Ary Fontoura por Rogério Menezes

Publicado em: 08/08/2013

Apresentação do livro “Ary Fontoura – entre Rios e Janeiros”, de Rogério Menezes para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, lançado em 2006 (para ler a obra, na íntegra, clique aqui)

Ary Fontoura pareceu-me, à primeira vista, ou melhor, ao primeiro telefonema, a mais completa tradução humana do “tempo” de Cazuza. O que significava que pertencia àquela categoria de pessoas que não param nunca. Logo nos primeiros contatos telefônicos, percebi: teria que pegar o personagem-tema deste livro, um dos mais profícuos atores brasileiros, a unha. No laço. Entre o ator e mim parecia haver, além dos 1.160 quilômetros que separam Brasília e Rio de Janeiro, empecilhos aparentemente intransponíveis.

Coisas assim:
1) Viagem de três semanas a Portugal, para gravações de “O sítio do picapau amarelo”.
2) Dificuldades de agendamento ocasionadas por horário incerto dos dias de gravação na Globo – aos 73 anos, trabalha desde os oito, Ary Fontoura está em plena atividade, a milhares de léguas de distância de eventual aposentadoria.
3) Tinha a impressão, não sei se totalmente descabida, de que havia por parte do ator certa dúvida sobre valer ou não a pena reservar alguns dias para as conversas que resultariam neste livro.
4) Outra impressão: a de que pergunta o perseguia (as conversas com este jornalista/escritor não seriam tremenda perda de tempo?)
 
Mas perseverei e fui recompensado. Coisas assim caídas por terra, pura paranoia, admito, agendei as entrevistas para a terceira semana de julho e voei para o Rio de Janeiro. Mais paranoia (achei que o ator cancelaria o encontro na última hora): liguei na véspera da viagem, ainda em Brasília; liguei no dia da primeira entrevista, já no Rio. Checava se estava tudo ok. Estava tudo ok (“Minha casa é em frente à Praia da Macumba. Vai ser fácil achar!”, garantiu-me o ator). Então, às três da tarde de segunda-feira em que tempestade bíblica se abatia sobre a zona sul carioca, adentrei táxi que me levaria até o final do Recreio dos Bandeirantes, onde, bucolicamente, mora Ary Fontoura (com a empregada Nilza, o papagaio Beethoven e os poodles João, Júnior e Rita).

Uma hora depois (atrasaram a viagem, o trânsito confuso e o motorista idem, que achava a Praia da Macumba, mas nunca encontrava o condomínio fechado onde se localiza a casa do ator), sento-me à frente de homem simpático, mas desconfiado (numa prova cabal de que paranaenses, não só mineiros, são seres basicamente desconfiados). A conversa demora a pegar: o entrevistador não acha as perguntas certas; o entrevistado parece acuado, responde tudo com certa displicência. Mesmo assim, vou em frente. Com certa experiência no jornalismo, sei que entrevistas inicialmente empacadas podem, de repente, se transformar, com perseverança e determinação, em belos depoimentos.

Aos poucos, melhoro minha performance inquisitória, pergunto coisas menos óbvias, cerco o entrevistado com perguntas mais pertinentes. Reflexo dessa virada: o ator se abre aos poucos, não tanto quanto gostaria. Continua a parecer que não gosta do assunto sobre o qual estava falando (o começo de tudo em Curitiba, sua cidade natal), a parecer querer se livrar daquele assunto o mais rapidamente possível.

Essa entrevista que demorava a pegar é interrompida exatamente às seis da tarde: Nilza, simpaticíssima baiana de Belmonte, que trabalha com Ary Fontoura há mais de trinta anos, nos convida para lauto café. À base de bolo de laranja, queijo branco e presunto, ovos cozidos, manteiga e diversos tipos de pães. No melhor estilo conquista-visita que as famílias de minha infância no interior da Bahia (e certamente também da infância de Nilza) tão bem cultuavam. A farta refeição ajuda a quebrar o gelo entre entrevistado e entrevistador.

