Vertigem quinta:  As pragas do Egito na Bíblia judaica vistas como pandemia

Publicado em: 15/07/2020

Mauri Paroni
Chá e Cadernos, 100.31

 

As pragas do Egito são um excelente exemplo de literatura totalizante do plano religioso ao político e moral. É escritura fundamental da Bíblia Judaica.  De maneira absolutamente sucinta, narra dez pragas que acometeram o Egito faraônico e mítico de milênios atrás (*).Eu gosto de imaginar os fatos do êxodo como a manifestação da identidade judaica como nação. Sobre isso, consultei meu ex colega de universidade, Fernando Lottenberg, presidente da CONIB – Confederação Israelita do Brasil – advogado e cientista político. Fernando acha mais preciso dividir a manifestação da identidade judaica em dois momentos – individualmente, quando Abrahão sai de Ur para fundar uma nova nação e, coletivamente, quando do recebimento das Tábuas da Lei. Após a destruição do Segundo Templo de Jerusalém pelas legiões romanas de Tito, em 70 d.C., massacrando sua população e extinguindo o Estado Judeu da época, iniciou-se o que se denomina a Diáspora. O povo de Israel vagou secularmente por todos os cantos deste mundo, num nomadismo plural e, por que não, culto, característica indelevelmente judaica. A auspiciada reconstrução de Israel enquanto Estado se deu somente em 1948. Esta é uma digressão histórica importante, mas foge do âmbito de nosso artigo, por não estar diretamente ligado à narração das pragas egípcias.

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Divisao de águas e  Travessia do Mar: apresento a seguir duas metáforas definidores do Ocidente Mediterrâneo.

Oriente/ocidente, norte/sul, conservador/progressista, direita/esquerda, bom/ruim, bem/mal etc. são conceitos convencionais da dualidade, de “divisão de águas” que funcionam como marcadores históricos e geográficos desde a “travessia do mar” Vermelho, no êxodo. Mas seria bom também saber pensar sem deles. Outras qualificações do senso comum não servem artistas que trabalham fora do ciclo do consumo estético. Aquelas, no momento ruim desta pandemia que vivemos, servem somente para reafirmar convicções ditadas pelo desespero de xingadores profissionais. Ou servem a conveniência dos que roubam o alimento da progressão da história ou prezam o incomodo de haver um   artista vivo. Isso é assustadoramente banal. Acontece na minha família, por exemplo, e sei que em  muitas mais: aliás, a todos, numa intensidade que tendemos a ignorar, mas que toma pelo menos metade nossa existência. Praga que convive com a espécie humana, como os ratos. Para não nos desesperarmos, acontece também no sentido inverso: praga como o amor. Como o teatro. Como o tempo. Pode-se divagar infinitamente, mas tratemos de restringir restringir o quadro.

Quando se aprende a assimilar conhecimento usando divisores de águas como degraus de informação para se construir uma formação, caminha-se com serenidade como o São Tomé que utiliza a duvida para ter a sua fé reafirmada, ou – inversamente – caminhar sobre o fogo do Inferno e acabar na fogueira, como fez o monge beneditino Girolamo Savonarola (1452-1498) na Florença Renascentista. Ele queimava obras de arte no lugar e tempo da maior produção artística da História ocidental.

Há também um paralelismo entre o êxodo judaico e a poesia de Homero, a Odisseia. Uma viagem, sempre. De um ponto a outro, como e’, de resto qualquer vida que ambiciona ter significado extrínseco. O que seria de Ulisses se voltasse para Ítaca imediatamente depois de derrotar Troia? Certamente não um poema, mas um retorno àquela tediosa areia movediça que se tende a chamar de “novo normal”. Homero será assunto para um próximo artigo.

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Leitor da Bíblia por ser leitor de Brecht e Shakespeare, vejo o livro do Êxodo, aquele da travessia do mar vermelho, do Moisés, e das maldições aos egípcios, como o marco da formação da identidade de um povo que foi nação sem ter um estado por milênios. Originou-se dai uma cultura que foi uma das espinhas dorsais da linguagem de nossa atualidade.

Se tomarmos a metáfora ao pé da letra, seremos brindados com a violência atávica de qualquer pandemia.

As pragas do Egito ali estão relacionadas, de maneira literaria, eu diria um roteiro perfeito e multifacetado,  na Torá , a Bíblia judaica, o chamado Antigo Testamento para os cristãos.

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Tissot: as águas transformam-se em sangue.

