Aprendizes em Foco – Por Gustavo G. Gonçalves, aprendiz do Curso de Humor

Publicado em: 09/08/2010

Humor = Raízes

 
Neste ano, após ver minha foto na página dos aprovados para o curso de Humor da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, pedi demissão e marquei na agenda com letra bem grande: ESTUDAR.
 
 
Quando me inscrevi para a Escola tive dúvidas sobre qual curso escolher, até pensei que, durante a minha vida inteira, o meu amor por cultura popular, circo e palhaços que era imenso. Eu já tinha escrito ou atuado no teatro e cinema usando a linguagem do palhaço, mesmo sendo um tanto quanto leigo.
 
 
Além do Curso de Humor, faço oficina de teatro de bonecos no programa Difusão Cultural da Escola. A dança e a percussão no Teatro Escola Brincante me trazem o universo da cultura popular, algo que procuro para minha bagagem artística.
 
 
Eu, que costumo acordar as seis e quinze da manhã para ir à SP Escola de Teatro, tenho acordado até antes. A causa? Ansiedade de trabalhar o palhaço.
 
 
– Você mora onde?             
– Campo Limpo.
– Quanto tempo de viagem?    
– Em média duas horas.
– Você se comprometeria a vir todos os dias de tão longe para fazer esse curso?
– Claro! Se meus pais fazem o mesmo para ir trabalhar eu também viria para estudar, investir em mim.
 
 
Este diálogo foi um dos fragmentos da entrevista que aconteceu na segunda fase de seleção do curso de Humor, feita por Napão, Bete Dorgam e Raul Barreto, analisando meus trabalhos relatados, minhas ambições e minha fisionomia. E ainda bem que a fisionomia não foi o grande mérito para a minha escolha…
 
 
Algo que ocupa grande parte do meu currículo e que assim como meu palhaço traz coisas boas e inocentes da infância é a Cia. Paidéia de Teatro, localizada em Santo Amaro, no Pátio dos Coledores de Cultura, antigo pátio dos coletores de lixo. Entrei no curso jovem de lá, antes de a companhia ocupar aquele espaço e me encantei com tudo, não era um curso que fornecia DRT, mas fornecerá para mim e para muitos a verdade: o jovem e a criança são cidadãos.
 
 
Não foi na escola que aprendi a ter uma leitura ativa, não foi na rua que aprendi a refletir sobre os outros seres humanos, foi ali, com a ferramenta do teatro e sendo tratado como gente grande, mesmo sendo “menor de idade”. Aquele lugar e seu entorno preencheram o espaço vazio que a juventude contemporânea faz questão de não preencher: o da responsabilidade, o da consciência de que somos cidadãos políticos, não na questão partidária, mas na de conceitos e atitudes.
 
 
Sendo um rato de teatro e tendo assistido a diversos espetáculos naquele lugar, eu sempre quis atuar e escrever, colocar ideias em prática, fiz isso na escola, procuro fazer isso para o resto da minha vida. Trabalhei como administrador em uma empresa pequena, fui indicado, recebia bem e seria promovido, receberia melhor ainda, mas não. Não era esse o meu desejo, o lugar era uma distribuidora de alimentos, algo bem distante de um escritório de teatro ou palco, resolvi me dar essa oportunidade e comecei a trabalhar como oficineiro em ONGs e lugares periféricos. Se um dia pensei, como muitas pessoas pensam, que sou o homem mais infeliz do mundo, com essa experiência obtive a certeza de que não era.
 
 
Entre jovens de classe média e de classe baixíssima, conheci alguns talentosos, outros muito menos felizes, que haviam sofrido de algum abuso ou tinham algum trauma, outros que já tinham passado pelo universo do uso constante de drogas buscavam sua recuperação e eu tinha que saber lidar com isso, inventar e buscar métodos pedagógicos, necessidade que nem todas as pessoas que dão aula pensam em atender.
 
 
Assim, como um pátio de lixo foi tranformado em pátio de cultura, acredito que os bairros como o meu podem mudar para melhor. Também é para essa gente, desse lugar, que faço teatro. Quero que minhas obras causem reflexão, que o livre arbítrio e a ética de cada um tragam a provocação para analisar qual o melhor caminho. Ainda não alcanço esse nível, mas busco.
 
 
Enviei vídeos amadores para a Melies – Escola de Cinema, 3D e Animação e estudei no ano passado durante todos os sábados, fiz parte do primeiro Núcleo de Dramaturgia do Sesi, ministrado por Marici Salomão, também coordenadora da SP Escola de Teatro, e, hoje, coloco um outro projeto de vida em prática: relatar o poeta Paulo Eiró, conhecido pelo teatro que tem seu nome, mas esquecido pelo tempo e por aqueles que querem abafar opiniões.
 
 
Eiró foi simplesmente o precursor de escritos abolicionistas e a favor do Brasil República, não Império. Parte de sua obra foi queimada por ele e pelo pai a mando de um padre da época, mas algumas poesias se salvaram e também uma peça teatral: “Sangue Limpo”, que fala exatamente sobre o preconceito racial.
 
 
Infelizmente, a vida do poeta, um tanto quanto romântica, foi cercada de pobreza e injustiças, a saúde não era das boas, teve que parar de estudar na Faculdade do Largo São Francisco por causa dela, e a mulher, que amava desde a infância, casou-se com outro. Ele não tinha dinheiro para conviver com os intelectuais do Rio de Janeiro, como Machado de Assis. Seus ideais o atrapalharam de certa forma, mas se não corresse atrás deles talvez não tivesse motivos para conviver com o que ele considerava injustiças.
 
 
É nesse poeta que encontro o meu público-alvo: os jovens, que são tão crianças e tão adultos ao mesmo tempo. Neste semestre, apresento-me nos CEUs da Zona Sul, com o Catraca do Riso, grupo amador para o qual dou oficina. Tenho dedicado minha dramaturgia para uma rádio-novela e agora escrevo um romance sobre esse tal poeta.
 
 
Acabo esse depoimento com um trecho da poesia deste jovem:
 
 
“ Em noites de vigília,
a Deus voltado fervoroso
ergui súplica secreta;
Nem ouro nem poder pedi,
somente coroas de poeta!”
 
 
 
Conheça o blog do Gustavo: http://gggustavo.wordpress.com/