Fala-se então de amenidades. O ator revela: está doido para encontrar texto teatral que o apaixone e que o leve de volta ao teatro; fala em monólogo, o que teme muito, ainda mais que pensa em monólogo dramático, pesado, consistente, que teme ainda mais porque poderá assustar o público que estaria sempre à procura de algo mais leve hoje em dia.
 
O jornalista-escritor dá palpite: acha que monólogo com essas características mais dramáticas e densas é boa ideia: chamaria a atenção da mídia, na medida em que o ator, fortemente vinculado ao gênero comédia, enveredaria por caminho nunca dantes navegado, ou, melhor, não tão navegado assim.

Na segunda rodada de conversas, pós-lauto café, entrevistador e entrevistado parecem menos bloqueados e a entrevista flui melhor. Não tão melhor assim: volto para casa com a sensação de que não havia encontrado o tom certo da prosa. Essa incerteza tem um reforço: o ator sugere que as entrevistas se encerrem no dia seguinte, numa sessão de conversas mais longa. O que reforçou a minha (àquela altura) tese de que o depoimento não estava sendo muito prazeroso para o depoente e de que estaria considerando tremenda perda de tempo aquelas conversas.

Verdade que a atitude gentilíssima do ator de (na tormenta bíblica que se abatia sobre o Rio de Janeiro naquela noite de julho) oferecer-me carona até o ponto de táxi mais próximo já que o serviço que, gentilmente de novo, havia chamado pelo telefone prometia só chegar em 40 minutos, acalenta-me bastante. Acalenta-me mais ainda, quando, táxi à porta da casa, abriga-me sobre guarda-chuva, leva-me até o carro e, com jeito de velho amigo, sorri e despede-se com simpático “até amanhã”!

Dia seguinte pela manhã, em telefonema para confirmar o horário exato das entrevistas desse dia, ouço comentário que não me anima: “Achei meu depoimento de ontem melodramático demais. Você não achou, não?” Talvez não concordasse com o “melodramático”, mas certamente esperava que a segunda longa rodada de conversas fosse mais, digamos, emocionante. Mas nada lhe digo a respeito. Fui firme (embora sem muita convicção), mas talvez meio vago: “Achei o depoimento ótimo. Aquelas coisas que você disse precisavam ser ditas”.

É no meio das conversas desse dia, quando se fala das aventuras e desventuras do ator depois de se mudar para o Rio de Janeiro, que decifro o enigma. O xis da questão parece-me então ululante: o pouco entusiasmo dos depoimentos do dia anterior, quando basicamente se evocaram as vivências do ator na cidade de Curitiba, onde morou até os 31 anos, é então substituído por entusiasmo e alegria nada flagrantes na conversa da véspera. Ou seja: para Ary Fontoura, falar sobre o Rio de Janeiro era muito bom; falar sobre Curitiba, nem tanto.

Resultado: nesse segundo dia a conversa flui tão generosamente e tão prodigamente, que nem percebemos que ficamos sete horas conversando, quase ininterruptamente. O “quase” ficou por conta da segunda rodada do lauto café servido pela baiana Nilza, britanicamente, às seis da tarde (a ascendência inglesa do ator parece ter modificado a certa falta de rigidez de horários que caracteriza a, digamos, baianidade). Histórias, memórias e sentimentos notáveis vão sendo resgatados e, mais bem, interpretados, como se o ator Ary Fontoura estivesse no palco, no pleno domínio do seu tempo de comédia, e eu fosse um único, e privilegiado, espectador.

Dono de memória acuradíssima, Ary Fontoura relembra momentos dramáticos e cômicos sem pudor. Detalhe curioso: o ator não se recusa a falar sobre nenhum tema. Mas o gravador não age da mesma maneira. Especificamente quando  o ator fala, com certa eloqüência, sobre o jeito nada místico de ser que lhe é peculiar. Tecia considerações algo céticas, até mesmo desdenhosas, sobre a máxima shakespeariana “há mais mistérios entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia”, quando a fita do gravador empaca. Nada fez com que se movimentasse de novo, embora outras fitas e pilhas fossem testadas. Só alguns minutos depois, quando a prosa toma outro rumo, o gravador volta a gravar normalmente. Eu, nem tão cético assim, prefiro repetir fala de personagem de novela: “Mistérios…” Ary Fontoura, nem tão esotérico assim, não vê nisso nada demais, apenas franze as sobrancelhas. Enfim…

