Gabriel Villela por Dib Carneiro Neto

Publicado em: 28/03/2012

Arroubos e Delicadezas de um Arcanjo Mineiro

 

Fui incumbido por este site de escrever,  para o Dia do Teatro, sobre, ninguém menos do que, Gabriel Villela. Uai, que dozinha… Não é demais da conta? Que trem é esse agora?! Fiquei doidim… Quascaí di susto dendapia… A classe paulistana sabe da ligação bem próxima que tenho com esse mineiro autêntico – e isso, com certeza, pesou na encomenda. Ó procê vê… Além de ter dirigido textos meus, e sempre brilhantemente me surpreender, ele virou um grande amigo-irmão, “tipinho” já indissociável de minha vida pessoal e profissional. Fiquei bastante temeroso pela tarefa agradável, porém complexa, que me aguardava, pois o risco de que eu ficasse apenas amontoando adjetivos seria enorme. 

 

Decidi sair pela tangente e terceirizar um pouco o meu espaço, realocando-o para profissionais que já tenham atuado ao lado do Gabriel. Por e-mail, pedi a um grupo de artistas que escolhesse um, apenas um, adjetivo para qualificar o diretor, figurinista e cenógrafo – ou, se preferirem, simplesmente o ser humano Antonio Gabriel Santana Villela. Ou seja, acabei por fazer com que outros me dissessem os adjetivos todos que eu certamente empilharia aqui, de uma forma ou de outra. Vieram coisas lindas, de pessoas mais lindas ainda, que transmito agora a vocês, bastante agradecido. 

 

(Reencontro-os no fim da lista, para fazer minhas considerações próprias sobre o perfilado que, honrosamente, me coube neste latifúndio de talentos do teatro brasileiro.)

 

Selma Egrei: “Inspirador!”

Walderez de Barros: “Instigador!”

Marcello Boffat: “Catalisador!”   

Pascoal da Conceição: “Maravilhador-maravilhoso!”

Thiago Lacerda: “Humanista!”

Marcello Antony: “Dedicado!”

Ernani Maletta: “Polifônico!”

Francesca Della Monica: “O melhor artífice!” (definição que T. S. Eliot utilizou para retratar Ezra Pound e que Dante Alighieri incluiu em “A Divina Comédia”, referindo-se ao poeta provençal Arnaud Daniel) 

Babaya: “Iluminado!”

Magali Biff: “Diretor-artista!” ou “Clowntrágico!”

Marco Antonio Pâmio: “Genial!”

Xuxa Lopes: “Danado de bão!”

Lavínia Pannunzio: “Abundante!”

Leopoldo Pacheco: “Sedasmetamorfosepalavrasmil!”

Nanda Rovere: “Encantador!”

Noemi Marinho: “Lisérgico-rural!”

Kika Freire: “Arrebatador!”

Márcio Vinicius: “Peixe grande!” (lembro dele sempre que vejo esse filme)

Vera Zimmermann: “Sensível!”

J. C. Serroni: “Muito sensível!”

Elias Andreato: “Gabriel é justamente isso: adjetivos!”

Célia Regina Forte: “Arrojado!”

Luciana Carnieli: “Original!”

Christine Rohrig: “Buliçoso!”

Ando Camargo: “Modistíssimo!” (mistura da ‘modéstia’ mineira com o ofício de ‘modista’, como ele mesmo gosta de brincar que é, em vez de dizer o termo figurinista)

Letícia Teixeira: “Engraçado!”

Cacá Toledo: “Mago simbolista-metalinguista!”

Gustavo Wabner: “Generoso!”

Fernando Yamamoto (Clowns de Shakespeare): “Diretor bruxo!!!”

Dudu Galvão (Clowns de Shakespeare): “Top!”

Titina Medeiros (Clowns de Shakespeare): “Misterioso!”

Nina Teodoro (Seiva Trupe, Portugal): “Único inigualável!”

Júlio Cardoso (Seiva Trupe, Portugal): “Inventor de realidades e belezas!” 

