Bando de Bufões

Publicado em: 20/10/2010

Entre berros e alvoroço, na ensolarada quarta-feira (20), o corredor da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco foi invadido por um bando de bufões, interpretados pelos aprendizes do curso de Humor. Foi um grande desfile grotesco onde os modelos exibiam, aos grunhidos, suas pernas ausentes, braços a menos, barrigas salientes, enormes cabeças, entre outras deformidades de assustar.

A proposta para essa transformação foi da formadora Dani Biancardi. “Esse exercício faz parte do Componente de pesquisa do Módulo Amarelo. Serve para o aluno pesquisar o humor através de seu corpo. O bufão é um corpo épico, uma forma narrativa e casou com o exercício do Experimento, pois é material de pesquisa e fenômeno interessante para todos os grupos”, afirma.

A sugestão para esta prática não era fazer uma roupa e sim um adorno, como uma extensão do corpo do ator, com o objetivo de se reconhecer a forma humana no bufão.

Os aprendizes se utilizaram de manta acrílica, elanca, malha, enchimentos de almofadas e muita fita crepe e alfinetes para a construção dessas personagens. Todos os tecidos eram brancos, em uma inspiração aos princípios de Jacques Lecoq, um dos mais importantes pedagogos de teatro do século XX.

Jacques Lecoq ficou famoso por seus métodos de teatro físico, movimento e mímica que ensinava na L’École Internationale de Théâtre Jacques Lecoq, escola que fundou, em Paris, e que dirigiu de 1956 até sua morte em 1999.

 

O método do artista interroga e desenvolve as bases de um teatro físico. A sua pedagogia privilegia a tomada de consciência das tendências pessoais do ator, de forma a proporcionar a descoberta de linguagem artística própria e dá grande amplitude e peso no processo de descobrimento do palhaço pessoal do ator a partir da exposição da sua fragilidade.

 

A L’École Internationale de Théâtre Jacques Lecoq formou gerações de alunos, influenciou a prática artística de grupos teatrais desde a década de 60 e disseminou a técnica do palhaço. Entre seus principais alunos estavam Cal McCristal, Jos Houben, Philip Martz, Bernie Collins, Eisenberg Avner, Luis Otávio Burnier, Ricardo Puccetti, Carlos Simioni e Philippe Gaulier.

 

Para explicar o nascimento dos bufões na França, Philippe Gaulier, um dos pupilos de Lecoq, se refere a uma alegoria de pessoas consideradas feias durante a Renascença. Assim, os bufões são uma espécie de clown invertido que balança entre o grotesco e o charme, inspirados em pessoas excessivamente feias, leprosos e aqueles com cicatrizes desfigurantes ou deformidades. O objetivo dos bufões é insultar e enojar as “pessoas bonitas” o máximo possível, atacando o setor dominante da sociedade como o Governo, a Igreja e os costumes burgueses.

Durante a prática do exercício, o aprendiz Pedro Petra Monticelli ressalta que o bufão pode ser pensando em três categorias: o fantástico, o mistério e o grotesco. “Chamamos os bufões de criaturas, pois ele é o que mais se assemelha ao ser humano. São criaturas que zombam de tudo.”

Ao final da atividade, Raul Barretto, coordenador do curso de Humor brinca: “Achei ótimo, alguns aprendizes ficaram bem melhores assim”.