Aracy Balabanian por Tania Carvalho

Publicado em: 13/06/2013

*Apresentação do livro “Aracy Balabanian – Nunca Fui Anjo”, da Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, lançado em 2005 (para ler a obra, na íntegra, clique aqui)

Aracy é uma pessoa muito especial. Daquelas amigas mãezonas, que dão conselhos precisos, quando o assunto é dor de amor ou estética. Depois dos 40 anos, não dá para sair na rua de cabelos molhados. O que era descontração na juventude, vira desleixo na maturidade, por exemplo. Sem nunca ter tido filhos, ela foi mãe de vários amigos, colegas de trabalho e sobrinhos. Hoje, continua exercendo fortemente esse lado com a afilhada Antônia, que tem apenas 2 anos e sobre quem ela fala sem parar e possui retratos pelos quatro cantos da casa.

Ela teve mãe de sobra – “mãe para mim é genérico” – pois além de Dona Esther, ela foi criada por suas quatro irmãs. “Eram elas que iam ao colégio, discutiam com os professores e, mais tarde, até com meu analista”. Por isso, talvez, seja tão generosa com quem a cerca. Gosta de mimar e de ser mimada. Alguns dos irmãos – eram seis, juntando os dois lados e contando os dois homens –  apoiaram a sua escolha em ser atriz, ainda muito menina, com 12 anos. Outros, nem tanto. Mas seu desejo era tão forte que venceu a oposição até de Seu Raphael, o mascate armênio, que se instalou em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, com quatro filhos; casou-se novamente com uma jovem armênia que havia ficado viúva com um filho e com ela teve a caçula, se não a predileta, a que ficou até o fim do lado dos pais. E, logo, esta resolveu ser atriz! A resistência foi muita, até ver Aracy ao lado de Sérgio Cardoso, e perceber que a filhinha havia chegado a um patamar, como atriz, de onde não dava para voltar. E para comemorar fazia pratos armênios para o famoso ator, dentre eles, o preferido de Sérgio: arroz com lentilhas.

Aracy se autodefine como faladeira. E foi assim desde criança. “Quando fiz uma peça com a Glória Menezes, havia uma disputa de quem falava mais”. Por isso, não foi difícil fazer este livro. Os assuntos nem sempre eram encadeados: Aracy pode ir de uma sessão de análise à discussão sobre a sua virgindade quando estreou no teatro, em uma fração de segundos. Mas isso não tem a menor importância. Tudo o que ela conta é engraçado, emocionado e sempre marcado por comentários inteligentes e intensos. “Tenho a maior vocação para heroína trágica”, ironiza, não se levando a sério, o que faz frequentemente.

Nossas entrevistas foram feitas semanalmente em seu belo apartamento de cobertura na Gávea. Como boa anfitriã, no primeiro dia fez questão de mostrar toda a casa, que ainda curte como um brinquedo novo. Seu cantinho especial, porém, é um pequeno quarto, destinado a um sobrinho que afinal não veio morar com ela. Lá, estão a sua chaise longue predileta, uma televisão, várias fotografias, muitos livros e uma bela montagem com fotos de um de seus espetáculos: “Clarice Lispector – Coração Selvagem”.

Durante a conversa, Aracy mudava sempre de posição. Como em uma sessão de análise – em que, aliás, sempre se recusa a deitar no divã – ela preferia, muitas vezes, em vez de se recostar na chaise, sentar-se para ficar cara a cara comigo. E a analogia com a terapia não é gratuita: Aracy faz análise segundas e quartas. Nossas rodadas de entrevistas aconteciam sempre às terças. “Estou sentindo como se estivesse fazendo análise três vezes por semana. O que converso aqui, vai para o consultório; o que discuto lá, vai acabar no livro”.

O título talvez surpreenda. Nunca Fui Anjo, porém, foi aprovado com uma enorme gargalhada pela atriz. Talvez porque tenha convivido por tantos anos com vários rótulos: combinadinha, virgenzinha, burguesinha, boazinha, entre tantos outros. Tirando o combinadinha – “eu adoro um conjunto, tenho o de sair, o de ir a enterro, o de ir a estreia e estou sempre arrumada” – quem ler o livro vai ter certeza de que Aracy simplesmente pagou o preço de levar uma vida discreta, o que nos tempos de hoje, quando se namora, se casa e se separa nas páginas das revistas, soa meio anacrônico. Mas essa foi a sua opção, sem que ninguém soubesse de suas dores e amores.

Em um momento, porém, a tragédia foi tão grande, que não deu para Aracy ocultar. Um incêndio destruiu a sua casa e tudo o que tinha. Sobraram os amigos. Muitos amigos, a quem ela faz questão de creditar o fato de ter renascido, como uma fênix – Eterna Fênix era a outra opção para título – mais forte e mais destemida. É esta Aracy, que descobriu ser capaz de começar tudo outra vez, que aparece nas páginas deste livro.

Ainda que não tenha sido anjo – em todos os sentidos, descubra – Aracy é, sem dúvida, uma das atrizes mais importantes no teatro e na TV brasileira. Alguém que acreditou em um sonho praticamente impossível. Que largou uma faculdade para se dedicar somente à Escola de Arte Dramática, onde se formou com as melhores notas (“Eu e o Juca de Oliveira competíamos o tempo todo pela nota 10”) e sem nunca ter faltado a uma aula. Que transgrediu os parâmetros, ao se tornar a mocinha dos mais cobiçados galãs, “quando na verdade era para eu ser sempre a sofredora, que chorava porque o galã ficava com a mocinha linda”. Que na maturidade não teve medo algum de enfrentar o humor, tanto em um personagem inesquecível de novelas, como Dona Armênia, quanto no semanal humorístico “Sai de Baixo”, “que entrei sem saber o que fazer, só conseguia rir”. Com uma sinceridade desconcertante, Aracy fala de tudo isso e muito mais.

Em diversos momentos, Aracy se emocionou. Um capítulo inteiro, por exemplo, é dedicado a dois amigos muitos queridos e que já morreram: Ademar Guerra e Myriam Muniz. Aliás, a veterana atriz paulista morreu em dezembro de 2004, em meio às nossas conversas e Aracy fez questão de se declarar “de luto” e passar algumas horas falando dela. Depois de alguns goles de vinho, que serviram como relaxante e consolo, ela repetiu as histórias de Myriam, com intensa emoção, que a fizeram tremer. Mas nem sempre nossas conversas foram tristes. Ao contrário, Aracy é dona de um senso de humor insuperável, que faz com que ela nem se leve tão a sério assim, pois é capaz de análises cortantes, sobre o mundo e a respeito de si mesma, que nos fizeram dar boas gargalhadas.

Para ela, a minha homenagem!