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Bob Sousa entrevista Milla Fernandez

Após uma temporada de destaque no Rio de Janeiro e indicação ao Prêmio APTR na categoria Jovem Talento, TIP (antes que me queimem eu mesma me atiro no fogo) chega a São Paulo trazendo ao palco uma experiência pessoal transformada em arte. Em um potente exercício de autoficção, a atriz, dramaturga e performer Milla Fernandez revisita o período da pandemia, quando encontrou no trabalho como camgirl uma forma de sobrevivência diante da ausência de perspectivas profissionais. Com direção de Rodrigo Portella, a montagem articula humor, vulnerabilidade e reflexão crítica para discutir temas como exposição, desejo, fracasso, mercado da imagem e autonomia feminina. Nesta entrevista, Milla Fernandez fala sobre os desafios de transformar uma experiência tão íntima em material cênico, os limites entre realidade e ficção e o poder libertador da arte diante dos julgamentos sociais.

Bob Sousa – Em TIP, a experiência da camgirl se transforma em uma reflexão sobre a sociedade da imagem. Você acredita que, na contemporaneidade, a visibilidade passou a ser uma forma de valor social e até mesmo de existência?

Milla Fernandez – Eu não tenho Instagram e às vezes eu mesma me pergunto se existo (risos). De vez em quando, me dou conta dessa segunda vida acontecendo em paralelo, uma espécie de existência pública da qual quase todo mundo participa e eu estou fora. A vida real, obviamente, não depende disso, mas é inegável que a visibilidade online se tornou uma forma importante de presença social e, no entretenimento, quase uma ferramenta de trabalho.

O jogo em TIP é justamente ressaltar a ambivalência disso. Ser vista pode significar reconhecimento, pertencimento e até sobrevivência. Mas também pode significar vigilância, julgamento e captura. A visibilidade nunca é neutra.

Bob Sousa – O espetáculo aproxima a atuação artística, as redes sociais e o entretenimento adulto ao evidenciar que, em diferentes contextos, estamos constantemente performando para o olhar do outro. Onde você localiza a fronteira entre identidade, desejo e performance?

Milla Fernandez -Se você me fizesse essa pergunta antes da experiência como camgirl, eu provavelmente diria que essas fronteiras eram claras. Que existia uma identidade verdadeira de um lado e, do outro, uma performance mais construída, mais artificial, talvez até mais falsa. Mas eu não percebia o quanto havia de performance na minha própria vida: a filha perfeita, a atriz respeitável, a mulher sem manchas, a jovem madura. Eu achava que isso era a minha identidade, quando muitas vezes era também uma tentativa de corresponder ao desejo do outro.

A experiência de camgirl tornou essa fronteira impossível de sustentar. Quando decidi esconder isso por medo de julgamento, entendi o tamanho da performance que eu vinha mantendo para proteger a imagem que construí. A partir daí, identidade, desejo e performance deixaram de ser categorias separadas. Nós somos sempre em relação ao outro: ao olhar, à expectativa, ao afeto, à aprovação. Isso não significa que sejamos apenas o que os outros projetam em nós, mas que não existe sujeito completamente fora dessa relação.

O que mudou foi a possibilidade de tornar essa performance mais consciente e mais porosa. Em vez de sustentar uma imagem imaculada, comecei a integrar também o erro, o constrangimento, a contradição, aquilo que eu antes tentava esconder. Acho que isso me aproximou de uma forma mais íntegra de estar em cena e na vida.

Bob Sousa – Ao tratar da monetização da intimidade e do corpo, a peça levanta questões sobre autonomia e mercado. Como você enxerga a tensão entre liberdade individual e as estruturas econômicas que condicionam nossas escolhas?

Milla Fernandez -A liberdade absoluta é uma ficção tão grande quanto a ausência total de escolha. A maioria das decisões nasce num lugar em que desejo e necessidade se confundem. A necessidade, muitas vezes, nos empurra para lugares que nunca imaginaríamos ocupar. Ela pode produzir criatividade, deslocamento, invenção. Mas eu acho perigoso romantizar isso.

Existe uma diferença entre reconhecer que alguém conseguiu transformar uma situação-limite em algo possível e achar que essa situação-limite deveria existir. A dignidade não deveria depender da capacidade de cada pessoa de fazer boas escolhas dentro de condições ruins. Algumas coisas deveriam estar garantidas antes da escolha.

Em TIP não há intenção de justificar a escolha de trabalhar com entretenimento adulto. Existe o retrato do contexto em que tudo aconteceu, um contexto que, vivido por outra pessoa, poderia tomar um rumo completamente diferente. Cabe ao espectador construir a própria leitura. Pode haver autonomia e armadilha no mesmo gesto. A peça não resolve essa tensão. Ela existe.

Bob Sousa – A imagem da fogueira presente no título remete tanto à perseguição histórica das mulheres quanto aos julgamentos contemporâneos. Que relações você estabelece entre a figura da bruxa e as formas atuais de controle e vigilância sobre o feminino?

Milla Fernandez -O que me interessa na figura da bruxa não é exatamente a fantasia mística, mas o mecanismo social que ela revela. A bruxa é muitas vezes uma mulher sobre quem se constrói uma narrativa para justificar uma violência. Antes de queimá-la, é preciso nomeá-la como ameaça.

Isso continua existindo de outras formas. Mulheres ainda são vigiadas pelo corpo, pelo desejo, pela ambição, pela recusa em corresponder ao que se espera delas. A fogueira contemporânea talvez seja menos literal, mas continua dependendo de uma comunidade disposta a julgar.

Na peça, a proposta é deslocar essa lógica: antes que me reduzam a uma versão única, eu mesma entro no fogo com uma narrativa cheia de contradições.

Bob Sousa – A autoficção ocupa um lugar singular entre memória, invenção e verdade. Ao transformar sua própria experiência em dramaturgia, o que mais lhe interessa: a fidelidade aos fatos ou a busca por uma verdade emocional e simbólica?

Milla Fernandez -A fidelidade absoluta aos fatos é impossível. A memória já é uma forma de ficção. Toda vez que contamos uma história, organizamos, selecionamos, interpretamos.

O que me interessa é uma interpretação teatral dos fatos. Não no sentido de inventar qualquer coisa, mas de reconhecer que os fatos, sozinhos, nem sempre explicam a experiência. Às vezes uma invenção pode revelar algo que uma descrição rigorosamente factual não consegue alcançar. O que ficou de tudo que vivi não foram os acontecimentos em si, foram as sensações que ficaram depois, o que eu continuei carregando sem entender bem por quê. É isso que eu tentei colocar em cena. Não um relatório, mas o resíduo.

Bob Sousa – Ao longo da peça, a pergunta sobre o desejo de agradar atravessa a atriz, a mulher e a camgirl. Depois de todo esse percurso artístico e pessoal, o que você descobriu sobre a necessidade humana de reconhecimento e pertencimento?

Milla Fernandez -Que ela é muito menos vergonhosa do que eu imaginava.

Durante muito tempo tratei o desejo de reconhecimento como uma fraqueza que precisava ser superada ao mesmo tempo em que o buscava desesperadamente. Hoje entendo que ele faz parte da experiência humana, mesmo quando a gente finge que não. Todos nós queremos ser vistos, compreendidos, desejados, amados por alguém. O que TIP me ensinou é que existe uma diferença entre querer ser compreendida e precisar desaparecer dentro do que esperam de você.

Leia a crítica de TIP (antes que me queimem eu mesma me atiro no fogo)

Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).  

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