Coordenadores, Formadores e Aprendizes Pensam em Suas Pedagogias no Módulo Amarelo

Publicado em: 09/08/2010

 As práticas teatrais contemporâneas têm se configurado como espaços de experimentação artística. Nesse sentido, elas estão distantes de técnicas que servem apenas como instrumentos didáticos para se chegar a uma suposta interpretação espetacular.   Cada vez mais, o teatro de grupo tem se voltado para o exame dos seus processos, objetivando estabelecer princípios práticos e teóricos que revelem a identidade artística e as opções estéticas dos envolvidos no trabalho. Assim sendo, ao invés da mera reprodução de técnicas e métodos pensados por outros, os atores, cenógrafos, figurinistas, diretores, dramaturgos, sonoplastas e técnicos do palco passaram também a investigar seus próprios processos e métodos cênicos.   Essa maneira de estruturar o trabalho de criação teatral tem apontado para o que chamamos de Pedagogia do Teatro.     
 

O termo Pedagogia do Teatro parte da concepção de que é no próprio desenvolvimento do trabalho cênico que encontramos o campo de investigação prática e teórica do teatro. Em face disso, diretores têm desenvolvido um trabalho colaborativo com todos os envolvidos no trabalho teatral, voltando sua ação também para a seleção de procedimentos didáticos adequados à formação do grupo. Nesse trabalho, a formação técnica não está dissociada do objeto artístico.   Ao contrário, trata-se de compreender que é parte inseparável do teatro a ação pedagógica que abrange desde a organização das propostas estéticas de uma encenação até o encaminhamento delas junto aos atuantes.   

 

A Pedagogia do Teatro se inscreve dentro de uma visão mais ampla. Ela não está limitada às condicionantes de conceitos estritos à Pedagogia e à Didática. Suas propostas buscam sedimentar aepistemologia do conhecimento no próprio teatro e nos seus modos de produção e recepção artística. 

 

O termo Pedagogia do Teatro é utilizado em diferentes contextos. Para exemplificar, podemos destacar o nome de Eugenio Barba, em A Arte Secreta do Ator (1995). Ele também faz parte de referências relacionadas ao contexto alemão a Theaterpädagogik[1], cuja denominação confere ao campo teórico-prático do teatro imbricações com a pedagogia e a educação. 

 

Dentro desse âmbito, não faz mais sentido pensar em transmissão de conteúdos ou repetição de técnicas artísticas, mas em proposições capazes de gerar criações e outros olhares sobre o teatro. Dessa maneira, estabelece-se uma rede de conhecimento na área do Teatro, amparada pela habilidade de perceber, conceber e produzir arte. Sabe-se que essa rede de conhecimento artístico extrapola para outras áreas do conhecimento humano, pois o Teatro é transdisciplinar pela sua própria natureza. 

 

Nesse sentido, o processo de um trabalho teatral pode ser organizado a partir de proposições artísticas, em oficinas de investigação, em ateliês de criação, em espaços de discussão e de fruição estética. Todo o processo deve ser pensado com base na ideia de que as propostas de trabalho compreendem uma relação dialógica entre o artista e a obra de arte. Essas propostas vêm sendo articuladas na SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco.  Como centro de formação artística e sob a premissa da ideia de artistas que formam artistas, as proposições de trabalho na SP Escola de Teatro são dividas em módulos, independentes, porém, que dialogam com vários temas ligados ao teatro. Especificamente, no segundo semestre de 2010, iniciou-se o Módulo Amarelo, cujo tema é o Épico. Nesse módulo, teremos o desenvolvimento de três fases: Processo, Experimento e Formação.  

 

Na fase do Processo, coordenadores, formadores e aprendizes desenvolverão uma trajetória que abrange questões especificas de cada curso e conceitos que permitirão discutir os elementos do épico.    As discussões teóricas do épico serão aprofundadas em dois espaços coletivos denominados de Teatro e a Cidade e Território Cultural. Em ambos os espaços, os aprendizes dos cursos de Atuação, Cenografia e Figurinos, Direção, Dramaturgia, Humor, Iluminação Sonoplastia e Técnicas do Palco estarão reunidos com artistas e/ou pesquisadores convidados, discutindo temas como: Teatro Dialético; Panorama do Teatro Épico; Elementos do Teatro Épico – Narratividade; Atuação em Teatro Épico. Assim, as sextas e os sábados se configurarão como grandes espaços de troca entre os coordenadores, formadores e aprendizes.

 

Já a fase do Experimento está voltada às proposições cênicas, nas quais ocorrerá o estreitamento entre o pensar e produzir teatro. Nesse momento, os elementos do épico deverão ser operados com lugares teatrais não edificados para ser teatro.   Aqui, o desafio dos aprendizes será definir, durante a própria ação do fazer teatral, com quais conceitos do épico irão trabalhar nos experimentos cênicos.     

 

O período destinado à Formação concentrará suas propostas no diálogo dos formadores e aprendizes com o saber-fazer teatro e com saber-ser artista. Nessa fase, será possível verticalizar determinados temas, estabelecer parcerias com outros artistas e sistematizar toda a trajetória desenvolvida no Módulo Amarelo. 

 

Como é possível perceber, temos pela frente muitos desafios, muitos encontros, muitos espaços destinados para fazer e pensar Teatro. Dessa forma, será possível articular pedagogias diretamente ligadas às proposições teatrais surgidas, em diversos momentos, no Módulo Amarelo.   Será também um espaço para que formadores e aprendizes pensem sobre suas práticas teatrais e, consequentemente, possam contribuir para a trajetória da pedagogia do teatro na contemporaneidade.

 
Ao trabalho artistas!
 
Joaquim Gama

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[1] Na revista especializada Zeitschrift Für Theater Pädagogik (Pedagogia do Teatro) é possível encontrar artigos com diferentes vertentes e abordagens. Em geral, as publicações alemãs dedicadas à Pedagogia do Teatro têm apresentado uma multiplicidade de métodos, formulações teóricas e históricas, apontando para o seu caráter transdisciplinar.