Humor…

Publicado em: 02/08/2010

Por Daniela Biancardi, atriz, arte-educadora, produtora cultural e formadora convidada do Curso de Humor da SP Escola de Teatro  Centro de Formação das Artes do Palco

 

 

Subtende-se que devemos dar aula de bom humor, que devemos ser super experts em fazer rir, que devemos encarar o mundo e falar com o mundo num extremo e pleno estado de bom humor. Pois bem, se eu dependesse destas premissas, eu só poderia protagonizar tragédias.

 

Quando criança eu achava que os animais não riam, que só os humanos riam e quando alguém ria de mim, eu ficava furiosa, aumentava meu mau humor. Então, quando um cachorro, perto de mim olhava bem para o meu “fucinho” e, sem rir como a gente, mas com a sua cara de cão, me dizia: _ “Bobinha! Rir pode fazer bem!”

Acho que foi nesse momento que descobri que o riso é fenômeno dos deuses, presente para todos os mortais.

Ainda dentro da premissa de “ser cômico por natureza ou a qualquer custo”, digo que isto foi mudando já na infância. Lembram daquelas famosas “tias” portuguesas e italianas intituladas “rainhas da polenta” do seu bairro? Aquelas que, não importa onde você esteja, indo ou voltando da escola, estão no portão, naquela hora exata e parece que sabem que você vai passar bem ali e aproveitam para comentar: “Ui! Já soube! Minha fofa, já chupou balinha com o amiguinho da escola, né?!” E só depois disto é que sua bochecha fica rosada! Você podia ir embora sem essa, mas a vizinha te achou. E você dá aquela risadinha sem graça para ela.

São as personagens destes quadros reais, que nos põem entre a fronteira do humor ou da falta de. Quem ri pode ser o outro e não você! Alguém certamente já passou por isso, quando a mãe te colocava sentado no balcão da vendinha próxima de tua casa, e todo mundo chegava até você e dizia: “Ai…coisinha mais linda!” E você ia falar alguma coisa, uma primeira sílaba, já errava e gaguejava, ou mesmo ao tentar descer do balcão discretamente, tomava um tombinho e a pessoa completava: “Oops! Neném caiu!”

E as tias polentudas aproximavam-se bem na sua frente com aquele rosto enorme bem rosado em efeito zoom in e gargalhavam, quase num efeito slow motion, apertando suas bochechas: “Como ela é engraçadinha!” Normalmente elas esperam que façamos mais graça. O problema é que eu não fazia. Estas são, talvez, minhas primeiras manifestações de mau humor.

Sem contar os namoros equivocados na adolescência. Aquela roupa furtacor que você decide ir à escola, achando que está abafando e os efeitos na galera, já sabe quais foram. Ou quando a prima mais velha vai se casar e te convida para ser dama de honra e o dente da frente cai bem no dia casório, você fica banguela, e na hora da foto com todo o elenco vestindo longo no altar, a prima noiva sem a menor “noção pedagógica” e traumas que pode nos causar, somente preocupada com a estética de cetim brilho de seu casamento te excluir da foto e te põe de canto! No meio de todo mundo! “Porque banguela, ela não pode aparecer, né titia!”

E até mesmo no teatro, no início de tudo, quando nas primeiras entradas em black out, você acha que está certo no trajeto do palco, percebe uma saliência bem no meio deste vasto escuro, tenta continuar a andar, a luz acende, e quem está lá espatifada no chão? O problema é que era uma cena de “Eles Não Usam Black Tie” e eu queria ser a Fernanda Montenegro na história, dramática, real e sensível.

Minha primeira escola de formação foi o Teatro Escola Célia Helena, eu sonhava em ser a primeira atriz de melodrama. Ao lado de Milhem Cortaz, encenei “A Moratória”. E a ele disseram que não podia ser ator daquela maneira. E a mim disseram que meu imaginário não era real, que via muita sessão da tarde, e que por isso as pessoas riam de mim. Não critico a escola não, são devolutivas que mais tarde, só mais tarde, vamos entender. Tive professores incríveis e por isso dar aulas é inspirador para mim.

Num belo dia, chegando mais cedo, observando a turma da tarde, ministrada por, hoje minha parceira de trabalho, Bete Dorgam, que direcionava um projeto de Commedia dell’ Arte com seus alunos, pensei: “É isto! A comédia talvez seja o caminho”.

Demorou para eu perceber. Sobretudo porque pessoas como ela, pelo que mais tarde pude ver em seu trabalho em cena, me fizeram enxergar a tragédia em seu corpo cômico! Ou como o ator do Teatro da Vertigem Sérgio Siviero me fez pensar, ao nos direcionar um trabalho, nas antigas instalações do Hospital Humberto Primo, me disse: “Dani, existe um lugar para você, uma escola que verticalize o que você quer dizer para o mundo, pelo seu desajuste, pelo trágico e também pelo cômico!”

Porque vocês já podem imaginar o que eu desejava ali: “Ser a mulher do Jó!” Eu perguntei a ele se existia técnica para isso, ele disse que sim, ligou para minha mãe no dia seguinte e deu o nome das escolas que eu podia procurar. Eu parti, então, para o outro lado do oceano e encontrei meu bando! Um bando tragicômico em busca do seu ridículo em primeiro lugar, pessoas que pesquisavam o ridículo, o deslocamento, o não-lugar! E assim os anos foram passando, por acertos e também ridículos e significativos erros. Senão não seria cômico!

E, hoje, esperamos que este primeiro núcleo de Humor na história desta Escola instigue no corpo destes meninos a consciência de que fazer rir é coisa séria. Que um corpo cômico não sobrevive sem um corpo trágico e poético. Que riso fácil é como dinheiro fácil, todo mundo deseja, mas vai embora rapidinho num efeito sonrisal bem aguado. Aqui nos importa sim o que fica no corpo do outro. Rir para fazer pensar, por que não? Rir para nos fazer existir em conjunto. Por que não?

Descobri nestas andanças, entre França, Irlanda, Escócia, Itália, outros cantos de Europa, África, Jundiaí, Maranhão e Bahia, que o riso se manifesta no mundo pelo prazer e também pela dor. Que nem sempre estamos de bom humor para fazer rir. Mas a rotina, o processo do encontro, o espaço disponível para criarmos autonomamente nos respondem muito mais! E este não saber se rirão ou não é que nos inquieta. Estes 25 meninos não desejam ser engraçadinhos, mas certamente o desejo deste grupo é de convidar seu público a ser cúmplice de suas bobices, delírios, conflitos, bom humor e, por que não também de seu mau humor?

Salve, salve, mestres do riso e do choro! De Chaplin a Grande Otelo! De Bete Dorgam a Raul Barreto. Eu sou uma aprendiz feliz por estar aqui dividindo histórias. Nos basta um espaço vazio e as iniciamos pelos nossos corpos em primeiro lugar, já dizia um velho amigo nosso, Mr. Peter Brook.

Grata sempre,

Dani Biancardi, uma aprendiz em construção
 

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