Em “Mojubá”, o louvor permanece lamento

Publicado em: 07/12/2020

Por Joyce Salustiano, especial para a SP Escola de Teatro

 

Mojubá é uma palavra em iorubá que significa “o ato de louvar”, uma saudação aos ancestrais / divindades.  Por isso, na encenação localizamos um atabaque, algo parecido com um fio de contas de santo no chão, cachaça, plantas, umas velas acesas, que talvez fossem lâmpadas – a dificuldade de identificar se dá pela distância da câmera posicionada na vertical; acredito que muito se perdeu com isso.

 

Há duas pessoas em cena: Guilherme Blanco toca o atabaque e o ator Márcio Guimarães, também diretor e autor do texto. Ao observar o programa da peça, sabemos que a narrativa tem como tema a vida de um trabalhador rural e o sagrado que o acompanha. Assim, o monólogo da personagem é entoado junto às músicas, ao som do atabaque e as luzes que nos chamam a enveredar os mistérios de dor e arrebatamento. 

 

A iluminação, assinada por Guimarães e Tiago Marcon, passa por cores quentes e cores frias alternando a curiosidade pelo cenário (de Marcon) mas não transformaram os rumos de uma dramaturgia que promete o Mojubá – tudo passava, o dia, a tarde, a noite, as palavras, mas era apenas uma passagem-paisagem; esperei pelo ponto de exaltação que era cantado em louvação aos Orixás e ao labor sofrido, mas realizado. Digo isso porque o texto estava morno e não representou muito bem a força desse sertanejo e desta espiritualidade no corpo do ator. Ao invés disso, senti a tristeza de uma lamentação que não cessava – e a distância da tela nos distanciou ainda mais do que poderia ser uma celebração deste homem e dos santos que o apoiavam.

 

Queria ter uma câmera particular para desbravar o contato, mesmo que visual; para passar pelos detalhes, pelas minúcias de texto e encenação. Fiquei de longe e tive a sensação que a obra estava longe de mim também. 

 

Mojubá é uma palavra em iorubá que significa o ato de saudar, louvar os ancestrais. Senti falta do que geralmente sentimos em saudações: alegria, achegamento, apogeu.

* Joyce Salustiano é participante da oficina olhares: poéticas críticas digitais, oferecida pela SP Escola de Teatro e ministrada pelo crítico Amilton de Azevedo, que supervisiona a produção e edita o material resultante.




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