A Cena Imaterial

Publicado em: 21/04/2011

Muitos aprendizes dos períodos Vespertino e Matutino da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco participaram de uma master Class especial na qual o cenógrafo e arquiteto Luca Ruzza discorreu sobre a cenografia virtual e as aplicações de sistema multimídia nas artes cênicas.
 

O encontro, realizado na terça-feira (19/04), no Tusp, partiu do princípio de que o teatro é a simulação física de um espaço mental, uma definição que faz refletir sobre a necessidade de se traduzir fisicamente a informação cultural, estabelecendo uma relação entre a ação e o espaço físico e psíquico com o corpo, por meio de uma espécie de interface com sistemas multimídia.
 

E=mc², conceito no qual Albert Einstein revelou que qualquer massa possui uma energia associada e vice-versa, mudou toda a estrutura do teatro contemporâneo, segundo explicação de Ruzza durante o encontro. Para ele, o fazer teatral, até o fim do século passado, era ligado ao espaço físico em plena concepção da palavra. Hoje, com a descoberta de Einstein, associada ao advento da tecnologia, o teatro passou a ser, acima de tudo, uma simulação física do espaço mental onde o espaço pode caber em uma chave USB e o corpo do ator é utilizado como uma interface.
 

Assim, Ruzza propõe uma nova dramaturgia que segue um princípio não-sequencial e imersivo. “Nosso sistema cerebral não é sequencial. Recordamos pela intensidade emocional em conexões arbitrárias entre um neurônio e outro. O teatro do qual estou falando se funda sobre uma simultaneidade de ações e elementos visíveis e sonoros. Quase como um jogo de videogame que se torna a própria e real experiência do jogador”, explica.
 

O artista esclarece ainda que o sistema dos jogos funciona porque os espaços programados virtualmente se compoem e se inserem na mente do jogador. “Dentro da máquina, na tela do computador ou da televisão, o jogo atinge as zonas da realidade em nível cerebral e isso está provado, pois há casos de pessoas que, ao detalhar um jogo, apontam cenas e características que não estavam na programação.”
 

Ruzza também enfatizou que, nessa nova dramaturgia, pode-se dizer que o espaço da memória é um território que precisa ser interpretado como o teatro é interpretado e, por meio de diferentes aplicações de sistemas multimídia, o espectador pode compor o espetáculo, seu enredo e até as personagens, autonomamente e automaticamente. 
 

Na sequência, e para finalizar o encontro, o cenógrafo exemplificou suas palavras utilizando trechos de espetáculos como “Self Unfinished”, de Xavier Le Roy; “Stifters Dinge”, de Heiner Goebbles; e “Tragedia Endogonídia m#10”, de Rafaello Sanzio.
 

Rodrigo Roman, aprendiz de Sonoplastia, participou do evento e contou que a música sintetizada comumente utilizada nesse tipo de espetáculo, foi o que mais chamou sua atenção. “É um barulho sem sentido que parece ligado ao nosso inconsciente.”
 

“Ruzza fez um apontamento para uma coisa que nem contemporânea é ainda. Esta por vir. É muito impactante ver um espetáculo com a ausência de um corpo, encenado somente por máquinas. Esse tipo de atmosfera hermética do pensamento provoca, sem dúvida, uma transformação no modo de pensar o teatro”, concluiu Chico Santo, aprendiz de Direção, após sair da palestra.