“Conselho de Classe”: realidade, perplexidade, inspiração

Publicado em: 06/12/2020

Por Evandro Leal, especial para a SP Escola de Teatro

 

Que importa a atuação, a encenação, a trilha, o cenário quando o assunto é a educação pública em um país como o nosso? Quem já teve a oportunidade de frequentar a sala de professores das nossas escolas sabe que a peça Conselho de Classe, dramaturgia de Jô Bilac encenada na Satyrianas pelo Coletivo Poros, é uma obra realista. O idealismo da professora Mabel (Suellen Souza) se equilibrando em uma realidade absurda sempre a um milímetro de descambar para a violência. A professora Edilamar (Laura Lopes), zeladora da ordem, receosa da ocupação de seu museu de troféus. Célia (Keli Santos), de bom coração e resignada com seu cigarro, seu café, sua cerveja. E o diretor substituto João Rodrigo (Guilherme Moreira), voz da razão e da coerência abafada pelo toque dos celulares. Deixo em separado Tia Paloma (Anne Martins), passada, perdida, porque por vezes suas intervenções quebravam o realismo falando para nós em rompantes reflexivos.

 

Estamos assistindo a uma reunião de conselho de classe feita online por causa da pandemia. Duas professoras – Edilamar e Mabel – rivalizam sobre a interpretação de uma manifestação feita pelos alunos por conta da proibição da entrada de um aluno na escola por usar boné. A manifestação culminaria na encenação da peça “O Pagador de Promessas” de Dias Gomes – escritor que dá nome à escola -, mas a diretora (ausente do conselho) e a professora Edilamar intervêm e há um desfecho trágico com a diretora ferida e os alunos oprimidos pela polícia. Esse episódio nos é apresentado em um vídeo muito emocionante porque vemos nele a violência do Estado contra os estudantes nas ocupações estudantis, e vemos também Paulo Freire e toda luta que ele representa. Foi um dos raros episódios em que nos últimos tempos assisti a um vídeo durante uma peça expondo acontecimentos políticos recentes e ele era necessário. Os ventiladores descrevendo sua elipse sozinhos nos quadradinhos do Zoom exprimem bem a perplexidade diante da situação. O desejo de alguém como eu que assiste a esta peça – e se importa – é que a postura ativa e reflexiva não termine na representação, mas siga inspirando e criando práticas reflexivas e libertárias na vida.

 

* Evandro Leal é participante da oficina olhares: poéticas críticas digitais, oferecida pela SP Escola de Teatro e ministrada pelo crítico Amilton de Azevedo, que supervisiona a produção e edita o material resultante.




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