Macksen Luiz fala sobre Alberto Guzik

Publicado em: 09/06/2011

Alberto Guzik fez da sua vida profissional um movimento circular, que começou no teatro e se interrompeu quando reentraria numa sala de aula de teatro. Não foi fortuito esse círculo vital em que colocou em cena, todo o tempo e de maneira íntegra e emocionalmente generosa,  a vontade de estar no mundo, mediado por uma forma de expressão que o arrebatava e que foi sendo gestada na sua alma tímida, mas surdamente intensa. Naqueles distantes anos 40, quando aos 5 anos participou de montagem de “Peter Pan”, até a sua morte, aos 66, ao se preparar para voltar à escola, com a inauguração da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, Alberto esteve sempre ligado ao palco através do desejo de conhecer, investigar, ensinar, aprender. Alguém com permanente curiosidade intelectual, que o impelia a estar sintonizado com efervescência da cultura, a clássica e a contemporânea. Podia tanto citar um poeta francês do século XIX, como capturar frase musical do último CD de uma nova cantora brasileira. E esta curiosidade se media e desembocava, invariavelmente, como sensibilidade dionisíaca. Na Escola de Arte Dramática, nos tumultuados e efervescentes anos 60,  atuou em alguns espetáculos, e foi notado por professores, como Sábato Magaldi que, na década seguinte, o convidou para compartilhar a crítica teatral no Jornal da Tarde. Deixaria a crítica para se dedicar a escrever romances, contos e peças teatrais e retomar a carreira de ator, diretor e dramaturgo nos Satyros. Esse carrossel que girava, intensamente, em torno de um único eixo, o teatro, se abria em círculos, cada vez mais amplos, no exercício de variadas atividades – o seu blog era quase um diário dessas práticas. Na década de 90, quando lançou seu primeiro romance, “Risco de Vida”, estendeu o olhar analítico de crítico, debruçando-se sob si mesmo para ficcionar dor vivida por perda irrecuperável.  E, de certo modo, também foi transcendendo vivências para torná-las objeto literário que escreveu “O que é Ser Rio, e Correr”, seu livro de contos.  Mesmo na dissertação que o fez mestre em teatro da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – “TBC: Crônica de Um Sonho”, súmula de seus anos de formação acadêmica – reviveu o passado para melhor atuar no presente. Na curadoria de festivais, na análise de espetáculos em programa cultural de televisão, nas inúmeras palestras e seminários, na escrita de sua ficção (há, ainda, inéditos à espera de edição) e no entusiasmo e desafio de dirigir, pedagogicamente, a SP Escola de Teatro, Alberto Guzik se multiplicou, mas pode ser singularizado pela frase de Borges, que transcreveu em uma das últimas postagens de seu blog: “o dever de todas as coisas é ser uma felicidade”.  Foi o que fez toda a sua vida. Correu atrás de tornar real esse dever.