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COLUNA | "O Evangelho segundo Maria", por Sergio Zlotnic

Publicado em: 27/01/2016

1 – Formidável, em todos os sentidos, o espetáculo “O Testamento de Maria”, em temporada no Sesc Pinheiros até o dia 13 de fevereiro, com grande direção de Ron Daniels. 
 
Notável o texto de Colm Tóibín, que trata da inquietante oposição entre História Oficial versus História Extraoficial. De nossas poltronas, testemunhamos o desenho de um mito em estado nascente.
 
Nessa gênese, vê-se a dança de duas faces da verdade: ao despregar Cristo da cruz, Maria nos oferece a versão humanizada da fábula cristã —numa operação em que são interrogados os processos por meio dos quais se constroem certezas, que nos calcificam e imobilizam! A sede pelo fantástico e pelo absoluto está em pauta. 
 
Tóibín flagra o momento em que um Totem é erigido: o povo não quer saber da verdade; a massa quer parábolas que a embalem num berço esplêndido.
 
Na direção oposta, judaica é a fidelidade de Maria: ela não se deixa cegar pelas brumas! É fiel àquilo que vê. Visão avessa à miopia. Coisa rara! Assim, se desprega da versão oficial dos “fatos ocorridos” – embora, com isto, evidentemente, construa outra versão, pessoal, relativa e sempre incerta.
 
Maria está descolada da massa hipnótica, apegada unicamente à autonomia assustadora de sua própria verdade: seria bem mais cômodo estar adormecida! Aderir à manada é tentação difícil de conter.
 
2 – Nos dias que correm, tão favoráveis a maniqueísmos e ideologias engessantes – com seus riscos de fraturas sociais –, a peça tem impressionante atualidade e o mérito de descer ao momento em que uma bifurcação histórica se oferece! Poucos são aqueles que se consultam antes de decidir o caminho a tomar (poucos são os que enxergam a bifurcação). Estouro da boiada! 
 
Através da voz dissonante de Maria, na contramão do rebanho, a peça lança um olhar judaico para a encenação cristã (explico adiante). E, assim, enxerga o Mito como construção e performance: uma grande farsa – inescapável ao teatro.
 
Em sua liberdade, Maria não se entrega à suspensão da descrença. Não há lugar em seu dicionário para credulidades. Ela desacredita do espetáculo (porque o enxerga como espetáculo!) e de seu aspecto performativo.
 
Cabe indagar se a suspensão da descrença é um passaporte a ser usado sem comedimentos no campo das artes; mas com toda parcimônia no campo social. Será assim?
 
 
3 – Com excelente atuação (de Denise Weinberg), há um detalhe gigante a ser sublinhado: a presença imensa (e discretíssima) de Gregory Slivar. É dele a sonoplastia artesanal, homemade, feita a mão, in loco, no calor da hora, na raça, na nossa frente, ao vivo. 
 
Compositor da trilha sonora, ele mesmo, com enorme talento, tece comentários musicais que dialogam com a peça, em paralelo com sons, voz, percussão e cordas, produzindo uma conversa sem palavras. Cochichos precisos, discretos, impecáveis. 
 
Enfim, com um conhecimento orgânico de música e de teatro (infiltrado nos poros), a presença do sonoplasta – tal qual fosse um segundo ator – é tão grande quanto a da protagonista. E ambos se alinham à perfeição.
 
4 – Sobre a judeidade! Que mãe não teria gostado de parir o filho de Deus? Maria! Por amor, cultiva desconfiança permanente em relação a tudo que está dado de antemão (incluindo seu filho). Suspeita – note-se – é palavra de ordem na raiz da psicanálise. Reserva e desconfiança são ingredientes cultivados para tentar “ver as coisas em seu real tamanho”. Agarrar-se ao mastro para não se deixar embriagar pelas paixões! 
 
Este é o lema de Freud e de Maria – ambos judeus, tanto quanto o Cristo. Na literatura, outro personagem já tomou esta providência, a de agarrar-se ao mastro (e tapar os ouvidos), como bem se sabe! As sereias cantam e entorpecem… Cautela!
 
Há uma herança cultural na maneira de enxergar os filhos. Tratei disso, via ficção, noutro lugar (ver “As mulheres de Ló” – quase que “antecipando” a peça! (Escrevi o texto em novembro de 2015, antes de assistir a “O Testamento de Maria”).
 
No contexto do espetáculo, o adjetivo judaico pode ser substituído pela palavra “laico”. Não entro na discussão a respeito de o judaísmo referir-se ou não a um credo, a um povo ou a uma tradição! Basta que se diga que a obra de Tóibín estabelece uma visão “laica” dos mitos fundantes da civilização… À moda de Maria, que olha para o proibido sem se transformar em estátua de sal!
 
5 – Ficha técnica: Concepção, Adaptação e Direção: Ron Daniels
Texto: Colm Tóibín.
Tradução e adaptação: Marcos Daud e Ron Daniels
Encenação: Denise Weinberg
Curadoria artística: Ruy Cortez
Cenografia: Ulisses Cohn
Figurino: Anne Cerruti
Música originalmente composta e execução ao vivo: Gregory Slivar
Iluminação: Fábio Retti
Diretor assistente: Pedro Granato
Sesc Pinheiros
Duração: 80 minutos
Local: Auditório (3º andar)

Até 13/2




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