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Vida, morte, roteiro: aulas-poema

Publicado em: 04/04/2022

Chá e Cadernos 100.84
Mauri Paroni

A notícia de que Alan Delon, o ator do cinema novo francês, obteve a autorização do Governo Suíço para realizar o seu suicídio programado traz muita tristeza, inspira respeito a esse luto futuro, à realidade trágica e irracional das guerras, mas contraste à sua racionalidade e uma reflexão: ator, ele mesmo escreve o roteiro do que não se poder fingir: a morte.

Para além da questão do suicídio ou não físico, que o filosofo argelino Albert Camus (1913-1960) tão bem opôs ao “suicídio filosófico” pelo enfrentamento de viver uma existência – qual seres racionais em grito para dar sentido à vida num universo indiferente que nos responde com nada além do silêncio da finitude mortal.

Diante desse confronto – que Camus chamou de Absurdo – não consigo parar de pensar sobre como conduzir um curso que estimule a criação de roteiros artísticos. Sim, podem ser esferas totalmente diferentes; entretanto, não deixarei a severa reflexão de que o que se cria no curso corra sem paralelo àquela realidade programada diante do sofrimento da morte a que nos destinamos.

Fosse a última aula em vida, e sabendo disso, tentaria escrever um longo poema para sintetizar um mínimo conhecimento convencional de criação.

Alain Delon filmando Rocco e Seus Irmãos (1960) direção de Luchino Visconti

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Autógrafos de Albert Camus

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Poema-Síntese para Criação de Roteiro Convencional

Projetos em superfície de um roteiro artístico são importantes, mas:

Divaga.
Anota.
Respira.
Sonha.
Escreve.
Lê.
Pensa.
Decora.
Tranca o projeto numa gaveta, volte a olhar no final da criação.

Continua a rever o que pode nascer de teu inconsciente. Inventa atitudes tuas para isso. Aceita tuas incertezas. Considera-las, uma a uma.

Fica só.
Bebe.
Apaixona-te por alguém.
Apaixona-te por teus recalques.
Chora.
Sente-te pessoa ridícula.
Joga-te fora.
Corta travas.
Sofre.
Faz sofrer.
Desespera-te
Ama-te.
Espelha-te.
Fustiga-te.
Alegra-te.

Pensa a quem quer contar o que criaste, e com qual linguagem.

Vai em busca de ideias para tal. Mesmo as mais estúpidas.
Nomeia-as. Pesquisa sobre elas.
Obtém informações sobre elas.
Organiza-as formando famílias,
Corta as inaproveitáveis.

Monta uma estrutura “gramatical” e consequencial com elas. Pode ser literária, pictográfica, musical, fílmica, culinária, documental, psicológica, missivista, religiosa, iconoclasta. Deve poder realiza-la a custo mínimo.

Inicia a construção das figuras e personagens existentes na criação da primeira gramática;

Redige sucessivas transições:
de situação,
de tempo,
de lugar,
de ações físicas,
de pensamento.

Monta estruturas humanas de personagens. Para cada uma delas:

Verifica que sejam seres humanos a dizer, fazer, pensar e sentir.
Não precisam ser verossímeis.
Precisam ser críveis.
Não precisam ser realistas.
Precisam viver num mundo mental que não acontece no texto, mas na mente do narratário (a quem se dirige a tua criação).

Tenhas consciência de que possuis somente o controle relativo do todo, como mãe e pai da realidade criada. Podes educar, mas não controlar.
Pode mover a marionete para alimentar a mente de quem assiste.

As personagens estarão horrivelmente bloqueadas.

Para libertá-las de ti, pensa em quem são, em como se chamam, olha suas cartas de identidade, maternidade, paternidade.
Pensa em como se conheceram.
Que animal seriam.
Como se chamariam.
Como morrerão.

Vai a um confessionário.
Fale com um bruxo (a).
Responda se gostas ou odeias as quem criaste.
Seja detalhista. Real.

Sai à rua,
Observa as pessoas.

Desse ponto de vista,

Caminha.

Ao caminhar, tenta lembrar do que viste, exatamente, dos fatos.
E exatamente no que imaginaste.

***

Em outra aula, volta com um título de um sonho de um roteiro.
Pode ser tudo:
Existência, musica, pintura, desenho, foto, filme, estória, peça, conto, romance, fofoca, telefonema.

No fim, devem virar gente que faz o pensamento, o texto, seja quadro, filme, o que for, corra sozinho, irreflexo, um “outro de si”.

Pinocchio.

***

Em outra aula, pensa:

O que,
quem,
onde,
quando,
como,
porque.

Finalmente, atribua-se títulos ao texto e as suas subdivisões face à releitura do primeiro projeto anotado e engavetado.

***

Em outra aula.

Isto feito, estarás apto a repensar roteiro de alguma coisa que provoque a arte.
Reafirma ou ré escolhe o tema.
E se inicia a conversa seria para a redação final.

***

Mishima discursando a membros do Tate no Kai e militares, antes de cometer suicídio por seppuku (25 de novembro de 1970)
foto livre CC https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/nl/deed.en

***
Medite e respeite sobre o que te significa a pandemia.
A guerra.

Se necessitas mais estímulos,
Releia sobre Alain Delon;

Se fosses Alain, como te imaginarias diante tal suicídio assistido? Vale de Sócrates a um animal selvagem [ https://www.bbc.com/portuguese/vert-earth-37082946 ]

Escreve.

Vai ao primeiro bar e conte ao primeiro desconhecido que encontras.
Confessa-te a um padre, mesmo sem acreditar no Catolicismo.
Conta como um sonho a um parente.
Pensa nas três diferentes versões.

***

Redige mais uma vez o roteiro.

***

Fosse a última aula em vida, escreveria isso.

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(*) O japonês Yukio Mishima foi um dramaturgo, ensaísta, poeta. diretor de cinema acionalista fanático, cometeu suicídio ritual e publico.

Fontes:

Albert Camus, Le Mythe de Sisyphe, Gallimard, coll. « Folio Essais », Paris, 1987