Ademar Guerra por Oswaldo Mendes

Publicado em: 27/03/2012

Não por acaso dei à sua biografia o título “Ademar Guerra – O Teatro de um Homem Só”. Ademar (1933-1993) viveu cercado de amigos, mas absoluta e deliberadamente só, coerente consigo mesmo e fiel às convicções que firmou sobre o objeto de sua paixão e a sua razão de vida, o teatro. Não que o teatro fosse mais importante que a vida. Mas em nome de uma vida mais radiosa, de ego entorpecido pela vaidade, pela glória e pelo conforto, ele jamais colocou o teatro como artigo de troca.

 

Por isso, houve um tempo em que se dizia que ele não queria mais fazer teatro. Não. O que não queria era fazer – e não fez – um teatro em descompasso com as suas próprias ideias. Daí que, apesar de no início da carreira tenha criado uma companhia com Antunes Filho e Armando Bogus, o Teatro da Esquina, que se dissolveu após o primeiro espetáculo (“A Megera Domada”, dirigida por Antunes), jamais se ligaria a uma companhia permanente, nem a grupos ou partidos políticos.

 

Embora tenha sempre se colocado na contramão das tendências dominantes e mesmo sem nunca se declarar discípulo de Brecht, aproximou-se como poucos de tudo o que o poeta alemão pensou sobre o teatro e a função da arte. Ademar não escreveu teses, ensaios, artigos. Sua cultura admirável, ele não a usou para enganar, entorpecer e justificar-se em discursos teóricos que disfarçassem eventuais equívocos.

 

Dedicado apenas ao fazer teatral e ao exercício da solidariedade, criou espetáculos formalmente dos mais belos e vigorosamente políticos, sem fazer disso bandeira e nem reivindicar outro reconhecimento que não o do público, que lhe deu vários sucessos – do musical “Oh, que Delícia de Guerra!”, em 1966, a “O Vampiro e a Polaquinha”, em 1992.

 

A sua obra de diretor de teatro – é assim que gostava de ser tratado, como um simples diretor de teatro – é pouco extensa, se comparada a de alguns de seus contemporâneos. Na primeira década da carreira, anos de 1960, ele dirigiu pouquíssimos espetáculos: “Auto da Compadecida”, “Gente Como a Gente”, “Doce Pássaro da Juventude”, “Oh, que Delícia de Guerra”, “O Burguês Fidalgo”,

 

“Marat/Sade” e “Hair”, que o identificaram como diretor de musicais e de elencos numerosos. A música, como a dança, foi presença constante em suas direções, seja no antológico “Saudade do Brasil”, de Elis Regina, seja no atrevido e libertário “Revista do Henfil”, que se transformou em bandeira da anistia política e da luta contra a ditadura militar.

 

Paralelamente ao teatro e à dança (dirigiu para o Ballet Stagium espetáculos como “A Infanticida Marie Farrar”, de Brecht, e “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos), Ademar fez da televisão veículo para os seus projetos – da série “Gente como a Gente”, de Roberto Freire, à primeira versão de “Vila Sésamo”, e aos teleteatros na TV Cultura e casos especiais na Globo.

 

Como no teatro, também na televisão perseguiu uma coerência de linguagem e de discurso, embora jamais tenha formulado sustentações teóricas sobre o seu trabalho e fugisse, como o diabo da cruz, da busca puramente formal e da elaboração de teses estéticas e acadêmicas – certamente, com o seu humor demolidor, ele acharia muita graça nos pós-dramáticos e todos os pós.

 

Entretanto, poucos como ele se aproximaram tanto de uma linguagem brasileira, na dramaturgia e na encenação. Seus últimos espetáculos – “Mistérios de Curitiba” e “O Vampiro e a Polaquinha”, sobre contos de Dalton Trevisan, realizados em Curitiba – sintetizavam o que atrevidamente, e para seu desgosto, se poderia chamar de o “teatro de Ademar Guerra”. O teatro de um homem só e que, obstinadamente, privilegiou o ator e a palavra, com respeito profundo e insubmisso ao público. 

 

 

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