A questão da narrativa

Publicado em: 15/09/2014

* por Martin Eikmeier, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

O recurso da narrativa, ou narratividade, no teatro pode ser manifesto de muitas maneiras diferentes. Pela fala, pelo cenário, pela luz, pela música, ou ainda, através de uma relação entre diferentes elementos que compõem a cena. Rigorosamente, é praticamente impossível construir uma cena em que não haja qualquer atividade narrativa. Ainda que se pense em termos essencialmente dramáticos, ou seja, em uma história contada através da ação progressiva e do diálogo entre personagens; uma história que se move adiante por meio do conflito subjetivo entre pessoas com caráter definido. 

 

O que está em jogo, portanto, é a intencionalidade. Qual o propósito do recurso narrativo no teatro? Por que lançar mão da narrativa, se a cena em sua configuração tipicamente dramática, em que há ação dialogada e autônoma, é capaz de produzir uma história? Mais uma vez, existem muitas respostas para essa pergunta, mas vou me concentrar em uma, amplamente debatida por autores como Anatol Rosenfeld, Raymond Williams, Roberto Schwartz e também o dramaturgo Bertold Brecht. Retomo a questão pois entendo que é importante difundi-la sempre que possível. 

 

A narrativa é um recurso que permite historicizar a cena. Em outras palavras, revelar a inscrição de um episódio mostrado na cena em um tempo específico da nossa história. Favorecer, dessa maneira, a configuração de um contexto. Contexto que nos permite ler a ação de um personagem, seu comportamento diante do mundo e dos outros, não apenas pelo exame de seu caráter, mas pelas condições sociais, políticas e ideológicas que produzem o seu caráter. 

 

Trata-se de mostrar que a consciência de um individuo diante da vida é constituída dentro das condições históricas em que ele vive. É passível de ser mudada e transformada, desde que mudem também as condições em que foi forjada. Ao espectador é apresentada uma chance de participar ativamente e de forma crítica da obra. De tomar posição, portanto. Ele não está mais apenas diante de um julgamento de caráter, preconcebido por critérios morais. O que está em jogo é o exame da história. A produção de uma consciência que contribui para desideologizar a compreensão que temos da vida e dos episódios que nos cercam. 

 

Lanço mão de um exemplo, bastante vivo atualmente na minha experiência com teatro. Trata-se da peça “O círculo de giz caucasiano”, de Bertold Brecht, encenada em 2006 pela Companhia do Latão e remontado esse ano (2014) para a temporada de repertório do grupo. A peça lida com um conjunto de temas, fundamentais para o momento em Brecht a escreveu. Em 1944, exilado nos EUA, Brecht procura reunir questões, que o continente europeu, em ruínas, não poderia deixar de enfrentar: quais seriam as bases sobre as quais se configuraria sua reconstrução? O autor reflete em três momentos distintos do texto, a importância da descentralização do debate como ferramenta de politização dos indivíduos, diante das decisões que o momento iria lhes impor. A necessidade e as armadilhas da bondade e da solidariedade em tempos de barbárie. E, por fim, o potencial de transformação radical que um momento de exceção, como o fim de uma guerra daquelas proporções reserva, bem como as atitudes e ferramentas políticas mais indispensáveis que ela exige. 

 

O texto começa com um prólogo em que 2 grupos, ao fim da guerra, discutem a posse sobre um pedaço de terra localizado em um vale no leste da Europa. Um deles havia ocupado a região antes da guerra e utilizado seus pastos para a criação de cabras. Alegam que os pastos daquela região são indispensáveis para a qualidade do queijo produzido a partir do leite de suas cabras. Durante a guerra, por considerar aquele pedaço inseguro, o grupo decide fugir. O Vale é então ocupado pelo segundo grupo, que defende o território e desenvolve um plano de irrigação para o plantio. O direito sobre a terra é, de um lado, defendido pela ancestralidade, de outro, pelo melhor uso que se fez dela. É chamado um perito e um grupo de cantores e atores, que pretendem através da apresentação de duas histórias, a da criada Gruscha e a do juiz Azdak, contribuir para o debate. Não vou discutir as histórias, em si, seu enredo é bastante conhecido. Quero me concentrar na importância do prólogo para a leitura dessas histórias.

 

O que está em jogo na configuração desse prólogo é a necessidade dos indivíduos envolvidos no litígio de encontrar novos caminhos para resolver seu impasse. É o fim da guerra, contexto de exceção, de ausência de um Estado configurado e, portanto, de instituições civis e jurídicas capazes de interferir em uma situação como aquela. É, ao mesmo tempo, o momento ideal para projetar novos caminhos que deem conta de lidar com esse tipo de situação, sem que seja preciso recorrer às armas, à violência e ao cinismo típico das instituições dominantes. Instituições que, vale lembrar, conduziram o mundo ao estado hediondo testemunhado por aquela geração que havia experimentado duas guerras sucessivas, e da qual Brecht fez parte. 

 

A importância do prólogo é conectar as histórias que se seguem não apenas ao momento atual, vivido pelo autor, mas a uma função. O discurso contido nesse arranjo põe em debate o próprio uso da cultura, especificamente das histórias e das narrativas, como ferramenta política. Como meio para o aprendizado sobre o passado; capaz de iluminar questões do presente e facilitar a compreensão das situações de conflito experimentadas pelo homem. É, portanto, parte fundamental da obra e aquela sobre a qual o encenador deve concentrar os esforços de atualização. 

 

O prólogo, e também a obra como um todo, revela dois elementos característicos da obra do autor: o interesse pelos momentos na história em que nos encontramos em estado de exceção e a possibilidade contida nessas situações para que o homem reivindique mudanças radicais. É o que encontramos em “Galileu Galilei”, “Mãe coragem”, “Santa Joana dos Matadouros”, para ficar com alguns exemplos. Mas revela, também, o gosto pela narrativa, por contar histórias. Sobretudo em sua função tradicional (por que não?), que é o aprendizado, ou ainda, a formação para o debate. 

 

Através do ato de se contar uma história, o autor não pretende apenas entreter seu público, mas encaminhar a possibilidade de um novo raciocínio, diferente daquele que habitualmente nos servimos para compreender determinados episódios que nos cercam. Fenômeno esse que conhecemos como ideologia. Contar histórias com esse propósito é, por assim dizer, um ato de fé na democracia em seu sentido mais amplo. Ou seja, na capacidade do homem em se organizar coletivamente, lançar mão de ferramentas para compreender o mundo em que vive e garantir que todos aqueles que nele vivem possam usufruir das mesmas condições. No “Círculo de giz caucasiano”, especificamente, há o esforço em nos mostrar um mundo conhecido, identificável. Contudo, acompanhado de uma pergunta fundamental: e se as coisas pudessem ser diferentes por um instante, como poderíamos agir para garantir uma transformação mais ampla e duradoura?