Dupla Comemoração

Publicado em: 14/12/2010

A Cia. de Teatro Os Satyros está em comemoração, não só pelos seus 20 anos de trajetória, mas por mais uma conquista. Rodolfo García Vázquez, cofundador da companhia, ao lado de Ivam Cabral, acaba de ganhar, da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA 2010), o prêmio de melhor diretor pelo espetáculo “Roberto Zucco”.
 

“Fico muito feliz por receber esse prêmio, sobretudo porque, ao contrário das três comissões de fomento e do Prêmio Funarte de Teatro Myrian Muniz que recusaram o projeto, os críticos reconhecem a importância desta montagem”, diz Vázquez que também é coordenador do curso de Direção SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco.
 

“Roberto Zucco”, que figura entre os cinco melhores espetáculos da cidade, de acordo com o Guia da Folha de S. Paulo, é baseado no texto homônimo do escritor francês Bernard-Marie Koltès e traz uma série de questionamentos sobre a moralidade nas sociedades pós-modernas. Zucco, protagonista mítico é um anti-herói que desafia conceitos morais, carrega a dor da incomunicabilidade e o isolamento emocional típicos da vida contemporânea.

 

A montagem da Cia. Os Satyros, encenada na sede do grupo, na Praça Roosevelt, estreou em agosto desse ano. Durante o período de preparação e ensaios, que durou aproximadamente um ano, os Satyros revitalizaram seu processo criativo ao apostar na investigação e realização da obra de Koltès e, também, por meio do estudo do conceito de “multidão”, elaborado por Spinoza e Hobbes, que seria o ponto de partida da discussão dos pensadores contemporâneos Antonio Negri e Michael Hardt.

 

Partindo de pesquisas sobre o mundo atual, o grupo também abordou temas que sempre marcaram seus trabalhos: o indivíduo na sociedade de massas, sua inserção, a manipulação das consciências e a mercantilização da cultura. Por outro lado, ao montar a obra de Koltès, buscaram pesquisar novas relações do ator com o texto dramático, usando das mais variadas formas de atuação para abordar cada um dos diferentes momentos do espetáculo. “Zucco é uma obra-prima dos últimos 20 anos, texto que não se esgota à primeira leitura e mantém seu enigma até o final”, explica Vázquez.

 

No espetáculo, os fundamentos do realismo se mesclam com recursos da comédia, do clown, do melodrama e do musical, em uma grande colcha de retalhos de elementos de atuação, num movimento como um trem desgovernado.  “As cenas acontecem em ambientes tão diferentes que decidi usar o recurso das plateias móveis. A montagem é muito fragmentada e, nas cenas independentes, um conjunto de atores desloca, pelo espaço cênico, a platéia, que acompanha o percurso do assassino”, revela.

 

A produção coloca em cena 20 atores no Espaço dos Satyros 1, que possui uma lotação de 40 lugares. O ator Robson Catalunha é o protagonista do drama e vive uma personagem que não é construída a partir de um perfil psicológico consistente, mas da ideia de que é uma força trágica em cena, cuja essência é reconhecível, humana e imponderável.
 

“De uma maneira ou outra, o autor está presente em suas personagens. Minhas referências para a construção da personagem se mesclam na vida de Koltès, de Roberto Succo e na minha. Na primeira cena, por exemplo, Zucco volta até sua casa, após assassinar seu pai e fugir da prisão para buscar uma camisa cáqui e uma calça de combate. Ele estava se preparando para uma guerra, em busca de identidade e invisibilidade, mas acredito que Koltès também queria se referir ao inicio de sua guerra contra a Aids”, afirma Vásquez.

 

O espetáculo não fala sobre amor, nem sobre a inadaptabilidade diante do mundo e das instituições, nem sobre a futilidade vã do cotidiano. Existe esse enigma por trás das cenas, o enigma de um gênio diante da morte iminente, que não desistiu de escrever seu testemunho denso e apaixonado sobre a existência.

 

Roberto Zucco | Espaço dos Satyros Um. Praça Franklin Roosevelt, 214, tel.  3258-6345. 6ª e sáb., 21h30; dom., 18h30. R$ 30. Até 19/12.