A Escrita da Luz – Uma Conversa com Cibele Forjaz

Publicado em: 24/11/2010

Um conversa virtual com Cibele Forjaz, diretora artística da Cia. Livre de Teatro literalmente iluminou as ideias e clareou as dúvidas dos participantes do bate-papo online da última quinta-feira (18) que teve como tema “Dramaturgia da Luz”e foi realizado no site da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco. 
 

Cibele é formada pelo Departamento de Artes Cênicas da ECA/USP. Assim que começou a trabalhar com a Cia. A Barca de Dionisos, na montagem de “Leonce e Lena” (1987), tornou-se iluminadora. Após 20 anos de prática na direção e na criação de luz, passou a estudar o desenvolvimento da linguagem da iluminação cênica, em sua relação com os caminhos da encenação. O eixo central desse estudo (e tema de sua dissertação de mestrado) é a transformação da função da iluminação cênica, de instrumento da visibilidade para elemento estrutural e estruturante da escrita cênica.
 

A iluminação cênica é uma profissão relativamente nova no mundo. Os primeiros profissionais especializados (não apenas na técnica da iluminação, mas no desenho e escrita da luz) surgiram na segunda metade do século XX. No Brasil dos anos 60, o primeiro profissional que se nomeou como iluminador foi Jorginho de Carvalho. Sempre ligada às novas tecnologias, a iluminação, desde o teatro grego, possui efeitos de reflexão e ilusão de ótica.
 

No Renascimento, a redescoberta do edifício teatral e a relação entre ciência, técnica e arte incentivaram o desenvolvimento da cenotécnica e da luminotécnica, segundo Cibele. Nesse período, nasceram os primeiros estudos sobre as cores, ângulos de incidência da luz, relação entre iluminação e a geometria, utilização de metais reflexivos e miríades de efeitos de luz, como incêndio e explosão para imitar os efeitos da natureza.
 

“Historicamente, a iluminação cênica sempre esteve ligada às novas tecnologias”, esclarece Cibele. “A grande diferença é como as novas tecnologias são usadas como linguagem para ajudar a escrever a cena. Se os refletores/projetores com movimento (catalysts), último grito da tecnologia, são usados como se fossem telão de fundo, não existe desenvolvimento real de linguagem. O que interessa é a relação entre a tecnologia e a sua utilização pelo criador na escrita da luz, ou seja, a relação entre o homem e a técnica”, afirma.
 

Quando indagada sobre qual é o melhor período para se iniciar o trabalho de iluminação no espetáculo, Cibele responde que esse momento é quando o texto ou o tema é escolhido pelo diretor ou grupo. “A luz é muito importante na escrita do espetáculo. Como iluminadora, participo de todo o processo, incluindo pesquisa, análise, experimentações cênicas, improvisos, ensaios, montagem, roteiro, ensaios gerais, estreia e temporada. Como diretora, tenho sempre um(a) iluminador(a) ao meu lado durante todo o processo de pesquisa e criação”, revela.
 

Durante a conversa virtual, Cibele explica ainda que, como iluminadora, se dedica principalmente à pesquisa e à docência, com o intuito de estudar e escrever sobre a história da iluminação. “Eu ensino luz na graduação das artes cênicas da USP e o foco do curso é exatamente a escrita da luz e a sua relação com as demais linguagens que compõem o espetáculo. Temos bastante ensino técnico, mas sempre ligado à ideia da iluminação como editora da ação no teatro.”
 

Cibele também acrescenta que, para se tornar um profissional especializado no desenho e na escrita da luz, é necessário aliar teoria à prática e, aproveitando o tema, cita os trabalhos que mais admira. “Considero eficaz as longas parcerias entre iluminadores e diretores. É assim, por exemplo, com Guilherme Bonfanti e Antônio Araújo, no Teatro da Vertigem; de Marisa Bentivegna com a Cristiane Paoli Quito, no trabalho da Cia. Nova Dança 4; Maneco Quinderé com o Enrique Diaz, na Cia. dos Atores; no meu trabalho com Zé Celso, no Teatro Oficina e com a Alessandra, na Cia.Livre de Teatro, entre muitos outros”, esclarece.
 

Ao final da conversa, Cibele acrescenta que a luz na escrita da cena deve ser a parceira fundamental da direção na medida em que ela faz uma articulação entre tempo e espaço em uma espécie de edição da ação na cena. Também reitera a  importância da presença do iluminador em todos os momentos da criação para que a luz possa ser uma escrita com consciência.
 

“A luz na cena não é decoração, por isso seu objetivo não é a beleza mas, sim, a edição. Para isso, o profissional que desenha e escreve a luz tem que ter tanta consciência do processo e do texto quanto o diretor e os atores. É necessário muito trabalho diretamente relacionado com o processo de criação do espetáculo”, finaliza.