José Renato por Hersch Basbaum

Publicado em: 01/11/2012

José Renato nasceu em 1º de fevereiro de 1926 e morreu em 2 de maio do ano passado, aos 85 anos, ainda na ativa – estava em cartaz com a peça “Doze Homens e Uma Sentença”, em São Paulo.

Figura importantíssima no cenário teatral brasileiro, ele fundou, na capital paulista, em 1952, o Teatro de Arena, que tinha como proposta realizar um teatro despojado que priorizava o texto, sem qualquer ênfase ao espetacular. Fez especialização em Direção Teatral, em Paris; foi assistente de Jean Vilar, René Clair, George Wilson e Gerard Philippe. Em Milão, foi assistente de Giorgio Sthreller. No Uruguai, com o Grupo El Galpon, dirigiu “A Invasão”, de Dias Gomes.

Dramaturgo, escreveu sete peças de teatro e muitos programas de televisão. Como diretor, segmento em que mais se distinguiu, dirigiu mais de cem peças. Entre estas, destaca-se “Eles Não Usam Black-Tie” (Gianfrancesco Guarnieri), com a qual iniciou o movimento que, a partir de 1958, revolucionou o teatro brasileiro e o fez merecedor de inúmeros prêmios.

A seguir, confira a introdução do livro “José Renato – Energia Eterna”, de Hersch Basbaum, escrito para a Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (para ler o livro, na íntegra, clique aqui).

“Era o Brasil em processo de mudança. Em 1920, Washington Luís Pereira de Souza assume como presidente eleito e, em 1924, Carlos de Campos o substitui. Em 5 de julho, tem início o movimento revolucionário comandado pelo general Isidoro Dias Lopes. Tempos quentes na vida política. Processavam-se lentas mudanças e a capital federal, na época, o Rio de Janeiro, não fazia refletir com evidência as transformações culturais que o momento vinha impondo. O seu teatro e mesmo a sua literatura não tinham ainda sido bafejados pelo movimento lento que vinha provocando sopros de ventos renovadores, em formação, e cujo epicentro seria mesmo a capital bandeirante.

São Paulo, na década de 20 era, na verdade, pouco mais que uma pequena cidade, mas já era
matriz cultural de todo o Estado e pólo de atração das unidades vizinhas, com teatros, museus, grêmios literários e outros fatores de intensa e frutuosa vida espiritual e intelectual, que levariam à Semana de Arte Moderna e, mais tarde, à criação de Universidade.

Não teria meio milhão de habitantes, dos quais boa parte ou a maior parte formada por imigrantes, predominando italianos, árabes, espanhóis e judeus. Em 1920, um terço da população da cidade era formada por imigrantes.

Aquilo que o negro fez com o Rio de Janeiro, influenciando a maneira de falar, de andar, a religião, a musicalidade, a comida, o italiano fez com a pauliceia, interferindo em sua alimentação, em seu sotaque, nos nomes de sua população, nos folguedos e nos ícones.

Mas nem o Rio e nem São Paulo viram o teatro acompanhar as mudanças registradas no comportamento, na cultura. Fato que se deu muito mais tarde. Disse Alcântara Machado que ‘o teatro nacional, como muita história nossa, não é nacional. Os assuntos vêm de Paris. Ou melhor, o comediógrafo brasileiro imagina um enredo que ele julga parisiense. Às vezes, é mesmo. Pura farsa ou comédia de costumes. Chama os personagens de Cotinha, Serapião, Chico Biscoito, Doutor Novais, Madame Carvalho. E pensa que faz teatro nosso!’

E a descrição feita por Décio de Almeida Prado é esclarecedora e convincente: ‘O nosso teatro, por essa época, era formado por salas construídas em sua maioria sob a forma de cine-teatro, para atender tanto uma quanto a outra arte, e se localizavam no centro da cidade. O edifício, em si mesmo, obedecia a padrões arquitetônicos do século 19, com palco amplo, com boa altura, para que os cenários de papelão ou de pano pudessem subir ou descer com facilidade. Os espectadores distribuíam-se por vários planos – plateia, balcão e galeria –, de acordo com a hierarquia social’.

Já havia todo esse arcabouço, essa moldura, enquadrando a cidade, tendo, de um lado, a vanguarda intelectual, e, de outro, um forte lado provinciano que era representado pela constante migração de gente do interior para a capital do Estado, quando apareceu no mundo o paulistano batizado de Renato José Pécora, personagem desta narrativa com o nome de José Renato.

