Experimento do módulo Verde por Ondina Clais

Publicado em: 18/03/2014

* por Ondina Clais, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

 

Temos que renascer. Não é simplesmente renascer do útero materno. Temos que renascer aqui e em qualquer lugar sempre.

 

 

 

We have to reborn, it is not simple to be born from the mothers womb. We have to be born here and everywhere again and again.

 

            Tatsumi Hijikata

(fundador do buto com Kazuo Ohno)

 

I.

A criança talvez seja, ainda, aquela parte de nós que sabe entreter-se sem fazer esforço pra isso. Esta parte que um dia foi todo sabe experimentar as coisas. Ela necessita desse movimento aquoso, que como a água não cessa seu fluxo, percorrendo rio abaixo num contínuo, mais uma vez e de novo e incansavelmente e cada vez se apresentando como primeira.

 

Núcleo 1 (Foto: André Stefano)

 

Necessitamos do movimento e nossos seres querem o teatro. Assim podemos falar com as coisas ou sobre as coisas do mundo ou deixar com que elas falem conosco e que o mundo fale e atravesse nossos corpos com sua potência. Ou, ainda, ficar em silêncio na presença das coisas, para que possamos escutá-las.

 

Quando Fernando Pessoa nos diz: “Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos, Um poço fitando o céu.” (“Livro do desassossego”), ele vem nos sussurrar que queremos sempre mais e mais. Que somos incessantes e queremos ser capazes de fazer algo que crie em nós um interesse, mas um interesse novo.

 

Acredito que o ser humano precise também entrar noutros níveis de consciência e inconsciência – ativando os sistemas simpático e parassimpático – noutras sensações, e talvez por isso busque o teatro, a arte, os rituais, os vícios…

 

Ao invés de fazer muitos buracos e insistir ininterruptamente perto da superfície na busca da água, quem sabe possamos cavar um pouco mais verticalizando a busca e assim encontrar uma nascente, e construir um poço para fitar o céu, como diz Pessoa.

 

A criança é capaz disso com tanta facilidade, mas isso pode acontecer conosco assim já crescidos, e é preciso que aconteça, não só através do discurso com palavras, mas com o discurso do corpo em ação. É preciso navegar com o corpo, pensar com o corpo, deixar o corpo falar, esse corpo que não aguenta mais e é por isso que cai, e cai sempre pra retomar aquele ponto de vista único horizontal, da minhoca, do ser estatelado no chão. Então, lá de baixo, poder mapear esse caminho rumo acima. Como se fosse a primeira tentativa sagrada da criança segurando nas pernas de uma mesa ou agarrando no tecido das calças do pai ou na barra da saia da mãe para fazer essa escalada e conseguir ficar de pé, com eles… lá em cima!

 

É preciso encontrar espaço no ser, para poesia, para a música, um entardecer, para contar os carneirinhos à noite, para ouvir histórias, meditar, para o vazio, para um jogo de amarelinha, para um encontro súbito com um poste ou para esbarrarmos num outro ser.

 

Núcleo 3 (Foto: André Stefano)

 

É preciso que nos tornemos criança de novo e criemos esse percurso mais uma vez. Assim, talvez nos lembremos do que é brincar e experimentar sem dizer “MAS”… sem reatividade.

 

II.

Estive lá na Escola para experimentarmos juntos o resultado de dois dias de criação do módulo Verde, sobre textos escritos previamente, com o tema criancismo e o foco de pesquisa no conflito do personagem.

 

Vimos, então, crianças que sofrem com o abuso das regras, com os adultos, guerras, a perda de algum ente próximo, e tentam com isso encontrar a poesia da vida, se apoiando no imaginário, em jogos inventados, para poderem sobreviver e continuarem o seu cotidiano. Ouvi estórias lindas e vi todos ali empenhados em nos contar através das ações, sons, luz, cenários, vestes e objetos, enquanto um conjunto de gente “de teatro” subia e descia as escadas e os elevadores para poder acompanhar cada grupo – oito no total.

 

O que posso dizer, aproveitando as imagens que criei acima, é que corporalmente a criança está mais perto do chão do que do teto. Ela trabalha bastante nos planos baixo e médio e quando trabalha no plano alto ela atinge 50m, então o ponto de vista físico dela é de baixo para cima, se formos pensar numa visão subjetiva, em relação aos adultos.

