Aquilo Que Não é Dito Pode Ser a Fala Mais Potente

Publicado em: 10/07/2012

Por Lucienne Guedes


Especial para o portal da SP Escola de Teatro


No texto a seguir, Lucienne Guedes, dramaturga, diretora e atriz, analisa o jogo de “esconde-esconde” da dramaturgia na cena teatral, durante o terceiro e último Experimento do Módulo Verde, no sábado (7), na sede Brás da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco.

 

Algumas peças de teatro são construídas para que o público preste muita atenção nos personagens. O ser humano é o centro da dramaturgia da cena. Quando isso acontece, como foi o caso dos experimentos do Módulo Verde na construção da cena, vale tanto o que o personagem fala quanto aquilo que ele não fala. Vale tanto aquilo que ele explicita quanto aquilo que esconde; e o que explicita pode estar em função daquilo que deseja esconder.

 

Experimento do núcleo 8 (Foto: Arquivo SP Escola de Teatro)

 

Atuação e dramaturgia são muito responsáveis pela dinâmica entre o expor e o esconder, embora essa seja uma provocação para todas as áreas do fazer teatral, das técnicas de palco à direção. 

 

Ganharam muito pelo que esconderam as personagens do experimento do grupo 7, por exemplo, deixando que entrevejamos a complexidade de um narrador entre o sofrer por um passado que não mais existe e o aceitar as mudanças do tempo, deixando que o público complete a teia de relações amorosas e profissionais sugeridas. No grupo 8, aos poucos, a relação entre contrabandista e seu chefe foi se esclarecendo. No grupo 3, a ausência de pai e mãe, em situações em que a família está destruída, revelou-se, por vezes, na delicadeza de ações incompletas, de gestos sugeridos, em informações que os personagens relutavam em dar ou mesmo se negavam a fazê-lo. 

 

Já no grupo 2, por sua vez, o silêncio da personagem travestida, sua dor feita de meias palavras, acabaram por enriquecer a cena e nos fazer imaginar desdobramentos possíveis e impossíveis, na qualidade de espectadores. O “esconde-esconde” do fazer teatral ganhou a cena do grupo 4, que escolheu por caminhos plásticos que mais sugeriram do que explicaram, como no momento em que fizeram uso da sombra. Já os atores do grupo 1, na situação ficcional de uma cozinha de fábrica, chegaram a explicitar o calar e o falar como constituição do próprio problema pelo qual optaram tratar. Os grupos 5 e 6 estabeleceram não delicadezas, mas um jogo impregnado na cena, também ele escondido em suas regras, provocando o espectador para que descobrisse novas chaves de percepção. 

 

Mais do que um valor a ser medido nas cenas, essa questão serve de estímulo aos grupos de trabalho. Para esgotar esse assunto, é preciso aprofundá-lo, sem dúvida (e aqui caberia também levar a questão para as semelhanças entre humor e atuação). Mas é possível cogitar que “a fala” possa vir de outros elementos que não só a palavra dita? Que mesmo ela possa estar a serviço da poesia e da sugestão, não só das explicações, confiando na capacidade do espectador em completar a cena com sua própria experiência? Enfim, pode haver interesse também naquilo que não é explícito?

 

 
 
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