As pragas propõem roteiros:

De identidadede cultural coletiva;

De utopia;

De retirada numa guerrilha;

De política de resistência em favor de um deus invisível livre do culto a imagens versus a deuses poderosamente ricos e politeísta.

Apesar da movimentação militar bélica, e’ um roteiro sobretudo da defesa da tolerância ao diverso, na medida em que propõe a luta e a fuga para uma autodeterminação coletiva ruma à liberdade. Não posso provar a inexistencia disso nas metaforas da travessia do Mar Vermetlho, ou  provar a inexistência de Deus, assim como chineses não podem conceber um Oriente sem Tao e Confucio,  sem a doutrina da piedade filial e da organização/harmonia, entre céu e terra para a existência de vida.  Do mesmo modo, na cultura da oralidade, da intuição e do respeito racional pela natureza, africanos e ameríndios por excelência; ou mesmo dos runas, da inerente pluralidade de todos os povos deste planeta. Nem podemos nos esquecer que o Egito antigo protagonizou uma emblemática guerra civil quando da reforma religiosa do faraó Amenothep IV pela introdução do monoteísmo no culto de Áton, o deus do Sol, pelo faraó, derrotado. Novo Império, em cerca de 1400 a. C., numa mudança de mentalidade que certamente teve sua relação de descendência do êxodo de Israel.

Altar caseiro mostrando Akhenaton, Nefertiti e três de suas filhas. XVIII Dinastia, reinado de Akhenaton.

Mudança de ideologia e’ relativamente fácil se comparada a mudança de mentalidade, mais lenta. Entretanto, o divisor de águas normalmente e’ marcado por uma pandemia. A literatura, religiosa ou não, não se esquece disso, mas é’ preciso diferenciar o modo de narrar, como se percebe nesta serie de artigos.

Mas esta seria outa digressão; portanto, voltemos ao tema inicial.

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Enquanto não judeu (goj), considero-me sempre honrado de ser convidado para um seder – jantar cerimonial da Pascoa judaica. Cada iguaria traz um símbolo do êxodo, e fazrm uma grande brincadeira de quis bíblico com as crianças. Fico maravilhado com a simbologia e a ordem das iguarias, essa  narração culinária como profissão de fé que conta a luta pela liberdade do povo hebreu. Assim como uma missa crista é, também,  narração culinária,  coisa  da origem judaica, mas também da abstenção alimenter budista hinayana.  O fato de um budista mahayana agradecer à vida do animal que dá a sua própria para a minha continuidade condena a selvageria das criações de gado exageradas e dos rodízios churrasqueiros. Não necessariamente o consumo da carne. Chama-se civilização: diferenciar o que mata em massa do que liberta em massa.

A identidade judaica pode ser  vista como uma longa luta pela liberdade; ao  mesmo tempo, poderia ser vista como um modo de subjugar quem não eh judeu. A diferença pode ser evidenciada, por exemplo, na simbologia do Seder: a lembrança narrada em família das pragas do Egito: celebra-se a falta para lembrar a liberdade.

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No Livro do êxodo estão relacionadas as pragas como uma pandemia. Vestígios indicam, do ponto de vista factual, que foram originadas pela explosão de um vulcão em Santorini, ilha grega.

Do ponto de vista religioso, a figura de  Moisés, e sua raiva transformada em fé ensina ainda, sobre a liberdade. Esta não “desensina”, visto o que dispõem certo gurus, e há milhões de animais aspirantes a primogênitos que promovem churrascos sobre mortos, mas, dada a velhacaria eleitoreira calculada, não tivera a coragem de realizar no fato. Estamos ainda vivendo a praga. Mas também, espera-se uma importante mudança de mentalidade, ate’ porque disso tudo indica que dependa o progresso da história humana. Obrigação será de reinventar a nossa linguagem, e ela parte, como sempre, do que fundam os poetas: artistas. Não se pode fingir-se artistas. Ou se é artista ou não.

Frequentador assíduo de associações de resistentes, entre um copo de vinho e outro, fiz amizade com um combatente judeu que usou o êxodo como um seu manual de guerrilha, para si e seus comandados. Era um ótimo artista, a suo modo. Estratega e, por isso, pessoa de fé. Falava em exercito da fé, em hebraico, já no quinto copo. Os mesmos copos que no seu passado partisã serviram-lhe para sobreviver nos dois meses em que foi trancafiado e torturado pelas tropas invasoras, no finzinho na segunda guerra. Salvou-se sobretudo por saber tocar seu clarinete, que o comandante wermacht muito apreciava ouvir.

