Marcelo Rubens Paiva por Priscila Nicolielo

Publicado em: 29/03/2012

Conheci o Marcelo, oficialmente, na calçada da Praça Roosevelt. Foi pertinho do Satyros Um. Temos amigos em comum e, naquela noite, resolvemos nos apresentar. A fama de rabugento, que li em algum lugar, não fez uma gota de sentido. Marcelo é receptivo. Falamos de mulheres. Do que ele ainda não entende e eu sou incapaz de explicar.

 

Mulheres e política, dois temas que marcam a vida dele, que acabam escorrendo para a obra. A ditadura levou seu pai, deixando que Marcelo crescesse no meio de cinco mulheres, a mãe e quatro irmãs. Acredito que por isso ele tenha tantas amigas. Marcelo transita em nossas conversas com facilidade. É sensível, mas é um cara, entende? Um cara sensível, curioso pelo universo feminino – e que, na minha opinião, já o entende bem mais do que a maioria dos homens.

 

“As mulheres são loucas”, ele sempre dispara essa, quando se cansa de buscar explicações pra sermos como somos. Não digo, com isso, que desista de entender, mas que é um dos pontos de partida do seu trabalho. Ele termina longas discussões com essa frase e vai pra casa. Nos próximos dias, a reflexão vira um texto, um rascunho, uma sinopse, mas vira alguma coisa, cheia de outras dúvidas que a tela branca acrescenta. Conviver com cinco mulheres não esclareceu todas as suas dúvidas. 

 

Nas peças de teatro, essas mulheres aparecem marcantes, fortes, loucas, ambíguas, estraçalhando a objetividade masculina, mesmo quando as protagonistas são homens. Em 1998, quando escreveu a peça “E Aí, Comeu?”, que lhe rendeu um prêmio Shell de melhor autor, em 2000, ele questiona a posição do homem diante das novas mulheres. As independentes, com suas profissões e casos sem expectativas. Mulheres capazes de se despedirem de um casamento como de um amigo no bar. Elas mantêm o papel principal na dramaturgia do Marcelo, confundindo e manipulando os homens. Apesar de drama, é leve. Ele até sofre, porém ri mais no dia seguinte.

 

A leveza na vida é algo que reflete no teatro dele. Há quem não entenda essa postura, que nada tem a ver com desrespeitar o teatro. Marcelo conta histórias, as histórias das suas questões: mulheres, política e ele, no meio desse tumulto. Se um dia parar de se questionar, vai ter de encontrar um novo tema. Não estamos preparados para ficarmos órfãos do seu trabalho. 

 

 

Priscila Nicolielo é dramaturga e roteirista de TV

 

Veja o verbete de Marcelo Rubens Paiva na Teatropédia.

 

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