Beatriz Segall por Alexandre Reinecke

Publicado em: 29/03/2012

Falar de Beatriz Segall…

É como falar de uma amiga que fica para sempre.

É como falar daquela professora que nunca esquecemos.

É como falar de um mito.

É como falar de uma mãezona.

É “só” falar de uma das maiores atrizes de nosso País.

 

Acho melhor falar um pouco de nossa história juntos…

 

Tudo começou em 2001, quando eu acabara de trabalhar ao lado de Paulo Autran, como assistente de direção na peça “Dia das Mães”, época em que resolvi investir realmente como diretor. Tinha como primeiro projeto a montagem da peça “Quarta-feira, Sem Falta, Lá em Casa”, peça que exigia “somente” duas grandes atrizes maduras. Caminho difícil para um diretor iniciante. Pensei em algumas atrizes, convidei-as, mas, como sempre, as que gostavam não podiam e as que podiam não gostavam. 

 

Chamei a grande Myrian Pires, que foi muito bacana, desde o principio, disse que poderia fazer qualquer personagem e que eu não precisava nem enviar o texto, pois conhecia muito bem e era muito amiga do autor.  O que fazer para seguir adiante? Arrisque-se mais, meu caro. Tente voos mais altos. Tipo, quem? Chamar uma Beatriz Segall? Está louco?! Ela nunca vai topar trabalhar com você. Ok, mas você é tão cara-de-pau, por que não tentar? Myrian, com quem, a essa altura, já tinha se tornado parceira, me encorajou, pois haviam trabalhado juntas, não fazia muito tempo. Está bem, vamos lá!

 

– Alô… Por favor, a D. Beatriz está?

– Quem gostaria?

– Alexandre Reinecke.

– Quem?!

– Alexandre Reinecke. Eu sou diretor de teatro.

(Suor e joelhos tremendo.)

– É ela. Pode falar.

(Boca tremendo.)

– Oi, Beatriz. Tudo bem? Eu estou te ligando, pois gostaria de… de… de…

– Pois não!

– Eu estou com o texto de uma peça (Ai… Que redundância! Texto de uma peça? – não me diga! Penso eu, agora tremendo e suando.) e queria lhe convidar para fazer uma das personagens. São duas mulheres. É uma peça muito divertida, que fala da amizade delas. Eu já estou fechado com atriz Myrian Pires e… 

– Que peça é?

– “Quarta-feira, Sem Falta, Lá em Casa”, de Mario Brasini.

– Ah, eu conheço essa peça. Não foi feita pela Madame Morineau?

(Putz! Ela sabe tudo da história do teatro brasileiro.)

– Essa mesmo…

– Pode ser uma ideia boa. Você pode pedir para me mandarem o texto aqui em casa? Se eu gostar, eu faço!

(PQP!!!.)

– Claro! Hoje à tarde estará na sua portaria. Obrigado pela atenção. Um beijo.

– Hei, rapaz. Você sabe onde eu moro?

– Sei, sim. É no prédio do Paulo Autran, não é? Fui muito aí nesse último ano.

– Por quê?

– Eu fui assistente de direção dele na peça “Dia das Mães”.

– Ah, é? (Isso!!! Dei uma valorizada no meu passe.) Então, está bem. Eu aguardo. Um beijo.

– Outro.

(Poxa, ela foi super atenciosa – ai, Deus, espero que ela tope!)

 

Três dias depois, estava eu, ainda como ator, fazendo teste para a personagem Super 15, quando o telefone toca – é verdade! Três dias depois! Não se vê mais isso por aí…

 

– Alô!

– Oi. É Beatriz Segall. Tudo bem?

(Ah, não! Suor e joelho tremendo de novo?! – ela vai dizer que não quer fazer, quer apostar? Mais um “não”! Tudo bem. Você não achou que ela iria fazer uma peça com você, não é?)

– Oi, Beatriz. Tudo bem e você?

– Estou bem. Eu estou ligando para dizer que li três vezes o texto. (Pronto, preparou o não!) Na primeira, não gostei. Aí resolvi ler uma segunda e comecei a gostar. Mas foi na terceira que realmente percebi que poderia dar um belo espetáculo. Eu quero fazer, sim. Mas eu quero fazer a Alcina. O que é que você acha?

(PQP! Vou ter que dirigir Beatriz Segall e Myrian Pires, na mesma peça. Juntas!)

– Sério? Claro que tudo bem? Engraçado, eu pensei que você iria querer fazer a Laura.

– É, mas essa personagem eu já sei fazer. Acho que a Alcina é mais desafiadora para mim.