Mesmo com gravador empacando e tudo o mais, são horas de prazerosíssima prosa que procuro registrar fielmente nas páginas a seguir. Tão prazerosa que me fez rever (e reavaliar) a primeira rodada de conversas. Ao ouvir de novo, em Brasília, as gravações dessas entrevistas do primeiro dia, percebi: as revelações ali feitas podem não ser tão lúdicas e efusivas quanto as que o ator vivenciou a partir do momento em que se mudou para o Rio de Janeiro. Mas ajuda a esclarecer a genealogia do ator, a maneira como o ator foi se edificando a partir do barro moralista e conservador da pacata Curitiba dos anos 40, 50 e 60. Nas palavras de Ary Fontoura, foi ali que aprendeu a “fingir”, tijolo básico, alicerce vital, na gênese de um grande (e mentiroso) ator. Foi só então que percebi também nessas conversas A.R. (antes do Rio), a grandeza do episódio do encontro do menino Ary com o “outro”, com o que não era espelho, na pequeníssima, mas fundamental, Entre Rios. Enfim, se faltou efusividade, sobrou profundidade.

Ao juntar-se o depoimento algo sorumbático do primeiro dia com o depoimento algo efusivo do segundo dia, se junta também o Ary Fontoura, lunar e desconfiado, com o Ary Fontoura, solar e confiante. Nessa junção, este livro-depoimento procura desvendar o ator como ele de fato o é: o somatório de duas cidades absolutamente diversas, mas igualmente fundamentais na gênese do ator. Uma Curitiba o esculpiu; a outra, o Rio de Janeiro, o explodiu. Mas não podemos esquecer a pequena Entre Rios, no interior do Paraná: foi ali onde a iluminação se deu, onde o ator se fez carne.

Ao final da fase carioca das entrevistas, é um Ary Fontoura totalmente solar que se revela aos olhos deste jornalista-escritor. Após sete horas de entrevistas, ainda tem fôlego para listar de memória todas as quase 40 peças em que atuou no Rio de Janeiro. Ato falho, não se lembra apenas de uma, a que considera ter sido o seu fracasso teatral mais retumbante. Liga então para o ator José Augusto Branco, com quem atuou nesse espetáculo, em Maricá, interior do Estado do Rio, apenas para apurar essa informação.

Informação apurada (a peça justissimamente esquecida chamava-se “Secretíssimo”), Ary Fontoura ainda tem fôlego para:
a) Lembrar histórias engraçadas que viveu no teatro (o que me obriga a novamente ligar o gravador, agora funcionando normalmente, para registrá-las).
b) Falar com orgulho sobre os quatro mil CDs que tem em casa (“tudo em ordem alfabética!”).
c) Botar para tocar o único disco que gravou na vida, e, como o leitor poderá perceber nas páginas a seguir, um dos mais diletos companheiros do ator por toda a vida; nele, duas canções compostas pelo ator, sim, Ary Fontoura também compôs músicas: “Viela iluminada” e “Nega de maloca”.
d) A revelar um bom humor cabalmente envolvente, que no dia anterior nem desconfiei existir naquele homem.

Meia hora depois, quando finalmente chega o táxi que me levaria embora (motivo do atraso: a chuva torrencial que continuava a cair sobre o Rio de Janeiro), Ary Fontoura, a essa altura figura tão familiar que parecia ser um parente próximo que conhecia há décadas, me leva até o carro, sob a proteção de amplo guarda-chuva. Ao me despedir, sugere: “Quando vier ao Rio de Janeiro, não deixe de vir tomar um café conosco aqui em casa!” Nilza, que também me acompanhou, sob uma colorida sombrinha, reforça: “Venha mesmo!”

Conclusão: pela prosa e pelo café, o convite é tentador.