Carlos Alberto Soffredini por Renata Soffredini

Publicado em: 25/07/2013

*Apresentação do livro “Carlos Alberto Soffredini – serragem nas veias”, escrito por Renata Soffredini para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, lançado em 2010 (para ler a obra, na íntegra, clique aqui)

Quando dizemos que um artista tem serragem nas veias, isso significa que ele nasceu artista, nasceu talhado para essa função. Essa expressão, é claro, tem origem no circo. Para esses artistas que têm os avós, os pais, os irmãos, os tios, todos nascidos no circo, ter serragem nas veias é mais do que uma expressão. É ter no seu ofício quase uma sina, é não ter sangue e sim, tradição.

Embora meu pai não tenha nascido no circo, colocou o artista ambulante e sua arte popular no lugar que lhes era devido, um lugar de honra no centro da tradição do teatro brasileiro. Na dramaturgia, eternizou o circo-teatro na peça “Vem buscar-me que ainda sou teu”. E também na direção de cada ator que, com ele, teve o privilégio de aprender a arte de interpretar segundo o que ele chamava de a nossa linguagem, que é uma estética colhida desse tipo de teatro, o circo-teatro ou teatro ambulante.

Meu pai não acreditava em talento. Acreditava em vocação. Achava que se alguém quisesse trabalhar na área, o que importava era a sua capacidade de suportar os reveses da profissão, de superar limites e saber que o artista nunca está pronto – se ele achar que não precisa aprender mais nada, está morto.

Toda esta humildade, para ele, tinha limite, principalmente quando o pano subia e as luzes acendiam-se. Ele dizia: sofreu tanto pra chegar até aqui, agora sobe lá e brilha!

O ator para ele é a figura principal do teatro. Tudo o que vem antes é preparação para o momento mágico, quando o ator, diante da sua plateia, pode comunicar, através do seu personagem, ideias, emoção, prazer. Para tanto, o ator tem que estar com os seus instrumentos afinados: seu corpo, sua voz, seu intelecto, sua alma.

Soffredini se considerava um bom autor na medida em que fazia uma boa partitura para o ator. Estas partituras, as obras dramatúrgicas, ficarão para sempre no repertório brasileiro, quando impressas em uma edição ou remontadas. A representação, a função, o espetáculo, o que acontece, enfim, no palco… aquele momento único é efêmero. Qualquer tentativa de registro não tem a mesma qualidade da que fica nas impressões gravadas na memória de quem viu e de quem atuou. É por essa razão que, ao ser convidada por Rubens Ewald Filho para escrever um livro sobre o meu pai para a Imprensa Oficial do Estado, resolvi dar voz à memória de alguns artistas que participaram dos diversos grupos liderados por ele. Foram quarenta entrevistas, algumas escritas e mais de cinquenta horas de gravação, realizadas, na maioria das vezes, na casa do entrevistado, onde fui recebida com muito carinho. Agradeço a todos pela inestimável contribuição que deram a este livro.

Fui integrante do Núcleo Estep e, nessa época, me esforçava muito para chamar meu pai de Soffredini ou Soffra. Não queria me diferenciar dos outros companheiros e procurava evitar, desta forma, que ele sofresse acusação de nepotismo. Minhas tentativas foram em vão. Relaxei e só chamo meu pai de Soffredini quando me refiro ao Dramaturgo.

O Soffredini, o pai, o mestre e o meu maior fã me fazem muita falta. Sinto muita saudade das coisas que eu não vivi com ele!

Dedico este livro a todos os Soffredini que ficaram com a missão de preservar e propagar seu trabalho. E que, de alguma forma, herdaram dele a Serragem nas Veias.