 

A voz infantil é aguda, um timbre mais próximo ao soprano, e ela modula muito bem isso, indo do fortíssimo pra um sussurrado pianíssimo. Aliás, as crianças adoram sussurrar e dizer coisas nos ouvidos das outras. Elas experimentam sua potência, às vezes em forma de tirania, através dos gritos agudos que chegam muito frequentemente a histeria e crises de choro. Em outras situações exercem um controle no domínio oposto e calam-se num silêncio quase insuportável. Adoram produzir sons com o próprio corpo esfregando, batendo, percutindo com as mãos, assoviando, se utilizando de materiais precários que ela encontra muito facilmente: sementes, folhas, latinhas, bolas, escovas, papel, produzindo e reproduzindo sons acústicos de uma alta qualidade. Senti falta dessa pesquisa na área corporal – vocal e sonora. Assim como o que diz respeito à luz: houve, em geral, falta da ausência da luz, porque se tem uma coisa que criança adora explorar é o escuro… “Gato mia… miau!!!”. É claro que muitas têm medo, mas esse medo seduz.

 

Núcleo 5 (Foto: André Stefano)

 

Gostaria de acrescentar que fomos lá pra nos encontrarmos e apreciarmos um experimento a partir de um texto, e isso pode ter uma qualidade grande sem um acabamento sufocante da forma apresentada. Pode haver mais a sugestão de um caminho e deixar a cena mais aberta. O sistema aberto.

 

III.

Nossa galáxia é composta por sistemas abertos e eu posso deixar um ps daqui a pouco dando uma explicação bem suave, porque isso é a base da Teoria do caos, que é parte da Teoria da Complexidade.

 

(Deixarei abaixo um link do pesquisador Jorge Albuquerque Viera, onde pode ser encontrada uma explicação sobre a Teoria Geral dos Sistemas, que aborda esses termos que utilizo aqui e que importo das áreas da física, química, astronomia e semiótica)

 

Os sistemas fechados morrem, não sofrem evolução porque não conseguem deixar os evolons entrarem em crise e só na crise o evolon evolui passa da fase da crise e o sistema salta de nível de complexidade. Isso resumindo bastante essa teoria.

 

Núcleo 7 (Foto: André Stefano)

 

Então, nós, que fomos na SP Escola de Teatro naquele sábado, não fomos para ver cenas de teatro e sim um experimento do módulo Verde. Gostaria que vocês pudessem tomar consciência disso. Que é um experimento. E isso tem regras como qualquer jogo de criança, mesmo que elas só tenham uma tarde juntas pra brincar. Fazem isso lindamente, com organização estética, humor, às vezes sarcasmo, choro, briga e machucados. O fato é que ali se dá um acontecimento. Isso é mais importante que uma cena. Então, como diz Gillles Deleuze: que possamos estar à altura dos acontecimentos!

 

E voi lá que venha o azul o amarelo o vermelho!

 

PS:

Evolon todos os sistemas do Universo evoluem, mudam, se transformam, e isso ocorre por causa do evolon. Um determinado sistema sofre uma instabilidade, que pode ser forte o suficiente para gerar uma crise. Para superar essa crise, o sistema passa por diversas fases, acarretando em um crescimento da complexidade, e evoluindo para um outro patamar.


Tomando como exemplo o sistema “Economia”, vamos descrever as fases do evolon.
Numa suposta crise financeira, a primeira fase do evolon seria o rompimento, que pode gerar uma euforia, angústia, insegurança, expectativa etc., tirando a economia da metaestabilidade.

Na próxima fase, a latente, a crise surge como um problema que deverá ser superado. Buscam-se várias alternativas para superar o problema: a experiência com crises anteriores, o conhecimento dos economistas, elevar ou baixar juros etc. É daí que vai surgir um planejamento estratégico.

 

A fase seguinte é a da expansão, onde começa a produção. Depois das alternativas serem todas analisadas, todos os recursos começam a ser usados, e novas soluções são cogitadas.

 

 

Referências

Jorge Vieira – “Teoria do conhecimento e arte” – Prod. Autonomia 

Jose Gil – José Gil é filósofo, ensaísta e professor universitário português. Livros editados no Brasil: Poesia”, de Fernando Pessoa (Relume Dumará) e “Movimento total – o corpo”.

Peter Pal Pelbart – “Vida Capital” (Iluminnuras, 2004)

Exposição fotográfica de Heikoh Hosoe, no Sesc Consolação, que traz séries com Kazuo Ohno, Hijikat.

 

 

* Ondina Clais é atriz e bailarina

 

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