Afinal, o Teatro Está Mofando?

Publicado em: 22/03/2011

Há seis anos, Rodolfo García Vázquez, coordenador do curso de Direção da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, se utilizou de um episódio ocorrido em uma pequena cidade alemã para refletir sobre a definição do que é ou não é arte, além de indagar sobre para onde o teatro está indo.

Leia, abaixo, o texto retirado do blog “De Olhos Sempre Abertos”, de Vázquez.

AFINAL, O TEATRO ESTÁ MOFANDO?

Uma rua na região central da cidade. Jovens espalhados por ambos os lados da calçada. Um carro grande se aproxima da aglomeração e freia bruscamente. Jovens rodeiam o carro, e munidos de marretas, picaretas e serras elétricas começam a depredar o automóvel. A multidão vai ao delírio. A apoteose acontece quando um dos jovens, cabelo moicano, se aproxima com gasolina e um fósforo e incendeia o veículo diante da plateia extasiada.

Esta cena poderia ser incluída em qualquer blockbuster americano, tendo o governador Schwarzzenegger ou Vin Diesel como protagonista. Mas em Jena, cidade alemã, a performance causou uma grande polêmica. O organizador do evento foi um pastor progressista que administra uma casa de cultura dedicada aos jovens punks, drogados e alcoólatras. A performance foi organizada por ele para o encerramento de uma semana de cultura jovem. Os órgãos públicos consideraram a ação não como uma forma de manifestação artística, mas apenas como incitadora da violência. Todos os subsídios dedicados à casa foram suspensos. A polêmica, no entanto, não parou por aí. Vários críticos alemães foram convidados a debater o caso, em artigos intermináveis na imprensa local. O que é arte? Quem define o que é arte?

Duchamp e sua roda, Duchamp e sua gravata, Duchamp e seu urinol.

Duchamp dizia, há cem anos: “Quem decide o que é arte é o artista!”.

Interessante observar que a cena “censurada” repete-se à exaustão na indústria do cinema americano, com formas ainda mais violentas. O jogo de desrepressão/repressão que a indústria cultural propõe é executado à perfeição e rende lucros fantásticos. No entanto, um grupo de punks retomando a ideia e pervertendo sua intenção original de manipulação, é acusado de não fazer arte. Talvez, simplesmente, por que nenhum produtor de cinema americano ainda não os tenha conhecido.

O poder transgressivo da arte é o meio.

Do outro lado do oceano, numa leitura dramática, um dramaturgo jovem é confrontado com as opiniões do público que acaba de assistir à leitura de seu texto. Um dramaturgo, sentado na plateia, do alto de seus 30 anos de teatro, pede a palavra e diz o seguinte: “Isto não pode ser teatro. Isto não é teatro”.

Os vanguardistas de 100 anos atrás parecem nossos avós e quadros “obscenos” de Picasso, Brique e outros grandes revolucionários estão pendurados por aí nas paredes de grandes corporações. Tchecov, o autor incompreendido, tornou-se nosso modelo para o bom teatro burguês. Adorno, o maior pensador da estética na modernidade, elevara a categoria do “novo” a princípio fundamental da experiência artística no capitalismo tardio. Mas o fato é que esta categoria exauriu-se e agora observamos indiferentes o vazio que se segue a ela. Essa é a condição que nos cerca. E muitos dizem que ainda vivemos sob a égide da modernidade…

O fato é que estamos vivendo o refluxo do boom da modernidade, naquilo que alguns chamam o vazio da arte. O fim da história de Fukuyama coincide com o fim da arte.

Mas sempre vai haver uma alternativa para o teatro. E quanto mais premente for o princípio de realidade, mais necessidade teremos de quebrar esse paradigma e procurar, através do teatro, expressar os dilemas mais dilacerantes da condição humana.

O teatro não é isto ou aquilo.

Ele vai assumir as mais variadas formas, à medida que ainda estivermos vivos e sonhando com uma utopia.

O teatro pode ser muitas coisas, todas as coisas. O teatro pode, inclusive, tomar formas extremamente tradicionalistas, rígidas e limitadoras, e a popularidade do Kabuki e do Nô japoneses são provas disso. O teatro pode ser mal feito, bem feito, sem dinheiro, com dinheiro. A verdade da experiência teatral resiste a tudo, inclusive ao nosso olhar crítico. E parodiando o Jarbas Capusso, autor do texto vencedor do Concurso Nacional de Dramaturgia “A Noite que Blanche Dubois …”, fica a pergunta: “Pode o teatro mofar?”

Para ler outros textos de Rodolfo García Vázquez acesse http://olhossempreabertos.zip.net/