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Apoio às Diferenças sem Apologia

Publicado em: 23/06/2011

“Minha trajetória não é muito diferente da de outras pessoas que vivem sem a hipocrisia de padrões impostos por uma sociedade medíocre e sem verdade por esse mundo afora.”

 

Esta é uma frase de Laura Prevato, uma mulher que enfrentou diversas dificuldades para ser aceita em uma sociedade intolerante quando se trata de diversidade. 

 

Que a vida é difícil para uma pessoa que assume uma sexualidade diferente da que nasceu, todo mundo sabe. E para Laura, não foi diferente. Aqui ela nos conta particularidades de uma vida repleta de repreensões.

 

Quando ainda criança, já sentia que não era como os outros. “Apresentava-me para as pessoas como menina e, por isso, era repreendida pelos adultos.” Aos poucos, foi percebendo que para as crianças podia revelar sua verdadeira identidade, pois, entre elas, não havia constrangimento.

 

Aos 13 anos, criou coragem e contou a sua mãe sobre sua sexualidade. No desespero, Izilda Rangel a levou a um psicólogo que, sem qualquer profissionalismo, não fez outra coisa a não ser frustrá-la. Ainda com todos os obstáculos existentes Laura não queria desistir de ser aceita.

 

No entanto, dois anos depois, a depressão se alojou em sua vida. Com a mente cercada de muitas cobranças e conflitos, a jovem confessou que perdeu até a vontade de viver. Com isso, veio o abandono dos estudos, por quase um ano, e a reclusão. “Meu point era o sofá da sala da minha casa.”

 

Com grande persistência, iniciou mais uma terapia com outra psicóloga, que, dessa vez, como ela mesma coloca “valeu a pena”. O acompanhamento profissional a ajudou a enxergar um lado da vida que ela já nem lembrava mais que existia. Laura começou a entender que a aceitação começa de dentro e que ela não era a vilã da história.  “Posso dizer que nasci de novo”, comenta. 

 

Na fase adulta, Laura já não se importava mais com o olhar do mundo sobre ela. A partir desse momento, encontrou forças para se firmar como a mulher que sempre foi e correr atrás do que objetivava: ser respeitada independente de sua sexualidade. 

 

Aos 22 anos, nesse novo período de autoaceitação, decidiu tomar hormônio. Precisou parar, todavia, quando iniciou o tratamento junto ao Centro de Referência e Treinamento (CRT) para poder, enfim, realizar a cirurgia de readequação sexual. Há quase um ano voltou com os hormônios e com acompanhamento psicológico e psiquiátrico pelo mesmo centro.

 

Contemplada com uma bolsa por ter trabalhado no Programa Escola da Família durante três anos, Laura fez faculdade de Letras na Universidade Paulista (Unip). No entanto, precisou trancar no último ano, não conseguindo, assim, se formar. Já deu aula de Redação na Educafro São Bento e em algumas outras escolas. Paralelamente, para complementar a renda mensal, vendia lingeries e cosméticos. 

 

Até chegar a SP Escola de Teatro foi muita luta e contestação. Por que deveria ser beneficiada com algum tipo de programa especial alguém que sempre morou com a família, teve seus estudos garantidos e nunca pensou em se prostituir? Dessa forma, Laura nunca recebeu benefício do Programa Operação Trabalho (POT), da Prefeitura de São Paulo, que oferece cursos profissionalizantes e um salário mínimo para se manter. 

 

Depois de muita procura, encontrou, enfim, uma vaga: trabalhar na recepção da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, uma Instituição do governo. Laura confessa que ficou muito aliviada quando foi efetivamente chamada para trabalhar aqui. “Isso me trouxe perspectivas diversas, um emprego com boa remuneração e, ainda por cima, a oportunidade de ser eu mesma. O que mais eu podia querer?”

 

Com relação a movimentos LGBTs, Laura explica que nunca foi muito participativa, por acreditar que o preconceito se estabelece, justamente, quando se cria uma divisão e uma forma de tratamento taxativa. “Mereço respeito por ser um ser humano e não por fazer parte de um movimento ou por ser transexual.”

 

 

 

Confira as outras matérias e sessões do Especial Semana da Diversidade SP Escola de Teatro: a entrevista com o escritor Carlos Hee; o Ponto sobre Oscar Wilde e sua obra “De Profundis”; e a história das recepcionistas Brenda e Flávia e da secretária Janaína. Também um texto de Raquel Rocha, o Indica com Célia Forte e a matéria sobre a Parada Gay.

 

 

*A entrevistada selecionou sua foto para o perfil.