Cegos, Surdos, Mudos e Mortos

Publicado em: 31/05/2011

 

Os dramaturgos do grupo Dois, do Experimento do Módulo Verde, se basearam nas relações interpessoais das personagens de “A Gaivota”, de Antonin Tchecov e identificaram suas frustrações, angústias, anseios, dificuldades de comunicação e todas as provas de que as vidas e relações são superficiais e desequilibradas.

Um aspecto muito citado por todos os aprendizes do grupo é a “conversa de surdos”, em que muitos falam, mas poucos realmente ouvem e demonstram algum interesse pelos problemas alheios. Isso se conecta com a teoria de Zygmunt Bauman sobre a metáfora da “liquidez da vida”, conceito que trata as relações humanas como “líquidas”, ou seja, sem uma forma definida.

Outro assunto entrelaçado são os encontros e desencontros vistos no texto, o que o filósofo Bento de Espinosa chama de paixões alegres e paixões tristes. A primeira acontece quando as pessoas que se encontram e se afetam, de forma positiva, numa troca recíproca. A segunda é quando ocorre o contrário, gerando a diminuição da potência de agir, pois não há como lutar contra o desencontro. 

O mito do Narciso é outra referência utilizada pelo grupo. Segundo o aprendiz de Atuação, Lucas França, diante dessas relações conturbadas e, de certa forma, egoístas, se consegue extrair meras projeções das próprias pessoas. “Tentamos trazer isso pro nosso cotidiano. Será que escutamos o que os outros aprendizes do nosso grupo nos falam? Conseguimos obter um bom resultado sem conflitos?”, pergunta Lucas que ainda relembra a atualidade do texto escrito no século XIX.

O aprendiz de Direção André de Araújo comenta sobre uma inovação no jogo cênico: associar a personalidade de cada personagem a uma peça do jogo de xadrez. Por exemplo, a Arkádina seria a rainha, por possuir um ar de superioridade na história. Dessa forma, cada aprendiz se deslocará no palco de acordo com a movimentação permitida em um jogo de xadrez. A personagem Trigorin, por exemplo, só andará em “L”, pois representa o cavalo.

Além deste, outro desafio para os aprendizes de Atuação é compartilhar o mesmo espaço cênico durante os 15 minutos de apresentação. “Não teremos transição. Será difícil, pois devemos interagir com o contexto mesmo que não tenhamos fala. Precisamos sempre manter a postura e preencher os espaços”, explica a aprendiz Sandra Vilchez.

O pessoal de Sonoplastia faz um trabalho de ambientação, inserindo músicas diegéticas e não-diegéticas. A primeira se refere à sonoridade que faz parte do contexto, ou seja, que ajuda na significação da cena, de acordo com as ações das personagens. A segunda diz respeito aos sons externos à cena; em outras palavras, são as músicas que o público ouve e se envolve, mas que não têm ligação direta com a cena.

O efeito transitório do entardecer para a noite foi explorado pelos aprendizes de Iluminação e Cenografia e Figurino que tentaram caracterizar a cena de modo a envolver todos os espectadores.

 

* Foto ilustrativa / Experimento Módulo Verde 2010 

 

Serviço

Apresentação do Experimento – Grupo Dois

Quando: 4 de junho, às 13h30

Onde: Teatro Anhembi Morumbi

Rua Dr. Almeida Lima, 1.198 – Brás

Entrada franca

Aberto ao público