Chega de Abandono

Publicado em: 12/11/2010

Elaine Batista da Costa, conhecida como Cuca, todos os dias segue a mesma rotina. Após suas aulas na SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, essa aprendiz do curso de Iluminação arruma suas trouxas na mochila e pega um ônibus que sobe o elevado do Largo da Concórdia para chegar até sua casa.
 

Preocupada em pensar os espaços teatrais para o Experimento, essa atenta garota comenta que sempre ficava curiosa ao ver a grande torre de uma fábrica que parecia abandonada, bem abaixo desse elevado. “Sempre que eu passava por ali, percebia que não havia nenhum tipo de movimentação naquele lugar”, revela Cuca.
 

Foi nesse momento que a Cuca teve uma ideia que mudou o rumo das apresentações do Experimento para quatro grupos. “Eu fui até o local e pulei o muro junto com mais dois colegas, quando a gente entrou e viu aquele enorme espaço abandonado, não pensamos duas vezes e começamos a perguntar para toda a vizinhança quem seria o dono daquele lugar”, conta a aprendiz.
 

Em pouco tempo, Cuca e seus colegas descobriram que um grande empresário do Brás, conhecido como Seu Mimi, era a pessoa que procuravam. Esses aprendizes foram até ele para explicar que gostariam de fazer um espetáculo naquele local. “No começo, acho que ele não entendeu nada, se bobear, nem sabia o que era teatro. Entretanto, ele foi muito querido conosco pedindo para um funcionário de sua loja nos acompanhar até o local para uma visita ‘formal’”, brinca Cuca.
 

Ao visitar a fábrica abandonada, Seu Mimi alertou que o lugar não tinha água e nem luz elétrica para realizar espetáculos, porém os aprendizes insistiram e, após receber uma carta da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, Seu Mimi aceitou a proposta de transformar sua enorme fábrica abandonada em espaço teatral.
 

Para isso, inclusive, liberou alguns disjuntores de luz de sua loja e levou um eletricista para ajudar os iluminadores a fazer essa instalação.
 

Foi então que os aproximadamente 100 artistas divididos em quatro grupos passaram a ocupar esse espaço e começaram a construir um território teatral pulsante. A primeira atitude foi fazer uma grande limpeza, nos dias 25 e 26 de outubro, e, nesse momento, todos esses aprendizes juntaram forças para tirar restos de detritos, animais mortos, lixo e muita poeira do térreo do prédio e de uma enorme sala no primeiro andar do local.  “Até alugamos um caminhão pipa para jogar um jato de água do teto ao chão, o fato engraçado mesmo foi uma colega cair dentro de uma fossa naquele prédio e, com o maior nojo, se lavar com o jato de água do caminhão”, revela Cuca.

 

Desde então, o local serve para os ensaios dos espetáculos baseados nos textos “Hamletmachine”, de Heiner Muller; “Santa Joana dos Matadouros”, de Bertold Brecht; “Sonho de Uma Noite de Verão”, de Shakespeare, e “As Rãs”, de Aristófanes.

 

Segundo Adaberto Lima, aprendiz de Direção, os trabalhos no local têm sido muito prazerosos. “O grupo se uniu de tal forma, que, mais do que realizar um trabalho colaborativo, fazemos um trabalho coletivo. Além do que, a escuridão do prédio é um facilitador na iluminação”, revela.

 

Amanda Nogueira, aprendiz de Atuação, revela que grande parte do seu grupo gosta bastante de trabalhar naquele renovador espaço teatral e reforça que a escuridão é, de fato, algo que acrescenta personalidade ao espetáculo.

 

Além dessa fábrica abandonada, outros quatro espaços foram selecionados para a realização do Experimento, são eles: o Espaço Arsenal da Esperança, a Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos (APIC), a Escola de Samba Mocidade da Mooca e a SP Escola de Teatro, todos entre as estações Brás e Bresser do Metrô, na Zona Leste de São Paulo.
 

A proposta da SP Escola de Teatro aos aprendizes durante o Experimento era fazê-los imaginar que mesmo as ruínas e locais abandonados no Brás, bairro onde se situa a Escola, possam se constituir em um território teatral.
 

Para os aprendizes, cabia descobrir estes indícios e revelar o teatro que existe nesse bairro, um teatro que talvez não seja tão representativo ou desempenhe o mesmo papel social do teatro contemporâneo, mas que também revela histórias e sonhos. Afinal, os tempos são outros, o teatro é outro. E é importante vivenciar e conhecer este outro tempo que este local pode mostrar.
 

As apresentações do Experimento serão realizadas entre os dias 16 e 18 de novembro, são gratuitas e abertas ao público. Para assistir, basta chegar com uma hora de antecedência do início dos espetáculos.
 

Confira a programação e aproveite.
 

EXPERIMENTO – ESPAÇOS E DATAS DE APRESENTAÇÃO

Dia 16 de novembro

Grupo 6 – SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO
Espaço: Fábrica FERLA
End.: Rua do Gasômetro (embaixo do elevado, no Largo da Concórdia)
Horário: 11h30 – 13h

 

Dia 17 de novembro

Grupo 3 – HAMLETMACHINE
Espaço: Fábrica Ferla
End.: Rua do Gasômetro (embaixo do elevado, no Largo da Concórdia)
Horário: 10h30 – 12h

 

Grupo 4 – AS RÃS
Espaço: Fábrica Ferla
End.: Rua do Gasômetro (embaixo do elevado, no Largo da Concórdia)
Horário: 13h – 16h

 

Dia 18 de novembo

 

Grupo 7 – SANTA JOANA DOS MATADOUROS
Espaço: Fábrica FERLA
Horário: 10h – 17h30

 

Grupo 8 – MACUNAÍMA
Espaço: Arsenal da Esperança
End.: Rua Dr. Almeida Lima, 900
Horário: 15h – 19h

 

Dia 19 de novembro

Grupo 1 – AS TROIANAS
Espaço: Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos (APIC)
End.: Rua Cajuru, 730
Horário: 10h

 

Grupo 2 – UBU REI
Espaço: SP Escola de Teatro
End: Avenida Rangel Pestana, 2.401 – Brás
Horário: 10h – 12h

 

Grupo 5 – O REI DA VELA
Espaço: Escola de Samba Mocidade da Mooca
End.: Embaixo do Viaduto Bresser (Radial Leste) 
Horário: 17h – 19h