 

Agora, modestamente, reassumo a pena. Como pude demonstrar, a figura de Gabriel Villela inspira superlativos. Não é para menos. Sua obra também é superlativa. Sua estante abarrotada de troféus que o diga. Não houve prêmio de teatro que ele não tenha abocanhado. E já é, por exemplo, o mais premiado de toda a história do prestigioso Prêmio Shell. 

 

Quem o conhece sabe do que vou falar agora: ele é danado, dono de uma personalidade forte, bem complexa, mas consegue aliar certa destemperança cíclica com suas doces e genuínas raízes de bom mineiro. O produto dessa receita é uma combinação única, só dele, tão inusitada quanto sublime. Gabriel não se permite abandonar seus sotaques e sua prosódia, não abre mão das modas de viola nas madrugadas de bar, nem suporta muitas semanas sem retornar às origens – a cidade natal, a família, as montanhas e, claro, as galinhas, muitas galinhas, que ele ama com todas as forças telúricas de quem pode até saber olhar pra cima e se derreter pra lua (lindamente retratada em várias de suas peças), mas desde que os pés estejam sempre enfiados na terra salpicada de farelos de milho. 

 

Como artista e como homem, já o vi em incontáveis demonstrações de extrema generosidade e condescendência, que me tocaram sensivelmente. Mas, também, já o presenciei perdendo as estribeiras de um jeito enérgico, impetuoso e barulhento. Sim, esses arroubos de som e fúria sempre se dão quando alguma coisa, por menor que seja, ameaça a integridade, a ética e a qualidade de seu trabalho artístico. Já levei várias broncas dele, seguidas de intermináveis sermões redundantes, por manusear o celular ou tentar fotografar os ensaios em momentos que ele considerava desrespeitoso para os atores. Defende seus elencos e, por conseguinte, todos os seus pares com uma fúria de titã. Quem, portanto, atiraria a primeira pedra? Sua verve de aglutinador e sua firmeza de líder nato caminham de mãos dadas com sua única missão declarada na vida: fazer teatro para não morrer.

 

Gabriel é um contador de “causos” como nenhum que conheço, no palco ou fora dele. Apaixonante. Sua imaginação não tem limites. Melhora tanto os fatos, ao reproduzi-los, que nos deixa rendidos à sua fantasia. Com Gabriel no papel de comentarista da vida, fica difícil acreditarmos só na realidade. Basta dizer que, no dia em que nasceu, foram vistos muitos discos voadores pairando sobre sua cidade, a, até então pacata, Carmo do Rio Claro, no sul de Minas Gerais. Não é à toa, também, que seu bordão preferido seja o “imaginai!”, convite sedutor e recorrente nas peças de Shakespeare.

 

Em contraposição, ao criar para teatro, desfia, com afinco, muitos rosários de uma lucidez pragmática e de uma inteligência objetiva, típica de quem “estudou na USP”. Prepara-se muito, antes de reunir seu elenco para a primeira leitura da próxima peça. Lê e relê, madrugadas afora, todos os textos que lhe caem às mãos, relacionados ao autor da vez. E não deixa que o elogiem por isso: sabiamente proclama que estudar não é mérito, faz parte do ofício. E tem um talento adicional para escolher assistentes de sua mesma estirpe dedicada e estudiosa. 

 

Ama os livros. Na época da USP, aluno aplicado, em vez de voltar pra casa depois das aulas, passava horas na biblioteca da ECA lendo principalmente peças de teatro. É um poço de referências e citações cults, embora se considere um caipira. O universo cristão das abadias e dos claustros, bem como o jogo de contrastes da estética barroca e o encanto inocente do circo-teatro, permeiam sua vida e obra de forma, no mínimo, deslumbrantemente estetizante. 

 

Bárbara Heliodora, tida como a maior especialista em Shakespeare no Brasil, certa feita, por encomenda de uma editora, montou seu ranking dos dez espetáculos brasileiros de que mais gostou em toda a sua carreira de crítica. Apesar de ser sua especialidade (ou talvez por isso mesmo), um único Shakespeare tupiniquim mereceu entrar na lista da temida crítica: o poético e encantatório “Romeu e Julieta”, que Gabriel Villela dirigiu com o Grupo Galpão. Minas na cabeça!

