Gianfrancesco Guarnieri por
Sérgio Roveri

Publicado em: 20/09/2012

 

 

Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri, em cena do filme “Eles Não Usam Black-Tie” (Foto: Divulgação)

 

Ontem (19), celebrou-se o Dia Nacional do Teatro. Para homenagear a data, a seção Bravíssimo desta semana traça o perfil de um dos nomes mais importantes da história do teatro brasileiro: Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006).

Italiano de nascimento, paulista por adoção, Gianfrancesco Guarnieri foi o chefe de um clã de artistas, atores e músicos, sendo mais conhecido por seu trabalho como ator em novelas famosas como “Éramos Seis”, “Mulheres de Areia”, “A Próxima Vítima” e “Terra Nostra”, e em filmes como “Diário da Província”, “Asa Branca” e o clássico “O Grande Momento”, de Roberto Santos.

Lendário autor e ator de “Eles Não Usam Black-Tie”, sucesso no palco e no cinema, Guarnieri foi biografado pelo jornalista e também dramaturgo Sérgio Roveri, no livro “Gianfrancesco Guarnieri – Um Grito Solto no Ar”, que faz parte da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Abaixo, um trecho da obra, que pode ser lida, na íntegra, aqui.

“Quando ele nasceu, em 6 de agosto de 1934, os pais lhe presentearam com um nome de príncipe: Gianfrancesco Sigfrido Benedetto Martinenghi de Guarnieri. Os nomes do meio ele deixou esquecidos nos documentos, e lançou mão apenas do primeiro e do último para, ainda adolescente, se aproximar, e se tornar em pouco tempo o inconfundível porta-voz de uma gigantesca parcela da sociedade que sempre viveu a quilômetros de qualquer título de nobreza: os pobres, os favelados, os operários, os sedutores malandros do morro, os comunistas, os perseguidos pelos regimes políticos sangrentos, as prostitutas, os grevistas e mais uma infinidade de desamparados sociais a quem ele reservou um abrigo acolhedor que, mesmo sujeito a intempéries econômicas, políticas e sociais, nunca teve telhado de vidro: o palco.

 Guarnieri entrou para a história do teatro brasileiro principalmente porque, após o terceiro sinal, permitiu que as cortinas se abrissem para exibir a realidade de um tipo de herói até aquele momento pouco afeito às encenações: o homem do povo. Com tudo aquilo que ele podia reunir de mais sublime e mais mesquinho, de mais corajoso e mais covarde, de mais divino e mais sorrateiramente humano. Um herói que o público iria aprender a reconhecer no ponto de ônibus, na fila do desemprego, nos piquetes, na casa ao lado, na quermesse da igreja e, acima de tudo, no espelho.

O homem que escreveu mais de 20 peças e atuou em perto de 40 espetáculos e igual número de novelas, hoje (o livro foi lançado em 2004, antes da morte do ator) em prefere viver tranquilamente em uma casa escondida na Serra da Cantareira, aonde se chega após vencer um pequeno trecho de uma esburacada estrada de terra. Costuma dizer que o fato de ter se mudado para a Cantareira, há cerca de dez anos, é o principal efeito colateral de sua opção preferencial pelo sossego e sua aversão por qualquer tipo de invasão ou excesso de solicitações sociais.

Tímido, prefere continuar evitando os evento concorridos, os fotógrafos e as badalações. Exemplo disso é que, nas últimas semanas da primavera de 2003, sua preocupação mais imediata era com a conclusão de algumas obras no telhado da casa de dois andares, para evitar os costumeiros transtornos provocados anualmente pelas chuvas de verão.

Os relatos de Guarnieri, durante as entrevistas, não se submeteram à rigidez da cronologia. A exemplo de um de seus mais famosos personagens, Marta Saré, a prostituta nordestina vivida por Fernanda Montenegro que passeava por suas memórias sem se preocupar com a ordem cronológica dos acontecimentos, Guarnieri preferiu situar suas lembranças em uma espécie de parque de diversões em que o tempo era somente um dos brinquedos, nunca o único. Ele podia interromper um longo depoimento sobre os ensaios de sua criação mais reconhecida, ‘Eles Não Usam Black-Tie’, para discorrer sobre sua relação com Deus ou com a possibilidade de vida após a morte. Ou deixar um pouco de lado os terríveis anos de luta contra a censura para extravasar seu profundo amor pelo palco – um território, segundo ele, em que ainda não conheceu a dor ou o desconforto.

Podia, ainda, transferir para um pouquinho mais tarde uma discussão sobre as dificuldades enfrentadas pelo lendário Teatro de Arena e trazer à pauta, antes, um discurso emocionado sobre a necessidade de se cultivar amigos na coxia.

Ao longo das entrevistas, Gianfrancesco Guarnieri se revelou não só um dramaturgo de visão afiada e um ator de vastos recursos – mas, acima de tudo, um talentosíssimo contador de histórias. Em função disso, ou por respeito a ele, a edição do livro optou, ainda que às custas de um ou outro delicado safanão em certas regras (ultrapassadas?) do jornalismo, por preservar o clima das entrevistas e convidar o leitor para um delicioso passeio histórico no qual, se o mesmo ponto turístico surgir mais de uma vez diante do trajeto do visitante, é porque, por alguma razão, ele merecia ser apreciado de novo.

Não deve causar estranheza, por exemplo, o número de vezes em que Guarnieri faz menção ao pai, o músico e regente Edoardo Guarnieri, que morreu em 1968 no Hospital do Servidor, após sofrer um aneurisma enquanto subia as escadarias do Teatro Municipal de São Paulo.

Ou à mãe, a harpista Elsa Martinenghi Guarnieri, levada por um enfarte em 1972. Artistas renomados, libertários e inimigos de qualquer regime que fizesse vistas grossas às desigualdades sociais, Edoardo e Elsa exerceram uma influência arrebatadora sobre a vida e a dramaturgia de Guarnieri. Transmitiram a ele não só o amor pela arte – primeiro a música, e depois o teatro – mas também uma semente de inquietação social, uma obsessão quase que genética pela defesa das liberdades individuais.

Liberdade esta que ele começou a exercitar, já com maestria, no movimento estudantil, nas fileiras da Juventude Comunista e depois no Partido Comunista, e pouco mais tarde nos palcos do Teatro Paulista do Estudante, do Arena, do Oficina e na luta pelas eleições diretas para presidente da República. Sobre os pais, revela: ‘Meu pai morreu um pouco de tristeza. Ele não aguentava ver a repressão que se instalou após o golpe militar de 64. Minha mãe se deixou levar quatro anos mais tarde, é como se tivesse optado por ir aos poucos”. Ao falar deles durante as entrevistas – e de outros tão caros e que também já partiram, como Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha – não raro Guarnieri recorria a pequenas pausas, não para provocar qualquer efeito dramático em seu depoimento, e sim para evitar que a emoção, às vezes tão insubordinada, lhe traísse a voz e permitisse que as lágrimas, prudentemente equilibradas, escorressem pelo seu rosto – ou pelo do entrevistador.

Se tivesse de escolher entre as credenciais de autor, ator, diretor ou músico para se apresentar, é muito provável que Guarnieri não ficasse com nenhuma delas. Na certa, optaria por outra – a de sobrevivente. ‘Sou um privilegiado por ter vivido o que vivi e chegado até aqui. O resto é história’”.

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