Bolaños morreu! Mas não enterrem o Chaves!

Publicado em: 01/12/2014

(Foto: Divulgação)

 

* por Hugo Possolo, especial para a Folha de S.Paulo

 

“Isso, isso, isso!” Audiência da Globo ameaçada pelo SBT na re-re-reapresentação de Chaves! Piada, só que não. É o poder do riso popular e incontestável.

 

Há muito que o programa deixou de ser gravado e Chaves permanece e permanecerá, pelo simples fato de que era simples. Aliás, como tudo que é genial.

 

Quem morreu foi seu criador, Roberto Bolaños. Por favor, não enterrem o Chaves! Nem Chapolin Colorado!

 

Vivas ao bardo do humor mexicano, Chesperito! Nuestro Shakespeare latino-americano!

 

Ver Bolaños entubado na cadeira de rodas era como encarar um Papai Noel fumando charutos ou assistir a um coelhinho da Páscoa atuando em filme pornô. A estranheza não é um velho encerrando o ciclo, mas sentir que seu olhar ainda abrigava o menino que tanto amávamos.

 

Claro, vamos preferir a imagem de Chaves fazendo seu choro “pipipipi” ou Chapolin dizendo “não contavam com minha astúcia!” E essa será sua eternidade.

 

O artista Bolaños soube envelhecer com graça. Diferente de nosso Renato Aragão, que entra em contradição com seu Didi quando fala naquela emotividade inconvincente de pedir bufunfa pra criancinhas esperançosas do Brasil, Bolaños até o final manteve a verve de zombar de tudo sem autoindulgência.

 

Assim tratou Chaves. Fez milhões de piadas sobre menino órfão que mora num barril no fundo de uma vila pobre, sem nenhum sentido de humilhação.

 

Não à toa, a recente geração de comediantes brasileiros, como Danilo Gentili e Tatá Werneck, citam Chaves como sua inspiração. Cresceram vendo que se pode fazer rir de tudo.

 

As piadas do Chaves já nasciam clássicas. Sabia jogar com a infâmia sem culpa. A tosquice dos cenários e figurinos nunca tirou a verossimilhança das situações, construídas por personagens caricatos que não se deixavam estereotipar. Todos naquela vila eram bons e maus, sem maniqueísmos, com as contradições humanas dilatadas, caricaturas que sempre nos permitirão rirmos de nossas pequenezas.

 

O humor popular, tratado com arrogância pela intelectualidade tacanha, pode até virar algo “cult”. Bom mesmo seria manter a estampa de brega para deixar claro que humor refinado é coisa de quem tem preconceito com a comédia.

 

“Sem querer querendo” fiz o trocadilho, repetindo o “chavão” de que o politicamente correto, esse moralismo bunda-mole, insiste em tornar a vida mais chata. “Tá bom, mas não se irriiite!”.

 

Foi-se o criador do menino ingênuo que morava num barril. Além da tristeza que fica, tem aquela que permanece na ideia de um mundo careta que talvez não deixe espaço para nascer mais esse humor livre. Desculpe falar disso. “É que me escapuliu!”

 

* Hugo Possolo é palhaço, dramaturgo e diretor dos Parlapatões, além de coordenador do curso de Atuação da SP Escola de Teatro