Eva Todor por Maria Ângela de Jesus

Publicado em: 08/11/2012

Em março, a atriz Eva Todor não segurou as lágrimas ao subir no palco do 6º Prêmio Zilka Sallaberry, que premia as produções de teatro infantil. Ela foi uma das homenageadas da noite pelos seus 70 anos dedicados aos palcos.

E hoje, ela recebe homenagem aqui do portal da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, pela passagem de seus 93 anos de vida, celebrados amanhã (9). A seguir, reproduzimos a Introdução do livro “Eva Todor – O Teatro da Minha Vida”, escrito por Maria Ângela de Jesus para a Coleção Aplauso Especial, publicado, em 2006, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (para ler a obra, na íntegra, clique aqui).

“Fódor, em húngaro, quer dizer babado. Seria perfeito se Eva Fódor não tivesse trocado a Hungria pelo Brasil e aqui construído uma brilhante carreira artística. Mudou de Fódor para Todor, por razões óbvias, mas sempre foi do babado: arrasou na revista musical, levou o público à loucura nas comédias e emocionou nos dramas. Nasceu para os palcos e nele permaneceu por 60 anos, encenando cerca de 200 peças.

Eva, naturalmente cômica, sabe fazer rir como ninguém. Criou um estilo: o gênero Eva, que durante décadas lotou os teatros onde se apresentava e se tornou sinônimo de bom humor. Com sua faceirice nata, conheceu o sucesso ainda muito jovem. Com apenas 16 anos era primeira-atriz da companhia de Luiz Iglézias – com quem viria a se casar. Depois, teve sua própria companhia, Eva e seus Artistas, realizando espetáculos no Brasil, em Portugal e na África.

Pode-se dizer que a vida quase sempre lhe foi gentil. Obstáculos, ela encontrou poucos. Além disso, sempre soube tirar proveito das dificuldades para se firmar como uma grande atriz. ‘Por toda minha vida, fui muito bem cuidada, muito mimada, pela família, pelos colegas de trabalho, pelos diretores. Trabalhei com os mais diversos diretores. Na comédia, tenho uma fileira deles para enumerar; na revista, tenho mais alguns, enfim, foram pessoas maravilhosas com quem trabalhei. E sempre fui tratada como uma boneca’, confessa.

Bonita, talentosa e naturalmente engraçada, Eva relembra sua inusitada estreia nos palcos. Ainda vivia na Hungria e tinha apenas 4 anos quando fez sua primeira apresentação de balé. Era para ter sido uma apresentação infantil como outra qualquer, mas ela acabou chamando a atenção por um fato curioso. Foi flagrada fazendo um inocente e incontrolável xixi no palco. O público caiu na gargalhada. Sem saber, naquele momento, Eva estreava na comédia.

Quatro anos depois desse pequeno incidente, Eva Todor veio para o Brasil com os pais. Aqui, teve a oportunidade de construir uma invejável carreira. Já fez o público rir e chorar, mas o humor é, sem dúvida, sua marca registrada. Tanto que migrou com facilidade do teatro para a TV, somando 25 novelas em seu currículo, desde que estreou nos anos 70. Quem não se lembra da Kiki Blanche, de ‘Locomotivas’, da Santinha Rivoredo, de ‘Sétimo Sentido’, ou da Morgana, de ‘Top Model’?

Numa mistura perfeita de humor e drama, Eva conquistou público e crítica. Seu jeito faceiro, seu sorriso encantador e seu eterno ar de menina encontraram na TV um lugar perfeito para brilhar.

Fez poucos filmes ao longo de sua carreira, mas garantiu um dos momentos mais antológicos da história do cinema: a cena em que faz um impagável espelho com Oscarito, em ‘Os Dois Ladrões’, dirigido por Carlos Manga, em 1960.

Eva pode dar a impressão de ter sido sempre avoada, ligeira, mas na verdade tem um enorme conhecimento das artes cênicas. Fala com facilidade e exatidão sobre marcação de cena. ‘Tínhamos a planta baixa e uma maquete de toda a movimentação cênica no palco. Pelas maquetes, o diretor fazia a movimentação dos atores’, lembra.

Comprova com exemplos simples a importância do ritmo e da impostação de voz. Para isso, repete a mesma frase diversas vezes e em cada uma delas coloca a força, o peso, numa palavra diferente, mostrando assim que uma entonação errada pode acabar com uma fala. ‘Ritmo não é velocidade, é o saber dizer’, ressalta.

Mesmo com todo o reconhecimento que recebeu ao longo da carreira, Eva se mantém modesta. Comenta com discrição o êxito obtido e chega a ficar tímida quando falamos de seu talento e carisma natural, que fez dela a menina prodígio dos palcos brasileiros!