Deixo ao leitor as palavras – adoraria saber o hebraico – da enumeração das pragas. Sugiro metaforizar o que encontraremos no futuro com esta narrativa tão antiga. Um imenso exercício artístico de humanidade e fé no futuro.

Boa travessia.

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“Disse Jeová a Moisés e Arão na terra do Egito:

Este mês será para vós o princípio dos meses; este vos será o primeiro dos meses do ano.

Falai a toda a congregação de Israel: Ao décimo dia deste mês tomarão para si um cordeiro cada um, segundo as casas de seus pais, um cordeiro para cada família.

Se a família for pequena demais para um cordeiro, então o tomará ele e o seu vizinho mais próximo segundo o número das almas; conforme o comer de cada um, calculareis quantos bastem para o cordeiro.

O cordeiro, ou o cabrito, será sem defeito, macho de um ano; haveis de tomá-lo das ovelhas ou das cabras; e o guardareis até o décimo quarto dia deste mês. Toda a assembléia da congregação de Israel o matará à tardinha.

Tomarão do sangue e pô-lo-ão sobre as duas umbreiras e sobre a verga das portas, nas casas em que o comerão.

Naquela noite comerão a carne assada no fogo, e pães asmos; com ervas amargas o comerão.

Não comereis dele cru, nem cozido em água, senão assado no fogo; comereis a sua cabeça com as suas pernas e com a sua fressura.

Nada deixareis dele até pela manhã; porém o que dele ficar até pela manhã queimá-lo-eis no fogo.

Desta maneira o comereis: tendo os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés e o vosso cajado nas mãos; comê-la-eis à pressa. É a Páscoa de Jeová.

Porque naquela noite passarei pela terra do Egito, e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, tanto homens como animais; sobre todos os deuses do Egito executarei juízos: eu sou Jeová.

O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes: quando eu vir o sangue, passarei por vós, e não haverá entre vós praga para vos destruir, quando eu ferir a terra do Egito.

Este dia vos será por memorial, e o celebrareis como uma festa por estatuto perpétuo.

Sete dias comereis pães asmos. Logo ao primeiro dia tirareis das vossas casas o fermento, pois todo o que comer pão levedado desde o primeiro dia até o sétimo, será cortada de Israel aquela alma.

Ao primeiro dia haverá para vós uma santa convocação; e ao sétimo dia uma santa convocação; nestes dias não se fará nenhuma espécie de trabalho, exceto o que diz respeito ao comer, somente isso poderá ser feito por vós.

Guardareis a festa dos pães asmos, porque nesse mesmo dia fiz sair os vossos exércitos da terra do Egito; portanto observareis este dia de geração em geração por estatuto perpétuo.

No primeiro mês, aos quatorze dias do mês, à tarde, comereis pães asmos, até os vinte e um dias do mês à tarde.

Por sete dias não se achará fermento nas vossas casas; pois todo o que comer pão levedado será cortado da congregação de Israel, quer seja ele peregrino, quer seja natural da terra.

Nenhuma coisa levedada comereis; em todas as vossas habitações comereis pães asmos.

Chamou Moisés todos os anciãos de Israel e disse-lhes: Tirai do rebanho e tomai-vos cordeiros segundo as vossas famílias e matai a Páscoa.

Tomareis um molho de hissopo (**), ensopá-lo-eis no sangue que estiver na bacia, e marcareis a verga e as duas umbreiras com o sangue que estiver na bacia. Nenhum de vós sairá da porta da sua casa até a manhã.

Pois Jeová passará para ferir os egípcios; quando vir o sangue sobre a verga e sobre as duas umbreiras, passará Jeová por aquela casa e não permitirá entrar o destruidor nas vossas casas para vos ferir.

Guardareis isto por estatuto para vós e para vossos filhos para sempre.

Quando tiverdes entrado na terra que Jeová vos há de dar, como tem prometido, observareis este serviço.

Quando vossos filhos vos perguntarem: Que quereis dizer com este rito?

respondereis: É o sacrifício da Páscoa de Jeová que passou as casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu aos egípcios e livrou as nossas casas. Então o povo, prostrando-se por terra, adorou.

Foram-se os filhos de Israel, e assim fizeram; como Jeová ordenara a Moisés e a Arão, assim fizeram.

Aconteceu que à meia-noite feriu Jeová a todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó que se assentava no seu trono até o primogênito do cativo que estava na enxovia; e todos os primogênitos dos animais.

