Dionísio Azevedo por Dionísio Jacob

Publicado em: 04/04/2013

Dono de uma das vozes mais marcantes que a TV, o teatro e o cinema já conheceram, Dionísio Azevedo faria 91 anos nesta quinta-feira (4 de abril). Em sua homenagem, a seção Bravíssimo desta semana destaca o capítulo cinco do livro “Dionísio Azevedo e Flora Geni – Uma Vida na Arte”, escrito por Dionísio Jacob, filho dos atores, para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Para ler o livro, na íntegra, clique aqui.

“Capítulo 5  – Meu Pai”

Para meu pai, este sonho de ser artista se referia inicialmente ao cinema. Desde garoto, crescendo no sul de Minas, ele costumava frequentar as matinês, que é como se chamavam as sessões diurnas e dominicais nos cinemas. Lá, assistia aos antigos faroestes, talvez o gênero de maior sucesso até meados do século passado, com seus caubóis, xerifes, vilões, heroínas, índios e mexicanos. Algumas dessas películas eram projetadas na forma de capítulos de um seriado e jogavam sempre um suspense para o próximo domingo.

A atração desses filmes, segundo ele mesmo sempre dizia, foi irresistível, e não somente pela adrenalina do momento, pela diversão. Eles fizeram nascer um desejo forte de um dia poder fazer cinema também, de participar de alguma forma daquela fantasmagoria fascinante que via chegar até as telas com suas imagens dançando na luz do projetor: pura magia visual. Sua fascinação pela arte de representar foi tão urgente que ele pensou mesmo em fugir certa vez com um circo que havia passado pela cidade. Acabou sendo detido a tempo, enquanto perambulava pela pequena estação de trem, indeciso quanto ao seu ato de coragem.

Seu nome de batismo, como foi dito, era Taufik. Ele nasceu em 1922, passando a infância entre as cidades de Conceição Aparecida, também conhecida como Barro Preto e Muzambinho. Era filho de Rada e Isaac Jacob, dois frutos da onda de imigração que tinha trazido homens e mulheres de países longínquos do Oriente para tentar uma melhor sorte em terras norte e sul-americanas.

Meu avô Isaac tinha um ritual, quando eu e meu irmão éramos crianças. Ele vinha nos visitar no Sumaré, sempre trazendo um cacho de bananas embrulhadas em jornal, simplesmente para não chegar de mãos vazias. Então, pedia que nós trouxéssemos o Atlas escolar e nos mostrava o trajeto que fez para chegar ao Brasil, traçando o mesmo com o dedo indicador sobre o mapa: Líbano, porto de Marselha, o oceano Atlântico… Uma verdadeira aventura num mundo em que as distâncias eram maiores do que hoje.

Como era habitual entre os imigrantes árabes, meu avô foi mascate durante um tempo. Mascates, como se sabe ou para quem porventura não saiba, eram comerciantes que iam vender suas mercadorias pelo sertão, atravessando quilômetros e quilômetros de terra, para chegar até fazendas distantes onde as pessoas tinham dificuldade de adquirir certos produtos.

Eles faziam essas viagens em cavalos, levando burros de carga ou carroças e mesmo automóveis quando estes se tornaram mais habituais. Vendiam desde utensílios domésticos até roupas e cosméticos. Chegavam até as fazendas e povoados carregados de todo tipo de tranqueiras úteis e eram assediados pelas pessoas, afoitas por novidades.

Não era uma vida fácil, ainda mais por que eles tiveram muitos filhos, dos quais meu pai foi o primogênito. E minha avó Rada, mulher muito religiosa e ativa, ainda acabou adotando mais uma menina negrinha, nossa tia Maria, de modo que a conta chegava a dez, coisa impensável hoje em dia. E foi de minha avó a decisão de se mudarem para São Paulo. Um dia, ao ver que o futuro dos filhos possuía uma perspectiva muito limitada, simplesmente anunciou a decisão ao meu avô, iniciando uma correria que levou a família do interior de Minas Gerais, para a zona leste paulistana, mais precisamente para o bairro do Belém.

Esta passagem, muito narrada por minha tia Edna, irmã de meu pai, é um primor de conteúdo ecumênico, pois apesar de protestante aguerrida, nossa avó Rada mantinha boas relações com,o Padre José, para quem costurava fantasias usadas em dramas de fundo religioso. Até uma fantasia de diabo ela fez, com roupa vermelha, rabo e chifres, contava rindo, anos mais tarde, pois era de opinião que o dito cujo não deveria ter aquela aparência de teatro infantil. Antes: se aparência tivesse, deveria ser a de moço bonito, charmoso, de fala fácil e péssimas intenções.

O fato é que o Padre José acabou auxiliando meus avôs, de um modo muito simpático, inclusive arrecadando um pequeno fundo para financiar a viagem. O casal veio na frente para ajeitar as coisas com a firme decisão de só mandar buscar a filharada depois de arrumar pelo menos um teto. Mas diversos contratempos e dificuldades em São Paulo fizeram com que demorassem a dar uma resposta. E tal era a ansiedade de meu pai para conhecer a cidade grande que ele não pode suportar a longa espera.

Quando as notícias passaram a rarear, ele resolveu viajar sozinho numa aventura arriscada, em carona com caminhões. E, por incrível que possa parecer, conseguiu se virar e acabou chegando até onde seus pais estavam – para total pasmo dos mesmos. Um dia minha avó abriu a porta e lá estava o seu filho mais velho, o Taufik, ou Tufi, como era pronunciado, sozinho, sem ninguém. Esta história se tornou uma espécie de lenda familiar.