Ambicioso, espetáculo “Capitu” não faz jus ao que se propõe

Publicado em: 07/12/2020

Por Isaque de Sousa, especial para a SP Escola de Teatro

Cia. Os Profanos tenta, sem sucesso, trazer à julgamento protagonista da literatura brasileira

Capitu é sem dúvidas uma das minhas personagens femininas preferidas. Enigmática, dicotômica, ela é tudo o que eu amo sobre um ser ficcional. Quando vi que entre as sugestões para nós, participantes da oficina ‘olhares: poéticas críticas digitais, havia um espetáculo sobre ela, não titubeei e escolhi. Estava muito interessado em ver o espetáculo realizado pela Cia. de Teatro Os Profanos. Além do chamariz de ser uma obra sobre a protagonista de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, também havia o fato de ser uma peça interativa, ou seja, com a participação do público.

Na trama desta apresentação, Bentinho, o Dom Casmurro, está processando Capitu por traição. Com o caso indo parar no tribunal, o público é o júri, que deverá decidir a sentença da musa da literatura brasileira. Apesar da premissa interessante, que coloca a clássica personagem de mais de 100 anos em acareação, a peça não tem sucesso em suas propostas, desde a interatividade até a construção de seu clímax. Por isso, elenco abaixo 5 motivos que fazem de Capitu um espetáculo pretensioso e torna a experiência do espectador decepcionante. Há spoilers.

Introdução tediosa: Marcada para começar às 16h, o espetáculo só se iniciou, definitivamente, depois das 16h15. Não por problemas técnicos, que seriam compreensíveis, mas sim pela escolha de realizar uma introdução desnecessária. Assim que a sessão no Zoom começou, um membro da Cia. de Teatro Os Profanos entrou, dando as boas-vindas. Legal. Mas não tardou muito e o rapaz começou a falar sobre a Cia e o modus operandi de suas produções. O que era cordialidade acabou se tornando uma verborragia incessante.

Após essa introdução da produção do espetáculo, foi liberado um formulário para o público, pedindo para que escolhêssemos uma das duas formas do espetáculo começar: o modo atemporal ou o rústico. Pelas palavras, é até possível deduzir o que, talvez, cada um signifique. Mas ao ser questionado por um membro da plateia virtual sobre o que seriam, o anfitrião não soube responder. Após a explicação da Cia. e o formulário, ainda se seguiram as orientações sobre a configuração do Zoom. Necessárias? Com certeza. Mas igualmente prolixas.

Roteiro Frankenstein: No início, é anunciado que a peça é livremente inspirada em “Dom Casmurro”, sem o compromisso de seguir o livro à risca. Achei ótimo. Era a chance de ver uma adaptação independente. Mas não bastou muito para verificar que a peça se perdia em seu próprio roteiro. Na trama, todos estão vivos (até mesmo o autor da obra, Machado de Assis), inclusive Escobar. Quem leu o livro sabe bem a importância da morte dele para a trama da personagem que nomeia Capitu. Também está vivo Ezequiel, filho dela com Bentinho.

Tratando-se de uma adaptação livre, é compreensível que mudanças sejam realizadas. O problema de tudo é a condução da narrativa. Escobar insere-se na trama sem nenhum aviso – assim como a presença de Ezequiel, que tampouco serve para dar gás na história. Desnecessários, os dois personagens precisavam de maior sustentação para continuarem vivos. Nesse sentido, eu permaneço com Machado: Escobar e Ezequiel mortos, são ótimos.

Tribunal e interação: Não estava esperando que Capitu fosse uma peça típica de tribunal, ainda que fosse ambientada em um. Mas esperava, ao menos, organização. Os atores, afobados, atropelavam suas falas com as dos demais, criando uma confusão sonora. Houve um momento em que uma espectadora escreveu no chat do Zoom: “Gente, não aguento mais esse embate promotor x advogado”. A interação prometida na sinopse, aconteceu apenas no começo e no fim do espetáculo, quando outro formulário foi mandando para assinalar. A construção de uma obra interativa pode ser resumida à respostas no Google Forms? Há muitos problemas nisso. Algumas pessoas não conseguiam abrir o formulário, portanto, pediam ajuda no chat. Cabe apontar que sempre havia alguém da produção para orientar – mas, nessa tramitação toda, acredito ser impossível não se desligar da peça. A experiência é afetada.

Atuação: Os personagens desta adaptação livre têm características, sejam físicas ou psicológicas, bem particulares. O que não é, em si, um problema. Mas por conta da atuação dos intérpretes, com falas afobadas e desorganizadas, vira um imbróglio. Transitando entre a comédia e o drama, os atores se apoiam em caras e bocas para expressar suas intenções, não dando ênfase ao texto. Assim, tudo parecia falso, forçado.

Indiferença: É decepcionante acompanhar uma peça desinteressado em sua resolução. Frente aos problemas do roteiro, interpretações frágeis e uma promessa não-concretizada de interação, pouco me importava qual seria o destino de Capitu. Tudo o que eu queria era sair daquele marasmo cacofônico. Não fui o único. Durante a peça, uma das participantes pediu para sair – sem saber como, ligou seu áudio, interrompeu a encenação e pediu para ser retirada. Atordoada estava, assim como eu.

Desse modo, é difícil considerar Capitu, da Cia. Os Profanos, uma adaptação exitosa da obra de Machado de Assis.. Em certo sentido, a peça poderia ser sobre qualquer mulher. Não há regozijo na possibilidade de finalmente julgar uma personagem que é motivo de discussão há mais de um século. Que pena.

* Isaque Sousa é participante da oficina olhares: poéticas críticas digitais, oferecida pela SP Escola de Teatro e ministrada pelo crítico Amilton de Azevedo, que supervisiona a produção e edita o material resultante.




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