Trata-se aqui da história, na verdade a biografia, de um sujeito cuja trajetória de vida coincide com a própria história do teatro paulista, por extensão brasileiro, por quase toda a segunda metade do século 20. Nosso personagem foi testemunha e partícipe de alguns dos mais expressivos e decisivos momentos dessa história.

O que se registra a partir desse período é fundamentalmente ligado à paulistanidade, espaço e espírito conjugando-se para inaugurar um teatro próprio em terras bandeirantes, que iria mudar as artes cênicas em todo o País. Até então, São Paulo era praticamente uma das praças para onde iriam, de tempos em tempos, as companhias da antiga capital da República. E outras vindas do exterior.

O espírito bandeirante se movimentava. Se a famosa Semana de Arte Moderna teve sua importância repercutida na antiga capital federal, não altera o fato de que a mesma aconteceu na capital bandeirante. Preparavam-se também mudanças no teatro brasileiro e um grupo de intelectuais da maior importância vinha articulando as transformações decisivas em nossas artes cênicas. Surge, em termos amadores, o Grupo de Teatro Experimental, em 1942, que já propunha grandes revoluções estéticas, criado por Alfredo Mesquita.

Coube, entretanto, a Brutus Pedreira e Tomás Santa Rosa, diretores do grupo carioca Os Comediantes apresentar, em 1943, o primeiro ato da aventura épica de mudanças em nossa dramaturgia. Através de uma única temporada e de um único espetáculo, dirigido por um polonês refugiado, o grande Ziembinski, o grupo conseguiu encenar ‘Vestido de Noiva’, de Nelson Rodrigues. Mas estranhamente, não teve sequência significativa no próprio Rio de Janeiro, de tal sorte que o segundo e demais atos foram mesmo postos em cena em São Paulo e, dessa vez, de forma definitiva. A revolução paulista veio para ficar.

O Grupo de Teatro Experimental durou seis anos e foi dele que saiu, em 1948, o projeto da Escola de Arte Dramática, do próprio Alfredo Mesquita. Pela mesma época, em 1943, Décio de Almeida Prado organizou e dirigiu o Grupo Universitário de Teatro, ligado à Universidade de São Paulo. Ainda, conforme relata Alfredo Mesquita, Franco Zampari, industrial italiano, interessado no trabalho dos amadores e conhecedor de seus problemas, resolveu construir um teatro especialmente para eles. Mas não foi exatamente isso o que ele fez: alugou um prédio na Rua Major Diogo, reformando-o à sua custa, transformando- o em teatro, fundando o Teatro Brasileiro de Comédia, inaugurado em outubro de 1948.

Essa questão de uma São Paulo apolínea e um dionisíaco Rio de Janeiro, ou seja, uma suposta rivalidade entre as duas cidades, nunca teve qualquer significação para José Renato, que desenvolveu sua empolgante carreira simultaneamente nas duas metrópoles, ora numa, ora noutra e, muita vez, simultaneamente, há 50 anos.

Como poderemos ver adiante, nosso personagem, que nasceu para o teatro enquanto este verdadeiramente se formava ou se renovava, acabará por escrever novos e fundamentais capítulos da história, sem mesmo se dar conta, num primeiro momento, da plena significação do que fazia, ao provocar grandes rupturas estéticas. Essas vieram, entre outras coisas, a minar a esbelteza, a força e o sentido do Teatro Brasileiro de Comédia e seus congêneres que, por sua vez, já representavam a primeira grande sublevação.

Evidentemente não foi a ação de uma pessoa, ou mesmo de um grupo, que veio abalar a estrutura do teatro tebecêutico, mas sim o seu próprio êxito, numa clara visão dialética. O sucesso artístico do TBC, sem dúvida em certo momento o maior do País, foi em grande parte um êxito de origem e fundo europeu. Quanto mais os diretores se foram integrando no Brasil, e em sua cultura, mais disseminadas foram as sementes que traziam. Receberam e exerceram influências, formando discípulos, estabelecendo uma espécie de simbiose com o meio, acabaram por preparar o caminho da superação de si mesmos, ou seja, conduzindo ao abrasileiramento de nosso teatro.

E nisso, José Renato tem a inteira responsabilidade de um autêntico pioneiro.”