Berta Zemel por Luiz Valcazaras

Publicado em: 27/03/2012

Acredito que Berta Zemel, no escuro, depois de algum terceiro sinal, viu personificar numa máscara o deus do infinito. Assim, entendeu sua missão de mergulhar verticalmente em sua arte, ignorando dificuldades abismais e aceitando, como num raio, a essência do ser.

 

Quando cheguei a São Paulo, entrei para um grupo de estudos sobre as tragédias gregas, que Berta estava formando. Foi ali, ao seu lado, que descortinava um novo olhar sobre os mitos, o grego e a atriz. Fui arrebatado para o mesmo mergulho que devastava conceitos fúteis sobre a arte de representar. Berta não perdoava; como um machado, descia suas posições firmes aniquilando superficialidades midiáticas.

 

De uma técnica apolínea, seu estudo sobre o texto é cirúrgico, ela pinça cada artéria, cada músculo, preservando sempre a livre respiração da palavra. Mas não se engane, quando entra na sala de ensaio ela se desvencilha dionisiacamente e deixa acender a chama fulgurante da criação.

 

Fico pensando na época que, ainda menina, passeava pelo bairro do Bixiga. Seu olhar atento já devia absorver o humano em toda minúcia, porque cada código que estabelece no palco vem com uma densidade de quem traz na musculatura uma memória de tempos idos.

 

Paulistana, filha de imigrantes poloneses, cresceu na Bela Vista e nunca esqueceu a trajetória de seus pais, ricas de histórias, emoções e saudades.

 

Formada pela Escola de Arte Dramática (EAD), teve Alfredo Mesquita como professor, amigo e mentor, pois foi por sua sugestão que Sérgio Cardoso a convidou para estrear a seu lado, como Ofélia, na antológica montagem de “Hamlet”.

 

Sou uma pessoa que vive o teatro e no teatro. Sinto-me melhor no teatro do que na vida, embora goste de viver também. Berta é apaixonada pelo seu ofício. Trabalhamos por dois anos na montagem de “Anjo Duro”. Essa convivência, verticalizada no pensamento da psiquiatra da Dra. Nise da Silveira, nos deu uma certeza: era esse o caminho que queríamos, era esse mergulho que nos fazia acreditar em nossa arte como mediadora na interlocução entre a vida e a essência do nosso sentir. Berta é singular, não é uma atriz que representa uma personagem, mas muitas personagens são representadas em cada uma delas, eu diria, uma alquimia de inúmeros estados do ser é evocada num ritual de respeito à vida e à liberdade do espírito humano.

 

Quem a viu, ou quem a ver, não me contestará. 

 

 

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