Discutindo o Povo Brasileiro

Publicado em: 15/09/2011

Com o objetivo de colocar o aprendizado em prática, Edelsio Vitório Dionísio, aprendiz de direção da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, apresentou um experimento cênico no pátio da Escola, na semana passada. Alves contou com a ajuda e participação de Everaldo Silva, aprendiz de Humor, Michael P. Chalmer, aprendiz de Sonoplastia, Letícia Campos e Márcio Silva, ambos aprendizes de Direção. 

 

O esquete levou o nome de “A Abolição Ainda Não Veio!” e retrata a realidade sob o ponto de vista antropológico. As duas únicas personagens são um negro e um policial. A música “Polícia”, da banda Titãs foi a trilha sonora da cena.  

 

 

Abaixo, o texto na íntegra de Alves, relatando suas impressões sobre seu próprio trabalho:

 

A cena foi uma provocação e não uma resposta pretensiosa à afirmação “A abolição ainda não veio!”, coletada em uma pesquisa de campo.

 

Tudo começou no último dia do Módulo Verde, com a valorosa doação de livros para duzentos aprendizes do romance “Viva o Povo Brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro, e da provocação de vencer as 789 páginas no recesso. Logo fui anotando tudo o que me interessava na obra e, no inicio do semestre, não fui surpreendido com a encomenda de uma cena com caderno de trabalho.

 

O trabalho foi pedido pelo coordenador do curso de Direção Rodolfo García Vázquez, como uma prévia do processo de experimento e com a liberdade de criar nossos trabalhos solos.

 

A partir daí, fui encontrando o que escolheria como mote para pesquisa. Fiz entrevistas pelo Brás, compartilhei angústias com colegas, procurei estabelecer o diálogo teórico com narratividade e drama épico e, finalmente, fui para a prática.

 

O elemento condutor do diálogo que escolhi na feitura do meu texto foi procurar dar voz ao marginalizado, uma vez que ele encerra a cena. A narração pretendia chocar o público com um procedimento padrão de revista policial, que, neste caso, não era realizado com os valores oriundos das leis constitucionais adotadas pela instituição.

 

Assim, além de dar quatro vozes a ação (policial, negro, narrador e pública), propus que as imagens falassem por si e reverberassem em cada indivíduo presente na execução da cena, de acordo com suas experiências de povo brasileiro.  

 

Quanto ao preconceito questionado, fora extraído da personagem Budião em seu encontro com o antigo capataz que lhe pede a documentação de alforria acusando o de vadiagem. No livro, João Ubaldo traz todo um contexto de vida revista pela ótica dos excluídos e sugere certa perversidade nas relações sociais advindas do sistema estabelecido, por este priorizar as formas de poder constituídas. “O segredo da verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias”.

 

Com esta provocação da epigrafe, encerro com “não acreditem em mim”. Leiam.