Levantou-se Faraó de noite, ele, todos os seus servos e todos os egípcios; e fez-se um grande clamor no Egito, pois não havia casa sem algum morto.

Então mandou chamar a Moisés e a Arão de noite e disse: Levantai-vos, saí do meio do meu povo, tanto vós como os filhos de Israel; ide, servi a Jeová como tendes dito.

Levai convosco os vossos rebanhos e os vossos gados, como tendes dito, e ide-vos embora; abençoai-me também a mim.

Os egípcios pressionavam o povo, para o lançarem fora da terra à pressa, pois diziam: Todos nós somos mortos.

O povo tomou a sua massa antes que fosse ela levedada, sendo as suas amassadeiras atadas em seus vestidos sobre os seus ombros.

Fizeram também os filhos de Israel segundo as palavras de Moisés: pediram aos egípcios jóias de prata, e jóias de ouro, e vestidos.

Jeová deu ao povo graça aos olhos dos egípcios, de maneira que estes deram ao povo o que pedia. E despojaram aos egípcios.

Viajaram os filhos de Israel de Ramessés a Sucote, sendo perto de seiscentos mil homens de pé, sem contar as crianças.

Subiu com eles uma grande mistura de gente; também rebanhos e gados, muitíssimas cabeças.

Cozeram bolos asmos da massa que levaram do Egito; pois ela não se tinha levedado, porque foram lançados fora do Egito. Não puderam deter-se, nem haviam preparado para si alguma comida.

Ora o tempo que os filhos de Israel moraram no Egito foi de quatrocentos e trinta anos.

Ao fim dos quatrocentos e trinta anos, nesse mesmo dia aconteceu que todos os exércitos de Jeová saíram da terra do Egito.

É uma noite mui digna de se observar a Jeová, porque os tirou da terra do Egito; esta é aquela noite de Jeová, mui digna de se observar por todos os filhos de Israel nas suas gerações.

Disse Jeová a Moisés e a Arão: Esta é a ordenança da Páscoa: nenhum estrangeiro comerá dela; todo o escravo comprado por dinheiro, depois que o tiveres circuncidado, comerá dela.

O forasteiro e o mercenário não comerão dela.

O cordeiro há de ser comido numa só casa; da sua carne não levareis nada fora da casa, nem lhe quebrareis osso algum.

Toda a congregação de Israel a observará.

Quando um estrangeiro peregrinar entre vós e quiser guardar a Páscoa a Jeová, circuncidem-se todos os seus machos, então se chegará e a observará. Será como o natural da terra, porém nenhum incircunciso comerá dela.

Haverá uma mesma lei para o natural e o estrangeiro que peregrina entre vós.

Assim fizeram todos os filhos de Israel; como Jeová ordenara a Moisés e a Arão, assim fizeram.

Naquele mesmo dia tirou Jeová os filhos de Israel da terra do Egito por suas turmas.”

Papyrus 120, P.Oxy 4804, dos Papiros de Oxirrinco, um imenso conjunto onde encontram-se escrituras bíblicas antigas.

(*) Este paragrafo, extraído da wikipedia, elucida-nos o que pode  nos significar, secularmente, o  Êxodo:

“Livro do Êxodo ou simplesmente Êxodo (do em grego antigo: ἔξοδος, éxodos, “saída” ou “partida”; em hebraico: שְׁמוֹת, Shəmōṯ, “nomes”, a segunda palavra do começo do texto: “Ora estes são os nomes dos filhos de Israel, que entraram no Egito”) é o segundo livro da Torá (vem logo depois de Gênesis) e o segundo da Bíblia hebraica (o Antigo Testamento dos cristãos).

Ele conta a história do Êxodo, ou seja, de como os israelitas deixaram para trás a escravidão no Egito por sua fé em Yah, que escolheu Israel como seu povo. Liderados por seu profeta, Moisés, eles viajaram pelo deserto até o monte Sinai, onde Javé lhes promete a terra de Canaã (a “Terra Prometida”) como recompensa por sua fidelidade. Os israelitas passam a fazer parte da aliança com Javé, que lhes fornece suas leis e instruções para a construção do Tabernáculo. Segundo o relato, Yah então desceu do céu e habitou com eles, liderando o povo na guerra santa para conquistar a terra e conseguir a paz.”

(**) Erva ( Hyssopus officinalis ) nativa do Sul da Europa, de flores róseas ou esbranquiçadas, cultivada por suas propriedades medicinais para extração de óleo essencial, usado em licores e bactericidas.

 

 

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