Escola e Espetáculo – O Artista e Sua Experiência

Publicado em: 28/04/2011

Joe Bernardo, dono de uma vasta coleção de arte privada na Europa, revelou, certa vez, que acredita que é preservando a história que se avança na criação e não há nada de novo a se descobrir, apenas adaptações do que já existe.

 

Mas, afinal, quando se trata da transmissão de uma técnica artística, de que forma as tradições e conhecimentos podem ser transportados e eternizados?

 

Com a ideia de discutir o papel do mestre e seu discípulo nas artes cênicas, Nadja Turenkko, atriz e orientadora do curso de Difusão Cultural Mímica Corporal Dramática, organizou e mediou a mesa de discussão “Escola e Espetáculo – O Artista e Sua Experiência”, com os artistas convidados André Guerreiro Lopes e Marcelo Lazzaratto.

 

O evento, realizado na última terça-feira (26/04), na sede provisória SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, começou com a fala de Guerreiro que logo fez a indagação: “Quem não sabe fazer, não coloca na prática, é aquele que ensina?”

 

Para Nadja, esse tipo de pensamento é equivocado. “Não podemos negar que essa perspectiva de que professor é aquele que não deu certo existe, mas, acredito que os verdadeiros mestres, na arte e na vida, são aqueles que viveram uma linguagem intensamente e em várias frentes. Nós somos pessoas que vivemos a arte na prática. Assim, de um lado somos professores e de outro lado somos artistas”, explica.

 

Para Guerreiro, a arte contemporânea veio de uma tradição de artistas, professores e mestres que, da criação e pesquisa, passaram para a transmissão e difusão da técnica. “Só vejo três palavras que formam esse triângulo: imersão, criação e transmissão”, explica o ator que estudou a técnica de Etienne Decroix, durante cinco anos na International School of Corporeal Mime, de Londres.

 

“Existe uma via de mão dupla entre criação e ensino. Na mímica corporal dramática, por exemplo, todo trabalho é feito em grupo, são sementes que vêm sendo plantadas e que ramificam para outro fruto”, revela Guerreiro.

 

O encontro levou dois pontos de vista opostos e complementares para a discussão. De um lado, a trajetória de Guerreiro, ator que realizou uma verticalização e imersão profunda em uma técnica específica. De outro, a generalização do trabalho do ator, diretor e professor Lazzaratto que trouxe para o encontro as ideias do Campo de Visão, exercício e linguagem cênica proposta por ele.

 

“Não acredito em pontos de vista, acredito em pontos de visão e pluralidade. Vim da universidade, local onde me deparei com diretores, estilos e linguagens muito diversificadas. Hoje, caminho embaixo de um grande guarda-chuva em um campo de visão generalista que recebe características de quase tudo”, explica Lazzaratto.

 

Colocando sua linha de pensamento em pauta, Lazzaratto explica ainda que o campo de visão compreende a fluidez na sua estrutura. “Essa linguagem é porosa, tem suas dualidades. Nele, o ‘e’ vale mais do que o ‘ou’. O ‘ou’ não existe no teatro. Existe o se deixar impregnar pelo texto, tema, espaço e luz em uma relação horizontal. O escopo que me interessa são as minhas contradições”, revela.

 

Entre as trajetórias, experiências e opiniões dos convidados, o encontro não se restringiu apenas ao tema. Assim, as reflexões sobre o teatro, seu mercado de trabalho e possíveis métodos de transmissão continuaram até além do programado. 

 

Sérgio Ponti, aprendiz de Atuação, esteve presente no encontro e conta que saiu entusiasmado da conversa. “São três figuras maravilhosas que têm um olhar humano e teatral e trouxeram uma reflexão madura que encara o teatro sem restringir todas as possibilidades”, conclui.