Drama, arma da vida

Publicado em: 29/07/2013

Por Mauricio Paroni de Castro*, especial para o portal da SP Escola de Teatro

Harold Pinter, o prêmio Nobel, o maior dramaturgo inglês do século 20, o hiper-realista, o radiodramaturgo e roteirista, excelente ator, superou os paradoxos do Absurdo mesmo escrevendo cenas hiper-realistas. Retratou, como ninguém, a linguagem de ameaça a que estamos sujeitos; mas o que o descreve mais exatamente foi como viveu a ironia fatal de seus últimos dias. 
Aos 71 anos, foi diagnosticado com câncer de esôfago. Durante o tratamento, declarou-se feliz por células cancerosas morrerem, após um período de três semanas em que parecia “afogar-se no oceano por não saber nadar e como sair” (…) “Você se move para trás e para frente ao bater das ondas, é tudo muito escuro, mas o importante é que agora eu estou aqui.” (…) “Quando você tem uma doença como essa, você precisa de duas coisas, um cirurgião brilhante e uma grande mulher: Eu tenho sorte de ter os dois.”

Diante da doença, escrevia.

O seu poema “Cancer Cells” foi publicado pelo  jornal The Guardian em  2002. Com humor poderoso e frio diante de uma situação dramática real, atribui características antropomórficas àquelas células.

Infelizmente, faleceu na véspera do Natal de 2008.

“Células cancerosas são aquelas que se
Esqueceram de morrer – enfermeira, Royal Marsden Hospital

Elas se esqueceram de morrer
E assim prolongam a própria vida homicida.
 
Entre eu e o meu tumor a luta é acirrada.
Esperemos que uma  dupla morte seja excluída. “
 
(…)
 
“Cancer cells are those which have forgotten how
to die” – nurse, Royal Marsden hospital

They have forgotten how to die
And so extend their killing life.

I and my tumour dearly fight.
Let’s hope a double death is out.

Em tempo: o resto do poema e a tradução que fiz dele estão disponíveis na Biblioteca da Sede Roosevelt da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco.

* Mauricio Paroni de Castro é coordenador projeto “Chá e Cadernos”, na SP Escola de Teatro