“Eu queria que alguém percebesse, mas ninguém percebeu” e o perigo da indiferença

Publicado em: 05/12/2020

Por Joyce Salustiano, especial para SP Escola de Teatro

 

Era quase uma da manhã quando a primeira encenação online que vi no Festival Satyrianas chegava ao fim. Ao término de Eu queria que alguém percebesse, mas ninguém percebeu, o ator e autor Tom Garcia nos contava que o texto é uma leitura e que ainda está em fase de experiência e estudo.

 

A narrativa nos leva pela morte de Jonas, sua trajetória triste, seu encontro com a depressão e seus relatos pós-suicídio. Ele remete suas palavras como uma carta de adeus para as pessoas próximas que não deram atenção à sua doença e de maneira íntima conta os casos de abusos que sofreu pelas mãos de familiares, “amigos” e sociedade. No relato, Jonas está sozinho, num quarto escuro, com cruzes e tecidos negros. A iluminação, comandada pelo próprio ator, sugere um limbo entre a live e a gravação, o real e a memória, a morte e o pós-morte.

 

Tive a impressão de um velório. Estávamos, mesmo que por videoconferência, velando aquelas lamúrias, aquele personagem, aquelas pessoas, aquelas músicas tristes e rebeldes da nossa adolescência em comum. Velamos uma indiferença compartilhada denunciada por Jonas, velamos a nossa inconsistência humana e ficamos encarando a nossa própria inércia.

 

Depois que o texto todo é dito e a encenação vai encontrando o seu fim, há uma despedida onde já sabemos o que vai acontecer. Não há uma surpresa na dramaturgia, porque sabemos que ele vai morrer ou está morrendo e não podemos fazer absolutamente nada: o fato já foi consumado. 

 

Houve uma preocupação em avisar as pessoas que estavam assistindo. Com o rosto bem próximo à câmera, o ator enviava mensagens; dizia que se alguém estivesse passando por algo parecido ou conhecesse alguém nessas condições que procurassem ajuda. A iniciativa é fundamental já que toca num ponto sensível da nossa sociedade – o suicídio de jovens entre 10 e 19 anos e os transtornos mentais, como a depressão e a ansiedade. Enquanto escrevo este texto tento me colocar na pele do ator que encenou sem saber quem eu era. O que será que ele pensou de mim? Será que tentou imaginar quem eu era, quem eram as pessoas que como eu não abriram suas câmeras?

 

Nos primeiros minutos de encenação pensei na obra “Van Gogh, o suicidado pela sociedade” de Antonin Artaud e ainda estou tentando entender essa pista que meu cérebro desenha e esse é um exercício que me proponho. Penso serem obras diferentes, embora tratando do mesmo tema. Enquanto Artaud convoca a vida e a poesia de  Van Gogh, em Eu queria que alguém percebesse, mas ninguém percebeu a vida do personagem Jonas nos falta em presença – Trata-se de uma dramaturgia de ausências, onde permanecemos presos durante os trinta e cinco minutos da obra, vivenciando o pesar da derrocada de Jonas e o seu destino evidente – o suícidio. É a exaltação de uma morte que já ocorreu, um ato contínuo sem ritmo cardíaco.

 

O que me faz indagar: e se fossemos despertados e descobríssemos que o que se tem a perceber – como diz o título – seja a imposição da vida sobre qualquer diagnóstico. E se fossemos convocados, como fez Artaud, a celebrar a pulsão da vida ao invés do seu oposto?

 

* Joyce Salustiano é participante da oficina olhares: poéticas críticas digitais, oferecida pela SP Escola de Teatro e ministrada pelo crítico Amilton de Azevedo, que supervisiona a produção e edita o material resultante.




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