– Claro. Claro.

– Que peças você já dirigiu?

– Eu… Dirigi duas peças que escrevi na década de 1990, mas não foram muito sucesso…

– Sei.

(Agora dançou tudo. Dê a cartada final. Ou melhor, a única que você tem.) 

– Mas quem melhor pode falar do meu trabalho como diretor é o Paulo Autran, pois fiz uma assistência muito participativa para ele. (E era verdade!)

– E quem vai produzir?  

– Bom… É… Na verdade…

– Eu gostaria que o Alexandre Dorea produzisse. Myrian e eu trabalhamos com ele há pouco e foi muito bom.

– Claro. 

(Até isso ela resolveu em três dias. Que mulher!!!)

– Então, vamos fazer. Vou pedir para ele entrar em contato com você e Myrian.

– Tudo bem.

– Um beijo.

– Outro…

(Que se dane o Super 15, eu agora vou dirigir Beatriz Segall!!!)

 

Reuniões com o produtor, definições de datas e estreia marcada no Teatro Renaissance. Os ensaios de mesa começaram no Rio, pois Myrian estava gravando novela na Globo.

 

Cheguei à frente do apartamento de Beatriz, no Leblon, quase uma hora antes – tamanha ansiedade – fiquei sentado de frente para o mar e de costas para o prédio uma meia hora – acho que rezando, apesar de não saber fazer muito isso – rezando para tudo quanto é deus possível. Eu tinha que me mostrar seguro. Estudei bem o texto. As respostas estariam sempre na ponta da língua. Doce ilusão…

 

Subi. Myrian ainda não tinha chegado. O coração na boca. Ainda não a tinha encontrado pessoalmente. De cara, ela já me recebeu com um sorriso nos olhos, uma mesa de lanche posta, bolos, chás e café. Parecia uma menina que vai começar um novo ano na escola. Ela também estava ansiosa, não comigo, claro! Mas com o novo trabalho. Mais uma peça em seu currículo? Não. Para essa turma, cada nova peça é “A” peça. É, não se faz mais atores como antigamente!

 

Em três dias, já éramos três amigos de infância. Os ensaios eram uma diversão diária. Brincávamos, falávamos sobre teatro. Elas contavam suas “histórias”. Histórias do teatro, histórias de vida. Como eu aprendi! Aprendi sobre o respeito, a disciplina e o amor ao teatro. Aprendi como aquela mulher forte e dita brava, era uma pessoa sensível, carinhosa, batalhadora, justa e exigente. Mas não a exigente que atrapalha, que cria problemas desnecessários, como tantos outros que peguei pela frente. Ela queria que tudo estivesse acontecendo de maneira que a peça fosse a personagem principal. Queria todos felizes e com o melhor desempenho. Ela só queria o bom teatro. E que atriz!

 

A peça foi um grande sucesso. Ficamos em São Paulo por oito meses com casa lotada. Fomos para o Rio para mais quatro meses de sucesso. Viajamos por algumas capitais e, depois de quase dois anos, Myrian teve que fazer outra novela e a peça daria um tempo com a possibilidade de voltar. Como trabalhavam essas duas senhoras!

 

Myrian faleceu no meio da novela; foi chamada para outros palcos. Passado algum tempo, resolvemos remontar a peça. Convidamos outra grande atriz, Nicete Bruno, que prontamente topou. É, eu comecei bem cercado! Ter em sua terceira montagem, três atrizes como Beatriz, Myrian e Nicete foi, realmente, uma sorte e um aprendizado muito grandes.

 

Isso tudo, há dez anos, e esse furacão, chamado Beatriz Segall, ainda segue trabalhando, seja nos palcos, no cinema ou TV.

 

Outro dia fui assistir à sua nova peça “Conversando com Mamãe”, teatro lotado, ela brilhando, fazendo rir, fazendo chorar. Confesso um pouco de ciúmes, nostalgia daqueles dias tão divertidos e prazerosos. Lembrei-me dela brincando com minha filha, que mal andava e ficou tão louca com aquela mulher se maquiando, ficando linda, que, quando entrou no palco, ela gritou – “Olha a tia Beatriz!”. Tudo bem, que depois Julia também falou – “Essa história está chata! Não tem bruxa nessa peça?”. Tinha sim, ela que não percebeu, ali tinha uma bruxa que transforma papéis em ouro. Quando Beatriz entra em cena, os deuses dessa arte sorriem!

 

Merda, minha querida!

 

 

Alexandre Reinecke é diretor teatral

 

Veja o verbete de Beatriz Segall na Teatropédia.

 

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