Direção, Cinema e o Papel do Ator

Publicado em: 28/06/2011

A SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco respira artes cênicas e este tema está em pauta na grande maioria das palestras, aulas, encontros e mesas de discussão que acontecem na Instituição. Porém, a prática do fazer teatral possibilita aos seus profissionais muitas outras formas de atuação no mercado.

 

Conscientes deste indiscutível alcance, a diretora Ana Carolina e o preparador de elenco Frederico Foroni realizaram, ontem (27/06), uma mesa de discussão com o tema “A Direção do Ator no Cinema” e abordaram tópicos como roteiro, cortes, estratégias de gravação, mercado de trabalho, e, sobretudo, a relação do ator com a direção do filme e seu papel além da personagem.

 

Ao iniciar sua carreira no cinema, em 1968, Ana Carolina era uma das raras mulheres atrás das câmeras. Hoje, já compôs júris importantes como o Festival de Veneza. Em sua filmografia destacam-se “Amélia”, “Gregório” e “Mar de Rosas”, além de documentários como “Getúlio Vargas, Ditador”. 

 

A cineasta também emprestou seu talento a outras artes como a música. Foi percussionista do grupo Musika Antiga e dirigiu óperas como “Salomé”, de Strauss. Atualmente, está em processo de captação para filmar “A Primeira Missa”.

 

Formado pela Universidade de São Paulo (USP) Frederico Foroni é cineasta e ator. Professor de interpretação há 14 anos, foi diretor e roteirista de seis curtas-metragens e mais de 10 peças, em São Paulo. Como preparador de elenco, trabalhou no longa-metragem “Nome Próprio”, de Murilo Salles, e em outros nove curtas-metragens.  

 

Em sua trajetória, durante seminários, Foroni teve contato com o trabalho de renomados artistas como Tatiana Stepantchenko; José Sanches Sinesterra; Izabel Setti; Roberto Alvim; Javier Daulte; Eugenio Barba; Jerzy Grotowski; Eliana Caffé; Danis Tanovic; e Di Moretti.  Atualmente, é diretor do Grupo Chão de Teatro e desenvolve projeto de mestrado com o tema “O Ser em Cena”.

 

Discussão em Cena

 

Durante a abertura do encontro, o assessor do Programa Kairós da SP Escola de Teatro Fábio Mazzoni detalhou a trajetória dos artistas convidados e abriu espaço para o início da discussão. Na sequência, Foroni se utilizou de sua experiência de mais de 14 anos como professor para provocar os participantes. “A vida só vale a pena onde eu possa atuar. Isto é, ser autor da minha própria trajetória. Agora é o momento de vocês exercerem este papel. Quais são suas questões?”, indagou.

 

Assim, a discussão entrou em cena e, o que poderia ser apenas uma palestra, se transformou em um descontraído que, segundo Cauê Matias, um dos participantes da mesa, “foi um aprendizado”.

 

“Se há uma coisa eu conheço é a delicadeza e o ‘babado’ da direção do ator”, disse Ana Carolina, logo no início da discussão. “Nada existe no cinema de ficção que não seja entre o diretor e o ator. É a partir desta relação que o filme se concretiza”, explicou.

 

Ana Carolina revelou ainda que a respiração dramática do ator e suas experiências e estratégias para descobrir a personagem são essenciais para trazer verdade ao cinema e guiar a criação do diretor. “Nunca fiz um filme no qual marcasse um ator antes que ela fizesse a cena. A luz, o enquadramento e o corte vêm da marca e do ritmo dele”, completou.

 

“O ator não deve ossificar a palavra, ela tem de vir com frescor e sagração, e só vem assim quando se tem um profundo conhecimento do roteiro e das técnicas, caso contrário, ela fica oca. Deste modo, o cinema vai leve e a personagem vem na sua direção em poucos minutos”, disse a cineasta.

Sempre indagada pelas citações e frases de Foroni, Ana Carolina revelou, ainda, que o ator de cinema tem um tempo diferente. “Ele pega a personagem no breu e se desmancha facilmente e sem querer. Quase como um sopro de vida, por isso, cinema tem que ser o vento que sopra e o ar que você respira”, poetizou.

Como um dos mais curiosos participantes, Cauê Matias achou o encontro excepcional. “A experiência nos faz perceber coisas que, quando somos jovens e afoitos, não conseguimos enxergar. E uma coisa é unanime em todos os diretores que trabalham diretamente com atores: a técnica é imprescindível, pois, a partir dela, o ator pode começar a criar, improvisar e ter suas ideias, como já diziam Stanislaski, Grotowski, Eugenio Barba, Peter Brook e Antunes Filho.  E eu percebo que é isso mesmo: para ser ator tem que ter muita coragem, paixão e perseverança”, concluiu.