 

Gabriel Villela tem orgulho de ser tachado de barroco, desde o início da carreira, mas se incomoda quando críticos mal preparados empregam, erroneamente, o termo. Quando dirigiu meu texto “Salmo 91”, por exemplo, teve de engolir várias “resenhas”, sentenciando que ele abandonara o barroco. Irritava-se. O que era aquela explosão de vida dos enclausurados em cena, contrastando com seus pés mortos, tingidos de sangue, senão uma contundente simbologia de contrários?

 

Quando encomendou minha adaptação do romance epistolar mineiro “Crônica da Casa Assassinada”, primeiro estimulou-me a brincar bastante com a prosódia de seus conterrâneos, para depois me pedir para jogar tudo fora. Com essa estratégia de diretor sagaz, ensinou-me, definitivamente, todas as diferenças entre os estereótipos fáceis da mineirice e a profundidade secular de um estado de alma chamado mineiridade. “Não tente, ninguém vai conseguir ser Guimarães Rosa”, me disse sem papas na língua, assim mesmo como devem ser as relações entre mestre e discípulo. Na tradução de “Calígula”, de Camus, que ele também me pediu que fizesse, não hesitou em sugerir que eu começasse tudo de novo, pois as primeiras cenas tinham ficado por demais coloquiais e ele não queria abrir mão de um vocabulário mais elegante e dos rigores da norma culta.

 

Meu querido amigo já meu deu o prazer e o privilégio de vê-lo em ação, preparando seus espetáculos, muitas e muitas vezes. Mesmo quando era eu o autor, o adaptador ou o tradutor, nunca me proibiu de testemunhar a gestação de seu novo filho. Tira proveito do autor vivo, não o renega. Respeita qualquer Dib Carneiro como se fosse William Shakespeare. E são esses instantes frenéticos de sua criação que me comovem e me encantam mais, na convivência frutífera que tenho com esse grande encenador. Quando está montando uma nova cena, fica tomado de um brilho que ilumina a todos. No dia seguinte, pode querer mudar tudo, mas, naquela hora abençoada de materializar e corporificar suas ideias, não demonstra nem um segundo sequer de insegurança – e isso é fundamental em qualquer tipo de profissão. 

 

Essa qualidade de diretor, que ele é, sempre sabe o que quer, desde a cor exata da linha que vai bordar no figurino do mais simples coadjuvante até a quantidade de caracteres do texto “sagrado” de Eurípides que vai ter de abrir mão para que sua síntese dramatúrgica ainda assim dê conta de cada filigrana da têmpera dos heróis gregos, passando por vários outros tipos de tarefas – como: fiscalizar de perto a variedade de frutas e lanches para o elenco nos dias de ensaio, aprovar o layout dos anúncios que vão sair na imprensa, negociar muitas vezes de maneira árdua com os administradores das salas de espetáculo do País e assim por diante. Cerca-se de gente competente, mas fica de olho em tudo, sem perder o foco de seu rigor artístico.  Isso é ter controle sobre a própria obra, o resto é silêncio.

 

Gabriel não tem um coletivo teatral formalizado e oficial, e ri quando o interpelam sobre isso, porque, afinal, aprendeu, desde sempre, que teatro é uma palavra plural por definição e uma arte que não admite outra forma que não a de se fazer em conjunto – mais do que isso: de se fazer em comunhão, em cumplicidade. Como eu disse, vê-lo criar em sintonia com os atores é um deslumbramento. Para mim, um aprendizado. Seus braços se ramificam, suas pernas se multiplicam, sua mente viceja, seu peito infla, seus olhos pingam magia, sua boca bafeja arte. 

 

Participar de seu ritual de criação, a meu ver, é como assistir ao desabrochar completo de um canteiro multicolorido, na alta primavera. É exatamente isso. A criatividade ilimitada de Gabriel Villela, para mim, que pretendo ser seu eterno aprendiz atento, equivale aos prazeres de uma primavera ininterrupta. Como é bonito vê-lo florindo. Depois, no pomar de suas abundâncias, quem colhe os frutos é o teatro brasileiro. 

 

 

Veja os verbetes de Dib Carneiro e Gabriel Villela na Teatropédia.

 

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