Arte sem o limite da diferença

Publicado em: 14/08/2013

por Maurício Paroni de Castro, especial para o portal da SP escola de Teatro

O “Arte sem limites: trabalhando com públicos e artistas com deficiência” nos trouxe a presença de Barbara Lisicki, Jhinuk Sarkar e Zoe Partington-Solinger, da Shape Arts, organização empenhada em fazer pessoas com deficiência participarem plenamente no setor cultural das artes; fornecer habilidades, oportunidades e apoio para artistas com deficiência; ajudar a construir um setor cultural mais abrangente. Objetiva a prática estética de alta qualidade de artistas com deficiência e o crescimento destes entre o público de artes, além de batalhar pela maior participação de pessoas com deficiência a participar de atividades artísticas. O grupo trouxe o tema da discussão que se iniciou na Sede Roosevelt da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, na segunda-feira (5). O debate seguiu para o MAM (Museu de Arte Moderna), durante toda a quinta-feira (8).

O começo da conversa, aqui na Escola, foi sobre como relevar e neutralizar com eficiência  barreiras arquitetônicas e psicológicas; como reduzir preconceitos a partir da reelaborarão de uma linguagem e terminologia adequadas (sem esbarrar no clichê do “politicamente correto”); quando a mediadora e tradutora do encontro abriu as discussões, logo foi questionado o termo portadores de necessidades especiais. Quais necessidades “especiais?”. Isso remete a “portadores de problemas”… não os temos, seja enquanto artistas, seja enquanto seres humanos. Tal termo enseja uma convivência inconveniente a uma determinada ordem. O que há é simplesmente uma deficiência que pode ser suprida e – fundamental – transformada em riqueza e criatividade através da participação do deficiente no mecanismo de produção artística. Raul Teixeira, coordenador do curso de Sonoplastia da SP Escola de Teatro, corroborou a assertiva ao narrar a enorme contribuição técnica e criativa que um aprendiz deficiente visual trouxe durante toda a extensão de seu curso.

Gustavo Minghetti, um dos consultores tecnológicos do prédio da Sede Roosevelt, narrou alguns problemas na adaptação e acessibilidade do edifício. Interveio Zoe Partington: “A lógica é simples: nas construções recentes, não haveria necessidade de adaptação se houvesse participação efetiva de um deficiente qualificado já no projeto, que naturalmente leva a construção a ser pensada como acessível a todos. Todos em igualdade de condições”, declarou. O termo igualdade, aliás, pode ser melhor definido com equidade, pois inclui a necessária diferença entre os atores da vida social.

Durante a semana, uma lógica puxou outra: a participação efetiva de deficientes, as diminuições das barreiras sociais, financeiras, filosóficas,  a implantação de uma pedagogia que mantenha a hierarquia, mas torne o aprendizado um diálogo formador que distribua um conhecimento além da imposição inquestionada de padrões estéticos e ideológicos.

Cléo De Páris ressaltou o fato de a Escola ser o único lugar a empregar transexuais em funções pontuais da vida social e a criação  do projeto Kairos, que nasceu da utopia de dar condições de aprendizado  iguais para todos.

Já no debate realizado no MAM-SP, o  diretor executivo da Escola, Ivam Cabral, lembrou-se do seu sonho de participação pluralista quando pensaram pela primeira vez a Escola.  O espaço dos Satyros, vetor inicial da recuperação urbana da Praça Roosevelt,  foi sede de um lançamento editorial de Gilberto Dimenstein. A frequência de moradores do Jardim Pantanal chamou atenção do então prefeito de São Paulo, José Serra, na ocasião ali presente;  foi a fagulha que iniciou a criação da SP Escola de Teatro, hoje o mais plural  centro de formação teatral da América Latina.

A intervenção de Daina Leyton, diretora do MAM precedeu  a do artista plástico  Rogério Ratão e do bailarino e coreógrafo Marcos Abranches, que contaram suas trajetórias artísticas e existenciais. Demonstraram que há mais questões existentes que soluções encontradas; há, sim, ignorância e preconceito em níveis inaceitáveis no Brasil.

Os representantes da Shape Arts e do setor artístico do Conselho Britânico atuaram, enfim, como portadores de utopia: muito mencionou-se as Olimpíadas de 2016, no Rio.

Permito-me uma digressão, entretanto: ocorreu com o famoso quarto plinto da Trafalgar Square, a praça mais importante do Reino Unido. Naquele pedestal secularmente vago, determinou-se mudar a estátua periodicamente. A primeira a ser colocada ali era de Alison Lapper, mulher focomélica pela talidomida, nua e grávida. A obra, do britânico Marc Quinn, revirou um paradigma social a partir da estética: a estátua de uma mulher bela, sensual, fértil e… deficiente física.

Se o maior dilema  da arte contemporânea é a perda do poder de síntese comunicativa com o grande público, a equiparação do anonimato à galeria de heróis como Lord Nelson, diante da National Gallery, tem imenso poder. É agente transformador de mentalidade, feito muito mais difícil que mudar ideologia.

A presença de um olhar particular com o qual passamos a dialogar é a riqueza do “Arte sem limites”, projeto que também se desenvolve naquela escola de teatro onde se procura uma igualdade criativa na diferença: a SP Escola de Teatro.

*Maurício Paroni de Castro é coordenador projeto “Chá e Cadernos”, na SP Escola de Teatro