Experimentação e aprendizado

Publicado em: 30/05/2014

* por Ivam Cabral, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Antes mesmo de fincarmos as fundações da SP Escola de Teatro, sabíamos, ainda que instintivamente, que nossa missão seria instigar os aprendizes a descobrir as artes do palco. Ao nos depararmos com a pergunta “como isso poderia ser feito?”, veio à nossa mente um dos conceitos que norteia até hoje (e assim continuará sendo) a estrutura da Escola: experimentação.

 

Em nossa concepção, a vivência da experiência é única, sempre singular e enriquecedora. E é na experimentação que ela é adquirida em sua plenitude, da maneira visceral como tem de ser. Foi pensando nisso tudo que idealizamos aquilo que ganharia o nome de Experimento, uma das etapas mais importantes de nosso processo formativo.

 

O Experimento é o momento de maior efervescência no âmbito pedagógico. Nela, aprendizes de todas as áreas reúnem-se em grupos para desenvolver um projeto comum. Esses grupos, núcleos de trabalho, se debruçam sobre suas próprias investigações cênicas e, por três vezes no semestre, abrem suas portas e compartilham com o público.

 

Trata-se, então, de um momento prioritariamente prático, mas, definitivamente, não desprovido de fundamento teórico. Outra característica: quando implantamos nosso sistema pedagógico, estruturamos o ensino em quatro módulos independentes e autônomos, dois a cada semestre, divididos nas cores Verde, Azul, Vermelho e Amarelo, que trabalham eixos temáticos distintos, como performatividade (caso do módulo Azul) e personagem e conflito (módulo Verde).

 

Além dos módulos e seus respectivos eixos temáticos, encaminham os estudos dos aprendizes o operador, modo por meio do qual as técnicas e conteúdos são trabalhados, sendo geralmente um pensador; os materiais de trabalho, que funcionam como um tema e encaminham as investigações; e o artista pedagogo, produções e referências artísticas da contemporaneidade que dão início aos estudos no módulo.

 

Existe, portanto, um método, tendo por trás uma teoria a ser ensinada, mas como isso será posto em prática ficará a cargo do trabalho realizado pelos aprendizes, sob a tutela do formador e do coordenador de cada um dos oito Cursos Regulares.

 

Essa estrutura nos coloca em um espaço único entre as escolas de teatro, uma das singularidades que mais chamam a atenção de profissionais e instituições de todo o mundo.

 

Acredito cegamente que a experiência é o caminho, e que na educação, o que menos importa é o aprendizado da sequência. O caminho respeita a individualidade de cada um, seu tempo, sua aptidão, sua disposição. O processo que os núcleos percorrem pertence totalmente a eles, acontece ali, naquele instante, sempre no presente, como uma roupa feita sob medida. E para sempre.

 

E, para quem frequenta a Escola, é fácil identificar quando os aprendizes estão imersos no Experimento: eles ficam tomados por um clima temperado com uma mescla de euforia e ansiedade, entusiasmo e apreensão. No período de preparação – são poucos dias para a criação e execução do projeto –, as sedes da Instituição revelam palcos e bastidores inusitados e repletos de materiais e discussões.

 

Apesar de toda essa preocupação, aqui, os Experimentos – assim como qualquer outra atividade dos cursos – nunca são encarados como um resultado final e, logo, não têm o peso de uma apresentação de espetáculo. Interessa-nos muito mais o processo, o ato de fazer e suas implicações. E é justamente isso que será analisado e discutido durante a Formação, a fase seguinte, em que os aprendizes retornam aos seus cursos de origem e dão sequência ao aprendizado por meio da sistematização dos conhecimentos vivenciados na prática e da ampliação do repertório teórico e técnico.

 

Amanhã, os aprendizes do módulo Verde mostram pela terceira e última vez seus Experimentos. Será a última abertura de sala deste semestre. Mas a surpresa e o orgulho que eles nos trazem… isso não acaba aqui. Cada cena ficará marcada na memória e na história da Instituição eternamente.