Sempre foi e continua sendo uma grande diva do teatro. Na verdade, ela parece ter nascido diva. É quase impossível não se render aos seus encantos. Em poucos minutos de bate-papo, já nos sentimos parte de seu séquito, algo que ela consegue com naturalidade. Não é preciso muito para nos ter nas mãos. Um olhar divertido, uma resposta engraçada e o humor afinadíssimo garantem o espetáculo, nos palcos e na vida real.

Eva não tem papas na língua e faz piada de si mesma sem perder a elegância. Na primeira vez que telefonei a ela, para marcarmos as entrevistas que resultariam nesta biografia, Eva me perguntou: ‘Minha filha, você está me ouvindo?’. Respondo: ‘Sim, perfeitamente!’. Ao que ela rebate: ‘Pois eu não estou ouvindo nada. Estou surda feito uma porta!’. A partir daí estava estabelecida uma deliciosa parceria. Não era preciso reservas! O melhor era aproveitar todo aquele bom humor para embarcar numa viagem aos tempos dourados da vida teatral.

Começamos com seus primeiros anos na Hungria, dos quais Eva tem adoráveis lembranças. Falamos da chegada ao Brasil, das dificuldades com a língua portuguesa e do apoio incondicional dos pais. Revisitamos a carreira construída nos palcos, o casamento com seus dois e únicos amores (o primeiro marido, Luiz Iglézias, e o segundo, Paulo Nolding) e encerramos com o cinema e a televisão.

Aos 87 anos, ela mantém a vitalidade e a graça de uma menina. Brinca com tudo e com todos. A risada fácil e gostosa, o jeito meigo de tratar as pessoas e sua espontaneidade natural fazem de Eva Todor uma criatura encantadora.

Por vários dias, Eva me recebeu em seu apartamento no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro – o mesmo em que viveu com Luiz Iglézias e depois com Paulo Nolding. Ambos falecidos. ‘Os dois fizeram a safadeza de morrer e me deixar sozinha’, desabafa. Foi ali, na tranqüilidade de sua casa, que pude ver Eva se emocionar ao reler uma carta que Paulo lhe escreveu um dia antes de falecer. Uma carta que ela jamais havia relido e que nos cedeu para esta publicação.

Sempre muito ligada aos pais, Eva os manteve em sua casa, mesmo quando esteve casada, e cuidou deles até o fim – o pai faleceu em 1966 e a mãe, em 1967. ‘Tudo o que temos nesta vida é a família e meus pais sempre foram tudo para mim’.

Mora desde os anos 40 nesse mesmo apartamento, onde conserva as relíquias de uma carreira iluminada. Os móveis são todos clássicos, finos, muito bem distribuídos pelo amplo e arejado apartamento. Os prêmios, incluindo o Molière que ganhou em 1969, por ‘Olho na Amélia’, ficam expostos numa grande e robusta estante na sala de estar. No escritório, ela mantém centenas de fotos e recortes de jornal. ‘Tenho horror de mexer com tudo isso, com todas essas fotos. É tanta gente morta’, sussurra emocionada.

As porcelanas trazidas de suas viagens enfeitam as paredes e lotam as estantes. Os inúmeros casacos de pele são guardados num grande baú de cânfora (um tipo de madeira perfumada), que comprou em Macao.

Ao mostrar os casacos, Eva se põe docemente melancólica. Passa os dedos pelas peles macias e inacreditavelmente bem conservadas. O olhar se perde no tempo. Fala quase que para si mesma: ‘Eu usava esses casacos nas muitas recepções a que íamos. Eu tinha de estar sempre elegante. O público, de certa forma, exigia isso’.

Tudo isso faz parte de uma época que não existe mais. Uma época de glamour, grandes festas, teatros lotados de segunda a segunda e de estrelas como Eva Todor – nossa última dama faceira, como escreveu o jornalista Artur da Távola: ‘Soem as trombetas, ali vai a última mulher faceira. Abram alas para a faceirice passar!’.

A faceirice abriu alas, mas foi o talento que garantiu a ela inesquecíveis momentos nos palcos, onde teve a chance de interpretar quase todos os grandes autores nacionais e internacionais: de Luiz Iglézias a Somerset Maughan, de Joracy Camargo a Bernard Shaw, de João Bethencourt a Neil Simon. A atriz, que foi dona da mais bem-sucedida companhia teatral do País – Eva e Seus Artistas – é, sem sombra de dúvida, um marco na história do teatro brasileiro.”