhar de perto a grande atriz. Em “As Centenárias”, entre as suas muitas personagens, ela fazia um malandro sertanejo, faceiro, que caía na conversa da mocinha que queria ter um filho.  Um primor de criação, ao mesmo tempo verdadeiro e cheio de estilo, puro teatro. Cinco minutos em cena, não muito mais do que isso, mas para toda vida.  É assim que ficam as grandes imagens na lembrança, aquela cena de “Cidadão Kane”, aquela ária, a cena final de, uma expressão, uma frase.

Marieta queria ser bailarina, estudou balé na juventude e se arrepende de não ter ido em frente. Ficou o sentido plástico, a harmonia, a precisão e o salto do improviso com que ela dança os seus personagens. Ficou também a espectadora, que não perde espetáculos de dança.  O certo seria dizer que Marieta é uma espectadora de tudo: difícil um espetáculo de teatro no Rio que ela deixe de ver.
Ou uma ópera, um filme, uma exposição: não conheço consumismo mais voraz. O garçom em Paris achando que ela é italiana e não está longe: Marieta acabou de ver Verdi na Opera Garnier e aumentou sua semelhança.

Acho que tenho uma resposta para a pergunta fatal dos jovens: o que faço para ser uma grande atriz, um grande ator? Faça como a Marieta: veja todas as peças, todos os filmes, todas as exposições, todos os balés, todas as óperas que puder e seja uma atriz extraordinária como ela. Claro, existem outros caminhos, mas este está comprovado. A própria Marieta acredita em outros… procedimentos.

Fetiches? Cacoetes? Complementos? O seu texto de trabalho merecia publicação em uma dessas coleções de arte. Cada verso de página tem uma imagem colada, ou várias, uma foto cortada de uma revista, um desenho, uma gravura. Pode ser um rosto, uma paisagem, uma abstração… Ela vai armando esse álbum pacientemente, cuidadosamente, enquanto ensaia, ou enquanto estuda, ou enquanto filma. Cola, tesoura, revistas, jornais, fotografias, ferramentas de trabalho de uma atriz ideal. Enfim, destaco esses métodos com o mesmo espírito científico com que Peter Brook imaginava construir uma escola de teatro a partir da resposta à seguinte observação e pergunta: vejo no palco uma atriz (um ator) que atrai o meu olhar apesar de estar mudo e parado; por que atrai tanto minha atenção?

Marieta Severo em cena atrai o meu olhar e sei que sua curiosidade com o teatro, seu jogo de colagem com o texto são só o começo da resposta para sua força de atriz. A resposta completa fala de muito mais: da sua imaginação, sua formação, sua inteligência, sua concentração, sua paixão e todos os seus dons de artista maior.

Veja os verbetes de Marieta Severo e Aderbal Freire-Filho na Teatropédia.